OS RODRIGUEZ. MARIA JOSÉ DUPRÉ. editora ática. SINOPSE OS RODRÍGUEZ. Se dissesse que Os Rodríguez conta a história de uma família, não diria nada, ou diria muito pouco. Porque o que faz o êxito desse romance, agora em sétima edição, não são os problemas particulares de uma família. O que prende os leitores de Os Rodríguez e os põe a refletir, é a ambição de Dora, a heroína, para quem a pobreza constitui a origem de todos os males, enquanto a riqueza e a glória de um nome ilustre seriam a realização da felicidade. “Um nome é muita coisa, depois do dinheiro, bem entendido.” “Os dois, aliados, são quase tudo, para não dizer tudo, na vida.” Como somos todos tentados, quase diria coagidos, a pensar e a viver como Dora - o romance nos interessa do início ao fim. Interessa sobretudo aos jovens, aos quais é próprio sonhar falsa grandezas. Há que considerar também o talento de Maria José Dupré - “enorme”, segundo Jorge de Lima. Sua arte de narrar, despojada de artificialismo, envolve o leitor que ri, chora, ama, vive a sorte das personagens. Maria José Dupré nasceu na Fazenda Bela Vista, Botucatu, São Paulo. As primeiras letras aprendeu-as com sua mãe e seu irmão mais velho. Estudou música com professor particular e pintura no Colégio dos Anjos, em Botucatu. Diplomou-se pela Escola Normal Caetano de Campos, na Capital. Dedicou-se ao magistério e, depois de casada com o Engenheiro Leandro Dupré, começou a cultivar a Literatura. A sua primeira obra de ficção, publicada em 1941, foi O Romance de Teresa Bernard. Seu maior êxito literário até hoje continua sendo Éramos Seis (1943), premiado pela Academia Brasileira de Letras, adaptado ao cinema em Buenos Aires e traduzido para o espanhol, francês e sueco. Sucederam-se outros romances, cujos nomes registramos no início desta obra. Enriqueceu também a nossa literatura infantil com obras que lhe aumentaram a fama de escritora e lhe deram prêmios e traduções. AVELINO CORRÊA capítulo 1 pequenina, Dora ouvira falar nos tios Rodríguez; nunca prestara atenção; mas aos nove anos de idade, quando ainda residia com os pais, na fazenda Boa Vista, aquele nome ficou-lhe, um dia, gravado para sempre na memória. Era uma menina franzina e magra; tinha os ombros curvados para a frente e a mãe sempre dizia que, quando fossem à cidade, mandaria fazer um colete especial para corrigir os ombros “dessa menina”. Sempre que se referia a ela perto dos outros, dizia “essa menina”. Dora achava que a mãe a desprezava. Seu corpo raquítico e pequeno, suas pernas finas, seu rosto sem expressão davam-lhe aspecto de criança enferma e triste. Não gostava de bonecas; quando o pai trazia-lhe alguma da cidade, punha-a de lado, preferindo acompanhar os irmãos nos serviços grosseiros da roça: andar a cavalo, percorrer os cafezais, assistir à capinação, às queimadas, às plantações. Durante duas horas por dia, a mãe punha-a sentada na sala e mandava-a costurar; fazia “bainhas de olho” nas toalhas que cobriam as mesinhas dos quartos. A agulha ficava enfiada no pano e Dora esquecia-se de puxar. Curvada para a frente, pensava, ordenando a si própria: “Endireite o corpo, Dora. Costure!” Ficava então erecta na cadeira e puxava a agulha muito vagarosamente; assim fazia as bainhas muito malfeitas e demorava muito tempo. Quando terminava as horas de costura, sentia-se abatida e com dor de cabeça; não sabia que fazer; o pai e os irmãos estavam longe àquela hora; descia sozinha pelo pomar adentro e ia sentar-se na beira do riozinho que atravessava o fundo da fazenda; ficava olhando a água correr, o corpo inclinado para a frente, as mãos sobre os joelhos, pensando. Sentia-se infeliz. Sentia-se mais infeliz ainda nos dias de chuva porque não podia sair; colocava-se junto à janela, olhando a chuva bater contra a vidraça. “Ih! Quanta lágrima.” Contava as gotas que escorriam pelo vidro e comparava-as a lágrimas. Quando pequenina, acompanhava o pai todas as manhãs até a horta e o estábulo, onde as vacas eram ordenhadas. Faziam-na tomar leite quente, tirado na hora, com um pouco de açucar e uma gota de conhaque; bebia-o fazendo caretas; não gostava, era como se tomasse remédio. Gostava de ir à horta com o pai; as folhas de couve eram carnudas, enormes e sobre elas brilhavam gotas de orvalho, cristalinas e trêmulas. O pai segurava com cuidado as folhas e a menina se inclinava para beber as gotas que deslizavam trêmulamente sobre as couves enormes; gostava porque eram frias e brancas, de uma brancura diferente. Às vezes o dia ainda não despontara e toda a fazenda já estava em movimento. Passavam empregados, colonos iam para as roças, outros, para os cafezais. Vacas mugiam, bezerrinhos eram levados para o cercado, cavalos eram trazidos do pasto, carroças eram preparadas para ir à cidade. Sentada na beira do leito, Dora ouvia o que se passava lá fora; era hora de se levantar e acompanhar o pai. Fazia rapidamente o sinal-da-cruz e murmurava as orações enquanto calçava os sapatos; seu pensamento estava longe. O cavalinho estaria encilhado? Enfiava depressa a saia branca e o vestido de chita; iria com o pai ao novo arrozal. Pela primeira vez iriam comer arroz colhido na fazenda. O pai estava orgulhoso. Deixava o quartinho e ia encontrar a família sentada à volta da mesa, tomando café. Agora não queria mais leite tirado na hora; tomava café com leite numa caneca azul, com broa feita em casa. Comia pouco, sem vontade, o pensamento no cavalo. Estaria encilhado? No dia em que prestou atenção no nome dos Rodríguez, estava sentada ao lado dos pais, num canto da sala de jantar e havia visita. Era um dos últimos dias de outubro, fazia calor. Os pais conversavam com um homem que residia na vizinhança, o Chico Pela Certa; viera muito assustado aquela manhã, falando de uma praga terrível que devastava os cafezais, destruía as plantações, comia os brotos das plantas, devorava flores, em horas apenas. Eram uns gafanhotos enormes, vindos do sul, talvez do Chile, diziam. O pai de Dora sacudia a cabeça, a mãe contava que já ouvira falar na praga dos gafanhotos. Alguém assegurava que todas as fazendas lá para o lado da Sorocabana, já haviam sido atingidas pela praga que arrazara tudo: as roças haviam desaparecido. E o cafezal então? Os galhos dos cafeeiros haviam ficado pesados de gafanhotos e haviam se quebrado; nada restava dos cafezais, só montes de lenha. O prejuízo fora total. A mãe repetiu, a voz sombria: - Imagine! Montes de lenha! Depois perguntou ao Chico Pela Certa: - E não há um meio de se evitar? De se combater essa calamidade? Dora, deitada no sofá, os joelhos encolhidos, a cabeça no colo do pai, olhava um pedaço do céu através da vidraça e mal ouvia a conversa. Não percebeu a resposta do vizinho, atenta apenas a uns bichinhos que passavam no espaço que via da vidraça. Levantou a cabeça para ver melhor. A tarde estava clara e o céu tinha um tom azul salpicado de nuvens brancas. Passou um bicho, depois outro e outro, depois grupos de dez, vinte e mais; voavam depressa e a menina não podia contar. Ficou impressionada; não eram passarinhos, nem borboletas. Ouviu a voz do pai: - Ouvi dizer que barulho de lata é bom para espantá-los. - Pela certa, respondeu o Chico, alisando a palha para fazer o cigarro. Porém tenho mais confiança em valas… Nesse instante, ela apontou o dedo para a vidraça e perguntou: - Que é aquilo? Tanto bichinho voando… Os três olharam e levantaram-se no mesmo instante. Tinham um ar assustado. Deixaram a sala e saíram para o jardim, um pequeno jardim que havia na frente da casa. Chico Pela Certa passou a mão direita entre os cabelos revoltos e falou: - Será o impossível? •- Não pode ser, disse o pai. Assim de repente? De onde vêm? A gente ouviria qualquer coisa… - Não são gafanhotos. Se fossem, haviam de passar por outras fazendas antes de vir para cá. O vizinho tem razão, haveríamos de saber. - Então que será? Perguntou a mãe. Olhe a quantidade que vem vindo daquele lado, o céu está ficando escuro. Olharam e ficaram quietos, as cabeças levantadas, os olhos fixos no horizonte, sem uma exclamação. Mas não se via horizonte, nem o céu daquele lado; a paisagem se transformara de clara em nublada, e uma impressão de desabamento, de completa aniquilação caiu sobre os três, que continuaram a olhar em silêncio. Era como uma nuvem que aumentava de momento a momento; quanto mais se aproximava, mais crescia, negra, sinistra, tenebrosa. Não eram mais centenas, eram milhões; a maioria passava no alto, uma massa compacta, escura e zunidora; era como um vento que passasse sibilando antes da tempestade, mas não havia vento, nem tempestade. O ar estava parado e somente aqueles milhões de seres faziam estremecer o espaço, que parecia mover-se inteiro dentro da pungente escuridão. Tudo tremia à passagem daqueles bichos estranhos e destruidores; as plantas escureciam de repente; a casa, a cerca, a porteira, o pasto tornavam-se pesados e tristes. Nada mais se via a não ser gafanhotos que passavam -zumbindo e trazendo com eles, a escuridão, a destruição, a morte. O jardim com seus canteiros variados, cercados de orelhas-de-onça, até há pouco tão cheio de flores, ficou esquisito, triste, pesado. Durante alguns momentos, ninguém pôde falar; afinal o pai de Dora disse com voz angustiada: - São eles mesmo e vão direitinho para o arrozal. Foi como um alarme, todos moveram-se no mesmo instante. Tocaram o sino para chamar os colonos, gritaram pelos empregados. Alvoroço por toda parte; a colônia comentava o fato. Homens e mulheres nas portas das casas rústicas batiam os gafanhotos com as mãos. Chico Pela Certa coçou a cabeça num gesto aflito: - Deus do céu, meu canavial… Mas se despediu e correu batendo as esporas no chão; montou no cavalo tordilho que deixara amarrado no pau da porteira e saiu a galope; gafanhotos caíam na estrada, no pescoço do animal, na cabeça do Chico. O pai dava ordens aos colonos que apareciam, enquanto a mãe continuava tocando o sino para que os moradores de longe, quase na divisa, também viessem. A menina, parada à porta da casa, pensou que fosse o fim do mundo. Tremia de medo, mas não procurava esconder-se nem fugir; olhava a catástrofe, os olhos muito abertos; ninguém se importava com ela. Ouvia batidas de latas, gritos, ordens apressadas, via gente correndo de todos os lados. Os irmãos passaram perto dela e correram para além do jardim; batiam com paus em canecas de folha, todos pareciam enlouquecidos. O sino cessou de bater. Homens chegavam de todas as partes; o pai correu para o lado do arrozal, a mãe passou a dar ordens enérgicas. Por toda a fazenda ouviam-se gritos, exclamações, bater de latas, enquanto a nuvem continuava a passar e a zunir sinistramente. Era um ruído incessante, ininterrupto, ameaçador; não havia mais sol, nem claridade, nem cores alegres; todo o verde que se podia ver da porta da casa, estava escuro, negro, submerso em trevas; até o ar parecia tenebroso e hostil. Que estava acontecendo ao mundo? Benedito, o que encilhava os cavalos para os passeios arrancou um pau da cerca e dava bordoadas para os lados, dizendo : - Sai, sai, porquêra. De repente, ficou coberto de bichos, saiu correndo para o lado do rio: - Eh! Desgraçado. .. No fundo do jardim havia uma fileira de mimos-de-vênus e quando Dora olhou, estava tudo escuro; sentiu seu coração dar um salto e só naquele instante compreendeu o horror que aquilo representava: o caos, a morte. Os bichos haviam devorado em minutos, os mimos-de-vênus, as flores que a mãe colocava no vaso grande da sala, aos domingos. Procurou os cravos, já não existiam. Olhou as rosas, seus galhos vergavam sob o peso dos bichos, quase devoradas inteiramente; as pétalas finas como cetim já haviam desaparecido. Lembrou-se das avencas que trouxera da beira do rio e plantara na parte mais úmida do jardim; correu e tentou tirar aquela massa preta; mas os gafanhotos colavam em seu rosto; não havia mais avencas. Cruzou os braços sobre o peito magro e ficou imóvel, a boquinha aberta, perplexa e atoleimada. Que estava acontecendo? De onde vinham esses montões de bichos horríveis que devoravam tudo num instante? Tudo que levara dias, meses, anos de trabalho? No terreiro atrás da casa, as galinhas corriam assanhadas, cacarejando com as asas abertas; estraçalhavam gafanhotos com os bicos e devoravam asas, pernas, pedaços inteiros com grande voracidade. As vacas, seguidas pelos bezerrinhos, corriam pelo pasto dando mugidos. Os cavalos galopavam em direção ao rio, dando pinotes para se livrar dos bichos colados ao pêlo. A menina viu a mãe dirigindo uma turma de homens que fazia valas à volta da plantação de batatinhas; foi ver de perto: os camaradas cavavam depressa, sem perder tempo, sem levantar as cabeças. Outra turma que vinha atrás, enxotava os gafanhotos para dentro das valas e cobria com terra; parecia que tocava o gado; batia as enxadas no chão e gritava: - Oa… oa… A mãe estava entre eles, batendo um pau numa lata velha; quando a viu, gritou: - Vá embora, menina. Dora não foi e a mãe se esqueceu dela. Muitos gafanhotos caíam na vala’aberta, outros ficavam para trás e saltavam nos homens, nas folhas das batatas. Os que caíam ficavam enterrados sob pás cheias de terra; o ar tinha um cheiro esquisito e o zunido continuava sem interrupção. A menina apertou o nariz com força, continuou a sentir o cheiro. Os camaradas paravam às vezes de trabalhar para tirar gafanhotos dos olhos, da boca, dos cabelos. Viu a saia da mãe carregada de bichos. Um gafanhoto grande veio voando e bateu-lhe no rosto; Dora deu-lhe um safanão e cuspiu longe, com nojo; outro bateu-Ihe no pescoço, outro enroscou-se-lhe nos cabelos. Um ficou preso no vestido e ela o tirou com a mão, nervosamente; sentiu então a aspereza do gafanhoto, as pernas pareciam afiados serrotes. Os galhos dos cafeeiros quebravam-se ao peso dos bichos e, em meio àquela balbúrdia toda, ouviam-se estalos de madeira quebrada, logo atrás do pomar, onde principiava o cafezal. A menina correu para outro lado e viu de longe a turma que o pai dirigia; os homens gritavam e sacudiam as enxadas no ar; tornavam a baixá-las, repetindo: - Oa… oa… Os cachorros latiam e olhavam para cima; quando os gafanhotos caíam sobre eles,, saíam rosnando e se esfregando pelas paredes da casa. A maioria dos homens estava no arrozal procurando salvá-lo. Aquela plantação era o orgulho do pai; perdia-se de vista numa ondulação verde-clara com matizes escuros. A luta durou horas e ao fim, quando a noite havia caído sobre a fazenda, um cheiro de coisas mortas se estendeu por toda a parte. Os pais de Dora se encontraram na porta da casa, cansados, sujos, suados, desesperados. - Tudo perdido, disse o pai. - Não, respondeu a mãe, passando a mão no rosto úmido de suor, alguma coisa há de se salvar, impossível que tivessem destruído tudo. - Qual, tudo perdido, repetiu ele, desanimado. Entraram e Dora foi atrás deles; a mãe acendeu o lampião de querosene na sala de jantar. O pai atravessou a sala e enveredou pelo corredor que ia dar ao seu quarto; voltou-se da porta para dizer: - Agora sua tia Elisinha Rodríguez tem razão de ter pena de nós. A mãe não respondeu e acabou de acender o lampião. A menina gravou aquele nome na memória. O pai andava de um lado para outro na sala de jantar; estava aniquilado. De vez em quando passava as mãos pelos cabelos num gesto nervoso. Os gafanhotos haviam destruído a roça de milho, a de feijão, a de batatas e o arrozal, que fora o resultado de muito trabalho. Todos os fazendeiros diziam que naquelas bandas não dava arroz; ele plantara na baixada e conseguira vê-lo brotar e crescer, mas os gafanhotos vieram e destruíram. De repente, parando na frente da mulher, disse-lhe. - Sua tia Elisinha dizia que tinha dó de nós porque deixei de ser dono da fazenda para ser administrador. Fracassei. Escreva agora contando que o prejuízo foi grande; do arrozal que era minha esperança não ficou nada, assim ela terá mais dó e com razão. Fracassei de novo e completamente. - Deixe tia Elisinha em paz. Dora, sentada no sofá, ouviu a conversa enquanto esperava o jantar que Ermelinda ia trazer. Viu o pai sorrir amargamente: - Prejuízo total para nós. Tudo que era nosso, foi-se embora… - Temos ainda o café, disse a mãe, curvada para d frente, olhando o chão. O sorriso amargo acentuou-se: - Não viu os galhos quebrados? O cafezal agora é um monte de lenha. O pouco café que tínhamos foi embora com o milho, o feijão, tudo… Ermelinda entrou na sala, uma sopeira entre as mãos: - A horta ficou limpa, nem um pé de couve pra remédio. A mãe suspirou; Ermelinda depositou a sopeira sobre a mesa. O jantar decorreu silencioso; só os rapazes, irmãos de Dora, comentaram o fato. Todos estavam cansados e apreensivos. No dia seguinte, a menina acordou de madrugada com os gritos de Benedito: - Nossa Senhora, a árvore do pasto foi-se embora. Lembrou-se dos gafanhotos, levantou-se e correu para a sala, de camisola. A árvore grande que havia no meio do pasto, onde os cavalos e o gado ficavam deitados nas horas mais quentes, havia desaparecido naquela noite. Apenas alguns galhos ainda se conservavam esticados para cima como a pedir clemência; os grandes e compridos ramos cobertos de folhas largas e protetoras haviam sido devorados; a árvore agora parecia envergonhada, encolhida, toda nua, solitária no meio da planície; a relva do chão também desaparecera, não havia mais grama, nem capim, somente a terra vermelha e quente, sem verde, sem sombra, como uma ferida a sangrar. Os olhos castanhos da menina dilataram-se de espanto e medo; apertou as mãozinhas contra o peito, atemorizada. Nunca vira tanta desgraça. O mundo da véspera, aquele mundo verde que conhecia desde criança, não existia mais. O jardim da frente da casa e além, a planície, onde os anjinais pastavam silenciosamente, haviam morrido ou era como se tudo tivesse morrido. A árvore, aquela árvore imensa que estendia seus galhos bons sobre o gado e os cavalos que cochilavam nas horas de calor, até aquela árvore cheia de pássaros e de ninhos que ela via todos os dias, como via o pai, a mãe, os irmãos, também morrera. O coração de Dora dava pancadas fortes e ela murmurou baixinho: “Meu Deus!” Gafanhotos esmagados, aos milhões, jaziam espalhados por toda a parte e o mau cheiro impregnava o ar da fazenda; os colonos e camaradas escavavam aqui e ali para enterrar aquela massa escura e fétida. Milhares haviam desovado nos carreadores dos cafezais, nas plantações, mesmo na terra dura das estradas; o trabalho dos homens agora era destruir aqueles ovos. O pai deu ordem para encilhar os animais; os irmãos foram auxiliar Benedito. Dora pediu: - Também quero ir, papai. Entrou correndo no quarto, tirou a camisola, vestiu o vestido de chita que usava sempre, calçou os sapatos. Não teve tempo de rezar, persignou-se e saiu correndo, despenteada, o rosto sem lavar. Montou e seguiu ao lado do pai. Percorreram a lavoura. O pai dava ordens aos colonos que encontrava; as mulheres da colónia auxiliavam os maridos, enxadas entre as mãos, lenços amarrados nas cabeças. Milhões de gafanhotos haviam seguido para a frente e outros milhões haviam ficado para pôr ovos, era preciso destruir a praga de uma vez. Quase na divisa, avistaram Chico Pela Certa também a cavalo, percorrendo as terras. O sol surgiu de novo atrás da serra e os raios amarelos douravam a cabeça branca do Chico, que, com o chapéu de palha entre as mãos, olhava tudo desolado; tinha os olhos vermelhos e secos. Quando viu os vizinhos, cumprimentou-os. - Escapou alguma coisa, Seu Chico? Ele levantou o chicote, apontou as terras atrás dele e falou com voz dolorida: - Nada, a não ser terra. Tenho que plantar tudo de novo com a ajuda de Deus. Praga dos diabos! A menina repetiu: - Praga dos diabos! Tinha pena do pai; vivia tão esperançado com o arrozal e agora… Voltaram para a fazenda. Naquela noite, depois de um dia exaustivo e quente, reuniram-se para jantar. Quando puseram um pedaço de frango no prato do pai, ele disse que não queria comer. - Por quê? perguntou a mãe. - Tem catinga de gafanhoto. Os irmãos cheiraram a carne e recusaram; a menina fez o mesmo e empurrou o prato. A mãe suspirou: - Não temos verdura, não temos carne, o frango cheira mal. Que havemos de comer? Durante muitos dias, ninguém pôde comer frango na Boa Vista; eles haviam devorado tantos gafanhotos que a carne ficara com a catinga de coisas mortas. Assim, na memória de Dora, a praga dos gafanhotos ficou ligada ao nome de tia Elisinha e dois dias depois, ela perguntou à mãe: - Quem é tia Elisinha Rodríguez? - Tia Elisinha? É tia Elisa Rodríguez, irmã da sua avó, uma tia que mora em S. Paulo. - Ela é boa? - Por que não há de ser boa? Quando formos a S. Paulo, um dia, você irá conhecê-la. Como na fazenda não havia professores, a mãe ensinara Dora a ler, o irmão mais velho dava-lhe aulas de aritmética, geografia e história. Todas as manhãs, havia uma hora de lição. Todos diziam que Dora era muito inteligente. Parecia distraída, não estudava, mas sabia sempre tudo que lhe perguntavam. Logo depois do prejuízo causado pela praga dos gafanhotos, o pai disse que iriam residir na cidade. E um dia foram mesmo de mudança. A mãe e os irmãos choraram ao se despedir dos amigos e dos colonos. Dora não chorou. Subiu para o trole que os transportou à cidade e foi embora com os olhos secos, sem olhar para trás. - Você não tem dó de deixar seu cavalinho? - Não, respondeu friamente. Com o dinheiro que haviam economizado durante os anos de administração, o pai comprou um cartório na cidade e alugou uma casa grande no Largo do Teatro; a casa tinha três janelas de um lado, três do outro, uma porta no centro; a pintura estava encardida e avermelhada; em certos lugares, apareciam os tijolos. Algumas janelas, já quebradas não fechavam bem; a soleira da porta era de pedra escura e gasta. O pai instalou o cartório no lado direito da casa e a família ficou residindo no lado esquerdo; a mãe viu que o cartório dava pouco, resolveu fazer qualquer coisa para auxiliar o marido. Preparou os dois quartos da frente que eram os melhores e anunciou; logo apareceram duas professoras que ficaram morando lá. Além delas havia Seu Torquato, um funcionário público que só tomava as refeições. Os irmãos de Dora foram para um colégio da cidade vizinha, onde ficaram internados. Dora ficou só em casa. A mãe contratou uma das professoras para prepará-la para o Grupo Escolar; D. Inês pagava pensão reduzida para ensinar -a menina uma hora por dia. A outra professora era grande, pálida, de nariz comprido. Dora começou a aprender várias coisas; a mãe disse que ela devia aprender inglês para falar com as primas, quando fosse a S. Paulo; as primas Rodríguez eram muito preparadas e falavam várias línguas. Miss Brown vinha três vezes por semana às cinco em ponto. A essa hora ainda estavam na mesa, jantando; Dora levantava-se e ia recebê-la à porta; apertavam-se as mãos e Miss Brown dizia, solene: - Good ajternoon. How are you? - Very well. Thank you. Seu Torquato ficava admirado, achava que Dora aprendia depressa. As professoras também admiravam a inteligência da menina; entre um pedaço de goiabada e uma banana, elogiavam o progresso de Dora. A mãe corava de satisfação, o pai não dizia nada, mas no íntimo, ficava orgulhoso. As lições eram no quarto dos pais; num canto havia uma escrivaninha envernizada de preto, antiga, cheia de gavetinhas na parte de cima. Miss Brown apontava o dedo, um dedo grosso e chato; Dora dizia: - Blue. Gray. Black. Pensava: “As primas serão bonitas? São muito preparadas. Pre-pa-ra-das. Sabem mui-tas línguas”. Bocejava. Miss Brown disfarçava um bocejo. Uma hora passava depressa; quando terminava a lição e a professora fechava o Berlitz, Dora levantava-se lentamente e enquanto a mãe conversava com Miss Brown, ela ia para o Largo do Teatro ver as outras meninas brincarem. Era tímida e se não a chamassem, ficava olhando de longe, não se chegava. Um ano depois, D. Inês disse que podiam matricular a menina no quarto ano do Grupo Escolar. Os pais ficaram perplexos, em um ano a filha aprendera tanto. Como era inteligente! Começou a freqüentar o Grupo Escolar da cidade; ela, que nunca freqüentara escolas, estranhou muito, mas não disse nada. Como era retraída e tímida, ao princípio não conviveu com as colegas, guardava sempre certa reserva, por isso ficou logo com fama de orgulhosa e antipática. Mas em casa quando perguntavam: “Gosta do Grupo?” Respondia: “Gosto”. Também não estudava; acompanhava a classe fracamente; muitas vezes seu pensamento estava longe das salas de aula e precisava fazer esforço para voltar e prestar atenção no que a professora dizia. Tirou diploma no fim do ano e a pensionista de nariz comprido disse que Dora devia fazer um discurso no dia da formatura. A mãe interveio: - A senhora escreve e ela fala… Dora ficou acabrunhada quando soube que ia falar diante de tanta gente, mas nada disse e não teve coragem de recusar; seria um desaponto para os pais; começou a estudar o discurso às escondidas. No dia determinado, apareceu no Grupo com um ramo de esporinhas e cravos na mão; a sala estava cheia. O coração pulsava com força e ela não sabia o que fazer com as flores nas mãos suadas. Quando a professora de nariz comprido fez um sinal para que ela começasse a falar, sentiu pânico e um suor frio correu-lhe nas costas. Esquecera o discurso. Houve certa expectativa e todos esperaram alguma coisa. As outras meninas divertiam-se com o embaraço dela, não gostavam daquela orgulhosa. A professora de nariz comprido fazia-Ihe sinais para que começasse, estava na hora. Dora lembrou-se dos Rodríguez; que diriam se ela não pudesse fazer o discurso? Seria uma vergonha para toda a família, era preciso falar. Resolveu então; abriu o papel que estava enrolado na mão direita e leu o discurso com voz trémula. Naquela noite, os pais conversaram a respeito do futuro da filha e resolveram mandá-la para a casa da avó, em S. Paulo; iria matricular-se na Escola Normal. Dora conhecia pouco essa avó materna; vira-a algumas vezes na fazenda, em visita. Lembrava-se dela, era gorda e baixa, tinha olhos pequenos. Quando a via, lembrava-se de certos pássaros; não gostava muito dela porque a avó vivia se implicando com sua magreza e dizendo que ela ia ficar corcunda. Um único pensamento empolgou Dora quando soube que ia estudar em S. Paulo: “Agora vou conhecer os Rodríguez”. Os Vidal de Rodríguez vieram da Espanha para o Brasil em meados do século passado; descendiam de família nobre, aparentada com a aristocracia espanhola. Trouxeram filhos que cresceram e se educaram em S. Paulo. Mais tarde tornaram-se conhecidos porque eram muito ricos, educados e cultos. Eram três Rodríguez. O mais velho, D. Fernando, alto e magro, feio, de uma palidez pronunciada, tinha dentes grandes e mãos compridas, de dedos finos e longos, cobertos de pêlos pretos. As mãos de todos os Rodríguez pareciam aranhas, grandes e moles. Apesar da fealdade, D. Fernando Vidal de Rodríguez era atraente e conversador; gostava de dizer amabilidades a todas as mulheres; beijava as mãos das senhoras de idade por respeito, das senhoras jovens por galanteio. Tinha o vício de conquistar; todas as mulheres de suas relações acreditavam ser amadas por ele; quando o viam, sorriam encantadas e estendiam as mãos para um beijo demorado, um tanto místico, um tanto sensual. Depois dizia palavrinhas amáveis a cada uma delas; acreditavam nele e todas se sentiam amadas e desejadas. Chamava-as por nomes gentis: “florzinha”, “minha rosa”, “meu anjo”. Assim conseguiu conquistar grande número delas; mesmo que ficassem desiludidas depois, continuavam suas amigas e recebiam-no sempre com um sorriso amável e prometedor, o que era extraordinário. Casou-se tarde, por interesse; foi um mau marido. Continuou depois de casado a procurar mulheres como a abelha procura a flor, com verdadeira sofreguidão, e tornou a esposa profundamente infeliz. Teve duas filhas: a mais velha casou-se cedo e foi residir na fazenda do marido, onde ficou para sempre, quase ignorada. A segunda apaixonou-se por um rapaz pobre que trabalhava no comércio. D. Fernando levantou as mãos peludas: “Nunca te casarás com um plebeu. Nunca. Tu, a filha de um Rodríguez, nunca”. A moça foi definhando, definhando, até que resolveu entrar para um convento, onde morreu ainda moça. Diziam que morrera de paixão. D. Fernando não era sincero nas amizades; se fosse preciso trair um amigo ou parente em proveito próprio, não hesitava. Nunca negava o que lhe pediam, mas nunca cumpria o que prometia. Fazia promessas sempre e largamente de uma maneira ou outra: “Por mim está tudo arranjado”. Ou então: “Você sabe, não depende de mim. Se dependesse, você estaria colocado. Sou seu amigo”. Era maneiroso, simpático, sorridente e assim conseguia iludir sempre: mulheres e amigos. Era sutil. Tinha a astúcia da raposa; dava um sentido equívoco a certas frases ditas por amigos, o que provocava risos e malícias; então ria também, seu riso escarnecedor e mau. Possuía uma lábia inesgotável para conseguir seus intentos e enganava duas, três vezes a mesma pessoa. Era malicioso e velhaco, mas demonstrava o contrário. Quando sabia que algum parente cometera algum ato pouco correto, dizia, batendo a mão peluda no peito, em sua voz que retumbava como trovão: “Hay que tener dignidad siempre, hasta ei fin, hasta Ia muerte”. Quando falava espalhava gotas de saliva, e a palavra “muerte” saía de sua boca como se fosse um tiro. Estrondava e ensurdecia. Toda a família ouvia compenetrada, quase compungida, como que arrependida dos erros cometidos. Quando apontava o dedo longo e peludo, era ameaçador e profético. E falava em castelhano para dar força à frase. Era covarde. Dizia que não tinha inimigos e gabava-se disso; agradava todas as pessoas, mesmo que falasse mal delas depois. Tudo por medo. Tinha horror a ter desafetos porque era excessivamente medroso. Quando sabia que alguém tinha algum ressentimento contra ele, corria a se desculpar, a agradar, para que não ficasse uma sombra de dúvida “na nossa boa amizade jamais”. Mais tarde perdeu a fortuna no jogo e tornou-se um pobre velho ridículo; mesmo na velhice, ainda dizia galanteios e procurava conquistar mulheres; com sua boca murcha, perseguia-as, mas as “florzinhas” e as “minhas rosas” fugiam, espavoridas. O segundo Rodríguez foi D. Isidro; gostava também de jogar, mas foi prudente e conservou os restos da fortuna para a velhice. Estudou direito, mas nunca exerceu a profissão; chamavam-no Dr. Isidro. Quando o pai, o velho Rodríguez, possuidor de várias fábricas de tecidos, pediu a um dos filhos que fosse o continuador da sua indústria, D. Fernando ofendeu-se: “O que o velho estava pensando? Ele, um descendente de aristocratas como D. Rodrigo de Rodríguez, como urn D. Agustin que fora grande na Espanha, dirigindo fábricas como um simples plebeu?” E Dr. Isidro, estendendo as mãos enormes e moles, declarou ao pai que também não poderia lidar com a ralé, não tinha coragem para descer tanto. A ralé tinha mau cheiro; era exigir muito dele, um Rodríguez de alta linhagem. Tinha os mesmos característicos do irmão: alto, magro e feio. Mãos compridas, porém sem pêlos. Pegajosas. A mulher contava que ele não tinha pêlos no corpo; era diferente dos outros homens, a pele lisa como de mulher, inteiramente pelada e branca. Profundamente egoísta e avarento; em um livro enorme, pesado, tomava nota diariamente de tudo que gastava: “Dia cinco - frutas para levar para casa: tanto”. “Dia sete - um charuto para meu irmão Paulo: tanto”. “Jornal extraordinário: tanto”. Gostava de fumar, mas não fumava por economia. Casara-se por amor e fora relativamente feliz; não tivera filhos e como o traço predominante do seu caráter era o egoísmo, regozijou-se, por não tê-los. Dizia: “Filhos? Deus nos livre! São ingratos e egoístas”. Falava à sua própria imagem. Envelheceu contando o dinheiro, jogando gamão com um amigo nas tardes de sábado; como o jogo era a dinheiro, só podia ser uma vez por semana. Dedicou-se enternecidamente à religião; fez parte de várias Irmandades, ia à missa aos domingos e dias santos. Nesses dias, vestia-se de preto e ia, solene, assistir à missa. Tirava do bolso um rosário, de contas negras e grandes e o ia desfiando com devoção, os olhos fixos no altar. Batia a mão no peito com humildade. Nos dias de procissão, ficava pressuroso e irrequieto e só se acalmava quando vestia a opa; olhos no alto, acompanhava devotamente a procissão, rezando alto, contrito, e beato. E quando soube que o irmão D. Fernando estava pobre e infeliz, disse à mulher, com desprezo: “De quem é a culpa? De quem? Dele mesmo que gastou, esbanjou tudo no jogo. E se não foi no jogo, foi com “Ias hembras, esse louco”. Ria-se alto, como que se regozijando; não procurou auxiliar o irmão; um dia que este foi pedir algum dinheiro, negou. Sua velhice foi tão apagada quanto sua mocidade; não procurava ninguém, nem recebia visitas, com medo de gastar muito. Ele e a mulher fechavam-se em casa, egoístas e sovinas, bebiam bons vinhos, comiam tudo que havia de melhor, depois diziam para os parentes, com cara de quem passa mal: “As coisas estão tão caras, não se pode comer o que se quer”. Envelheceram assim, escondendo o dinheiro para não dar, fingindo que tinham pouco, acordando, assustados durante a noite, perdendo o sono, com medo de serem roubados. O terceiro Rodríguez foi D. Paulo; não era tão alto, nem tão magro, nem tão feio; também não tinha mãos moles e compridas. Rosto de feições regulares, mãos firmes, sorriso irradiante de simpatia. Apontavam-no como o melhor da família; também foi o mais rico. Casou-se por amor com uma moça pobre, Elisa; tivera vários filhos. Empregou ajuizadamente sua fortuna, dirigiu as fábricas de tecidos que os irmãos desprezaram; não era dado ao jogo, nem demasiado egoísta. Conseguiu aumentar seu capital de maneira brilhante. Era bondoso, alegre, acolhedor; seu palácio da Rua Maranhão estava sempre aberto aos seus amigos e aos amigos dos seus filhos. Gostava de receber, dar jantares, recepções. Elevou na sociedade o nome da família; por isso sua mulher, Elisinha Rodríguez, orgulhava-se dele. Costumava dizer: “Pode ser que haja marido como Paulo, mas melhor que ele impossível”. Havia também Justina Maria da Conceição de Rodríguez Delgado, sobrinha do velho Rodríguez; veio pequena e casou-se no Brasil com um Sr. Delgado, de grande fortuna. Enviuvou aos quarenta anos. Era uma mulher alta e gorda; tinha um colar de pérolas orientais, graúdas como grãos de milho. Não tirava jamais esse colar que quase se enterrava nas rendas do pescoço. Era muito rica; chamava os parentes de primos, mesmo que não o fossem. Era conhecida pela gordura e pelo colar de pérolas; longe dela, chamavam-na Justina, a gorda, para não confundir com outra Justina, amiga da família. Diziam que em casa a sós, prima Justina, ao jantar, devorava um frango assado, um prato de salada de tomates, compota com creme e meia garrafa de vinho. Tinha mania de fazer regime para emagrecer; quando passava uma semana sem encontrar uma pessoa, dizia quando a via, puxando o cós da saia para a frente: “Mira como emagreci. A saia está larga. Mira. É um novo método que descobri agora, já tirei quatro quilos”. Durante toda a vida foi gorda, farta de carnes; e durante toda a vida, andou à cata de regimes para emagrecer. A todas as pessoas, dizia a mesma coisa: “Agora estou emagrecendo. Novo método”. Concordavam com prima Justina. Aos cinqüenta anos, ainda procurava marido, apesar da saudade que dizia sentir do “meu saudoso Delgado”. Quando entrava numa sala, enchia-a com sua voz grossa e sua opulência de gestos, as pérolas brilhantes afundadas no pescoço; era exuberante no falar e nunca conseguiu aprender corretamente o português; falava misturando as duas línguas Costumava dizer colocando a mão imensa sobre o peito farto “Hay cositas que uma Rodríguez não deve fazer. Nunca”. capítulo 2 A CASA da avó era triste. Viúva, residia com um filho solteirão e uma cozinheira preta. Matricularam Dora numa escola particular da Rua Araújo a fim de fazer o curso preparatório para a Escola Normal; foi quando fez doze anos. Era uma menina magra, crescida, mas tinha um ar acanhado e as pernas finas. Os ombros continuaram a curvar-se para a frente; não era bonita. Começou a aprender francês e álgebra com os novos professores e como o tempo era escasso e viria logo a época dos exames, teve que estudar muito para vencer. Esqueceu os tios Rodríguez naquele fim de ano. Chegava às vezes às duas horas sem almoço; a cozinheira tirava do forno o prato que guardara para ela; era uma comida requentada que ela comia de pé, no meio da cozinha. A avó saíra, o tio só voltava à noite; ela ia para o quarto, estendia-se na cama e ficava pensando. Não gostava de estudar, não gostava das colegas, não gostava de nada. Por que era assim, diferente? Lembrava às vezes da fazenda, do cavalo, do rio no fundo do pomar, do pasto, da horta. Disso ela gostava, tinha certeza, mas não podia voltar àquela vida, não era dona de si mesma por isso se sentia infeliz, continuava infeliz. E depois tinha acanhamento de ser obrigada a estudar numa escola pública; a mãe dissera uma vez: “Somos pobres e ela não pode freqüentar colégios. Terá que ser professora para ganhar a vida”. Corava só em lembrar dessas palavras. Um dia a avó recebeu uma carta do interior dizendo que os pais de Dora viriam de mudança para S.Paulo; o pai vendera o cartório e a mãe achava que se podia ter pensionistas no interior, poderia tê-los em S. Paulo também. Meses depois os pais vieram e instalaram-se na Rua Marquês de Itu; alugaram uma casa grande e chata que logo se encheu de pensionistas e Dora deixou a casa da avó para residir com os pais. Havia na pensão várias famílias, alguns homens circunspectos e uma professora de dança, magrinha e nervosa. Dora não gostava de se misturar com os ensionistas; tinha vergonha de ser pobre e de precisarem ter pensão para viver. Não dizia nada à mãe, mas pensava: “Que dirão os Rodríguez quando souberem?” Dormia no mesmo quarto dos pais, o último da casa, quarto de empregados e no qual, mal cabiam a cama do casal e a de Dora, separadas por uma cortina de ramagens. Ali a menina se refugiava e ficava horas inteiras, sozinha. Dizia que estava estudando, mas não estudava. Pensava. Desde pequena, na Boa Vista, já gostava de ficar só, pensando, na beira do riozinho. Todos na família a achavam uma menina esquisita. Quase não falava com os pensionistas, nem sabia quantas pessoas viviam na casa; via a mãe levantar de madrugada e trabalhar, auxiliando a empregada na limpeza da casa, dando ordens à cozinheira, indo para as compras no mercado. O pai fazia a escrituração, tomava nota disto, daquilo; voltava às vezes da rua com cestas cheias de verdura, o que fazia a filha corar de vergonha. Havia apenas um banheiro ao lado da cozinha, dando para um corredor comprido e escuro. A cozinheira era uma preta manca, sabia a vida de todos os moradores da casa com particularidades, pois enquanto um ia esperar o outro sair do banheiro, ficava conversando com ela, a toalha sobre o ombro. Dora entrou para a Escola Normal; como o tempo de preparatórios fora curto, não alcançou notas altas e foi uma aluna medíocre. No meio do ano, disse-lhe a mãe um dia: - Vamos visitar tia Elisinhá Rodríguez. Dora não contestou. Nunca contestava por mais que se surpreendesse; permanecia impassível mesmo que fosse a notícia mais estranha. Dirigiu-se vagarosamente para o quarto dos fundos e começou a se vestir; não havia escolha, se não era o uniforme da escola, tinha que ser o vestido verde-escuro que trouxera do interior, um vestido que ela achava feio e malfeito. Acompanhou a mãe à Rua Maranhão; durante o percurso, fez algumas perguntas sobre os Rodríguez. - Tia Elisinhá é a irmã mais moça de sua avó. É casada com tio Paulo. Já contei a você a história de tio Paulo, veio da Espanha quando era pequenino e nunca mais voltou, quero dizer, os Rodríguez voltaram a passeio muitas vezes, mas sempre residiram aqui. Os pais de tio Paulo eram riquíssimos e tio Paulo também é. Tia Elisinhá é que deu a casa na qual sua avó mora, tem sido muito boa. Eles tem fábricas e mais fábricas de tecidos, aqui e em Taubaté. Desceram do bonde na esquina da Rua Maranhão. - É esta, disse a mãe, mostrando uma casa enorme, amarelada, rodeada de jardins e de escadas de mármore. Foram recebidas por um criado que as encaminhou para o salão verde, onde foram encontrar tia Elisinhá sentada numa poltrona verde de veludo, lendo revistas. Sorriu de leve quando viu as duas entrarem; Dora a achou orgulhosa, com um ar importante. Beijou a mão da tia com respeito e sentou-se no sofá ao lado da mãe. Estavam numa sala grande, com retratos de família espalhados nas paredes; havia no fundo esquerdo uma grande lareira de mármore, em frente um piano de cauda, depois livros e mais quadros. O coração de Dora tremeu de leve quando tia. Elisinha perguntou à mãe: - Esta é a caçula? - É, disse a mãe, a temporona. Ambas riram e Dora tentou um sorriso, sentindo vergonha das luvas rasgadas nas pontas dos dedos, dos sapatos velhos, do vestido verde tão sovado e que parecia ainda mais sovado naquele salão. Por que a mãe a chamava assim? Por que sempre dizia a todas as pessoas que ela nascera fora de tempo, que ela viera ao mundo numa ocasião em que estavam mal de finanças, que “não queria mais filhos, quando veio essa menina”? E dizia que ela era magra, fraca, raquítica, feia. Um dia ouvira contar a uma vizinha na porta da rua: “Eu não queria mais filhos. Os outros já eram grandes quando veio essa menina. Que se há de fazer? E nasceu tão franzina, pensávamos que não crescesse”. Dizia “essa menina” com desprezo. E se ela não fosse filha dela? Quem sabe era uma enjeitada que eles estavam criando, de dó? De repente lembrou-se de que toda sua nfelicidade vinha daquelas palavras ouvidas desde pequenina. “Essa menina.” Não seria filha deles? Tia Elisinha observou-a: - Que idade tem? - Treze anos e meio, respondeu, corando. A tia admirou-se: - E já está na Escola Normal? Parece adiantada para a idade. - Mas não gosta muito de estudar, disse a mãe. A tia esqueceu-se dela e começou a falar de outros assuntos; fez perguntas sobre a Boa Vista, sobre a vida no interior. Dora observou-a também: era uma mulher alta e corpulenta, morena, cabelos grisalhos. Via-se que era vaidosa e se tratava bem, muito meticulosa no trajar; tinha as faces levemente coradas. Suas feições eram firmes e apesar de não ter traços perfeitos, devia ter sido bela, a boca grande, de lábios cheios. Dora examinou toda a sala; havia retratos de família em todas as paredes, alguns bem antigos, entre os quais o de uma mulher de feições finas, com gola de rendas engomadas, outra com decote grande onde apareciam os ombros roliços e, sobre os cabelos, um diadema de brilhantes. Deviam ser os antepassados dos Rodríguez, os aristocratas espanhóis. Havia também retratos de homens; um vestia farda de gala com muitas condecorações, teria sido um grande de Espanha; tinha um olhar distante como se estivesse nas alturas, espessos bigodes caindo-Ihe ao lado da boca. “Que homem engraçado”, pensou ela. Na parede da frente, viu retratos de duas moças e dois rapazes, certamente filhos de tia Elisinha. Essa seria, com certeza, a geração dos Rodríguez brasileiros, como dizia o pai caçoando, a primeira geração. Havia duas filhas casadas e dois filhos solteiros, os mais moços. Um deles estava na Inglaterra, a avó contara. Olhou o piano e pensou quanto seria bom se soubesse tocar Chopin; não conhecia música, mas sabia que as de Chopin eram afamadas. Imagine se a mãe dissesse de repente: “Dora sabe tocar, tia Elisinha. Quer que ela toque um pouco?” “Vamos ouvir”, diria a tia complacente, pensando que ela mal soubesse música. Ela então iria ao piano, levantaria a tampa, depois suspenderia a banqueta (devia estar um pouco baixa) e estenderia as mãos sobre aquele teclado preto e branco. Suas mãos feias e ossudas desapareceriam no mesmo instante, tudo ficaria alegre e claro naquela sala, até seu vestido velho se tornaria novo e ouvindo aqueles acordes maravilhosos, tia Elisinha diria eslumbrada: “Meu Deus, não sabia que ela tocava assim, tão bem. Chopin! Onde aprendeu? No interior? Como ensinam bem, nunca poderia imaginar”. E a música sairia dos seus dedos como mágica, encheria a sala, o hall de mármore, outras salas e quartos, iria lá em cima, desceria outra vez até a cozinha e as criadas deixariam de trabalhar para ouvir. A cozinheira diria: “Quem está tocando desse jeito? Deve ser gente de fora, aqui ninguém toca assim…” Lá fora, num canto atrás da casa, a lavadeira estaria estendendo roupa lavada no varal; ficaria parada de repente, uma peça molhada entre as mãos, ouvindo. Esqueceria de torcer a roupa e a água escorreria até seus pés, faria poças no chão; a lavadeira até sorriria de prazer e diria também: “Quem será? Que música e que pianista! Nunca ninguém tocou tão bem nesta casa!” E os acordes encheriam todos os ouvidos de melodias e os recantos silenciosos daquele grande palácio ficariam cheios de sons, sons alegres, fortes, fracos, suaves, encantados, e toda a família falaria em Dora durante muito tempo. Dora seria um nome naquela casa; diriam: “Toca Chopin admiravelmente”. “Quem?” “Dora”. E quando ela voltasse lá, tia Elisinha a receberia, rindo, de pé, para abraçá-la e toda a gente havia de querer conhecê-la, até tio Paulo que era esquisitão e não aparecia para visitas. Tia Elisinha mandaria chamá-la algumas vezes; ela deixaria o quartinho do fim do corredor, separado pela cortina de ramagens, passaria pela cozinha e diria à cozinheira: “Vou tocar piano no palacete dos Rodríguez”. A cozinheira sorriria de contentamento e diria: “Parabéns”. Viria então ao encontro de tia Elisinha que a receberia com os braços abertos, feliz por vê-la de novo. “Estava doida por ouvir você tocar outra vez, por isso mandei chamá-la; Paulo também quer ouvi-la. Atrapalhei seus estudos?” Até pediria desculpas. Tio Paulo então entraria na sala e diria: “É este o gênio?” Sorriria, todos sorririam. Seria a coisa mais ma-ra-vi-lho-sa do mun-do! Se ela sou-bes-se to-car ad-mi-ra-vel-men-te! Estava ainda olhando o piano, a boca entreaberta, a cabeça inclinada, cheia de pensamentos, quando ouviu a voz da mãe: - Temos que ir, tia Elisinha. Temos compras a fazer na cidade. - Não, respondeu a tia, levantando-se. Espere o chá, vou pedi-lo. Tocou três vezes a campainha escondida atrás do mármore da lareira. Logo depois, apareceu uma mesinha empurrada por um criado; colocou-a na frente de tia Elisinha e retirou-se. A tia serviu o chá em xícaras amarelas; Dora olhava, fascinada. De súbito, a tia perguntou enquanto estendia a xícara para ela: - Você toca piano? Teve vontade de gritar: “Toco um pouco”. E se Deus fizesse um milagre? Quem sabe se ela pusesse as mãos no teclado, ouviriam música? Pois Deus não fazia milagres? - Não toca nada, tia Elisinha. Nunca tivemos piano em casa, ela não estudou música. A mãe respondera por ela. Sentiu-se corar de vergonha; a mãe não precisava falar daquele modo, humilhava tanto… Podia mentir um pouco e dizer: “Dora não teve tempo de estudar música no interior, agora vamos ver se compramos um piano aqui”. Não custava nada a mãe dizer isso. Nada. Tomou o primeiro gole de chá quente e não aceitou o pedaço de bolo que a tia ofereceu. Aceitou só uma bolacha bem pequena e levou-a à boca; sentia-se tão infeliz! Por que era assim infeliz? Por causa da pobreza? Eram tão pobres, tão pobres… Por que o pai havia perdido a fazenda? Por que aceitava a pobreza com tanta resignação? Por que não lutava? Desviou o pensamento para não ficar com raiva do pai. Ouviu outra pergunta da tia: - Como vai a pensão? Sentiu mais vergonha. Tia Elisinha sabia que tinham pensionistas, que eram pobres, que dormiam no quarto da empregada, decerto a avó contara, a avó era sua irmã e contava tudo. Crispou as mãos sobre a xícara amarela e ficou ouvindo, sem vontade de comer, de nada. - Vai indo, respondeu a mãe, cortando com o garfo um pedaço de bolo. - Dá lucro? - Lucro não dá. Dá para a gente ir vivendo e educar esta menina. Tia Elisinha olhou Dora e mastigou o bolo; depois falou, a voz condoída:… - É pena, vocês todas foram educadas em bons colégios, agora esta menina numa Escola Pública… Bem desconfiara de que a tia era orgulhosa. Era feio estudar na Escola Normal? Que raiva! - Que se há de fazer? A senhora sabe, perdemos tudo. A fazenda que era nossa, deixou de ser de um dia para outro, tivemos de entregar tudo. E lutamos muito no interior, o cartório dava pouco, resolvemos vendê-lo e vir para cá. Aqui luta-se também, mas o meio é melhor. A mãe começou a mastigar o bolo devagar; Dora colocou a xícara vazia sobre a mesinha, com todo cuidado. A tia perguntou: - Não é desagradável viver na promiscuidade, entre gente desconhecida? Pensão é sempre uma mistura de classes. - Já me acostumei, respondeu a mãe sorrindo. A princípio estranhei bastante, agora temos nosso quartinho e quando queremos ficar sós, vamos para lá. Dora estuda e lê, quase não sai do quarto. - E seu marido que diz? - Ele me auxilia quanto pode, a dirigir tudo. Depois temos um dinheiro a juros, o dinheiro do cartório. Houve leve brilho na fisionomia de Dora; respirou suavemente e olhou a mãe, já não se sentia tão infeliz. Tia Elisinha disse um “Ah!” e comeu outro pedaço de bolo. Houve um breve silêncio e Dora observou as duas tomarem os últimos goles de chá. A tia passou os dedos pelo guardanapo pequenino, cor-de-rosa, depois falou ainda uma vez: - Você com o nome que tem, precisa ter cuidado. Você sabe que o nome é uma responsabilidade. Quando soubemos que vinha para cá dirigir uma casa de pensão, tivemos muita pena; com um nome desses é bem duro… Ter que trabalhar assim. Dora viu a mãe franzir levemente a testa como fazia sempre quando estava atrapalhada; sentiu-se sufocar e pensou: “Que será que ela vai responder?” Viu-a firmar-se, tirar uma bolachinha do prato sobre a mesa ao seu lado e responder: - Já pensei nisso também, tia Elisinha. Mas quando o dinheiro se acaba como fumaça como aconteceu com o nosso - a senhora sabe que o café só nos deu prejuízo - temos que continuar a viver, continuar a comer, temos que trabalhar. E o trabalho nunca foi desonra. A senhora sabe, o nome é muito bonito, mas não adianta nada. Pesa até e não nos dá pão… Quando deixaram a casa da Rua Maranhão, Dora segurou o braço da mãe e perguntou: - Por que tia Elisinha quer saber essas coisas? - Ora esta, porque é minha tia e se interessa por nós. - Não adianta contar essas coisas, mamãe. E por que a visitamos? Não sei por que temos que visitá-la. - Porque ela sempre pergunta por nós. Pergunta para sua avó por que não a visitamos, temos que aparecer de quando em quando. A menina apertou os lábios e não respondeu. Todas as semanas a avó ia visitá-las; entrava na casa da Rua Marquês de Itu e contava as últimas novidades sobre os Rodríguez. Contava que Jane, a filha mais velha ia ter outro bebê esse ano; que o filho de Clotilde, completara dez anos de idade e haviam festejado o aniversário com festas e mesas de doces; o menino ganhara três bicicletas, muitos livros, ótimos brinquedos; tio Paulo dera-lhe um cheque; a avó estava curiosa para saber de quanto era o cheque, afinal perdera a cerimônia e perguntara a tia Elisinha e ela dissera: “De cinco contos de réis” como se dissesse: “Cinco mil-réis”. “Que riqueza!” Contou também que Alexandre, o último dos Rodríguez, voltaria da Inglaterra muito breve. Com seus olhos pequenos de ave e seu nariz adunco, a avó contava e as duas ouviam com atenção. A mãe de Dora costurava à cabeceira da mesa; Dora ficava absorta, ouvindo. De repente a avó dava uma risadinha sarcástica, às vezes tinha uma maneira de rir que parecia estar ridicularizando: - Por que será que os pobres gostam tanto de saber o que os parentes ricos fazem? As visitas que recebem, o que comem, quantas criadas têm, as relações de amizade que mantêm, as festas que freqüentam… Por que será? Talvez porque a distância entre eles seja grande e o pobre pensa assim: “Aquilo podia ser meu”. Ou talvez porque o pobre leva uma vida tão rotineira… Teatro só uma vez por semana, quando pode, pois se vai duas vezes, quebra o orçamento do mês. Então a vida movimentada do parente rico parece-lhe um brilhante espetáculo. Tomava um golinho de café e continuava, o sorriso irônico: - O pobre não pode comer pratos caros ou beber vinho às refeições, mas gosta de saber que os outros põem os frangos de molho em vinho branco. Não sei, a questão é que não faz comentário algum quando ouve essas coisas, só sacode a cabeça em reprovação, mas quer saber sempre… É esquisita essa curiosidade… Decerto é porque tem vontade de beber um pouco de vinho sabendo que eles o despejam em cima de frangos pelados… E os lábios finos da avó torciam-se de rir; um risinho leve, ferino. - E os Rodríguez então? Como são ricos, Nossa Senhora! Podres de ricos! Não digo aqui, mas lá em Taubaté quando me convidam para passar uma temporada, vejo coisas de espantar. A cozinheira Custódia, uma preta muito simpática, f az pratos de derreter na boca. Quando entro na cozinha, ela pergunta: “Quer saber o que vamos ter hoje para o almoço? Lombo recheado, frango com molho pardo, creme de milho verde, arroz de forno, fora outras coisinhas…” (Minha boca fica cheia d’água quando lembro.) Para que tanta coisa? - pergunto. “São ordens. Acha muito? Isso não é nada, a senhora precisava ver o ano passado no aniversário de D. Elisinha; foram três perus, leitoa assada, galinha-d’angola cozinhada no leite, doces de toda a qualidade, nem sei que mais.” Ela tem três ajudantes na cozinha e todos os dias, banquetes. A Custódia vai descrevendo e vai levantando as toalhas muito alvas para que eu veja os frangos nus nas grandes bacias cheias de vinho branco. O mais engraçado é que os criados têm um faro para descobrir que somos parentes pobres, gostam de deslumbrar a gente… Nem que não se conte nada, eles descobrem logo, vêm falar conosco de um modo diferente; amáveis, mas condescendentes, como quem tem dó. Ah! Os ricos… E a avó sacudindo o corpo cheio, fazendo brilhar seus olhinhos de ave. Dora ouvia o que a avó contava e admirava-se de tanta fartura; sabia que os tios eram muito ricos, mas nunca pudera imaginar a extensão dessa riqueza. Da sua primeira visita à casa dos Rodríguez, guardava uma impressão desagradável; vira imensa casa com salões verdes e tapeçarias; retratos a óleo, grandes e coloridos, em todas as paredes do salão verde e no fundo uma senhora sentada numa poltrona de veludo, estendendo a mão branca, com pouco caso, para que ela a beijasse. Não vira moças bonitas, nem rapazes brilhantes que dissessem: “Ah! Esta é nossa prima? Como vai, Dora?” Que sorrisseta para ela, e dissessem: “Quer dar uma volta pelo jardim?” Que saíssem juntos e dessem grandes voltas pelos canteiros de dálias repolhudas e rosas-chá. A avó falava da chácara de Taubaté; era imensa, rodeada de jardins, de grandes coqueiros; havia muitas criadas e hóspedes em todas as refeições. Uma vez por ano ou duas, tio Paulo ia visitar as fábricas e a família passava uma temporada em Taubaté. Iam as filhas casadas, os netos, as governantes das crianças, as carruagens. Na cozinha, tudo era grandioso; pratos especiais todos os dias, muitas qualidades de sobremesas, vinhos. Tio Paulo escolhia na adega, um vinho para cada refeição; gostava de ver a mesa com os filhos, genros e amigos. Dirigia a conversação como um comandante dirige seu barco; tinha uma espécie de infalibilidade) para tudo, principalmente para os negócios. Quando alguém dizia: “Foi tio Paulo quem falou”, não havia argumento contrário. “Tio Paulo disse isso. Tio Paulo acha assim”, estava tudo acabado. “Tio Paulo falou.” Depois das refeições, ele cortava um charuto e fumava; fumava sempre muitos charutos, dos mais finos. Toda a sala rescendia o aroma finíssimo. Na própria sala de jantar, havia num canto, uma mesa comprida carregada de revistas e jornais, revistas de todas as partes do mundo, que ele folheava enquanto tirava baforadas de fumo. À hora de dormir, tio Paulo colocava vários copos sobre a mesa, derramava um pouco de uísque em cada um e os oferecia aos filhos e hóspedes: “Para dormir bem”. Era como um rito, todos tomavam devagar, saboreando, mesmo que não gostassem. Aos domingos, tomavam champanha, tio Paulo gostava. Quando a avó ia para lá, acompanhava os hábitos da família. Tudo isso era para Dora uma espécie de conto de fadas; cada vez que a avó vinha contar mais novidades a respeito dos Rodríguez, era como se o conto fosse se prolongando cada vez mais bonito. Tinha vontade de perguntar à avó: “Como vão as princesas?” Ou então: “Como vai o castelo encantado? O príncipe já apareceu?” Sorria ao imaginar o rosto admirado da avó quando ouvisse a pergunta. Mas guardava tudo para si e quando a avó não tinha mais nada para contar sobre os Rodríguez, ela ia para o quartinho do fundo do corredor e ao passar na cozinha, falava para a cozinheira: “Como vai a rainha dos quitutes?” e fazia a cozinheira rir. Depois fechava-se no quarto, deitava-se na cama estreita, os braços cruzados na nuca, pensava: “Que bom se eu fosse uma Rodríguez”. No fim do ano, fez exames e passou para o segundo ano da Escola. Ainda era magra, mas seu rosto adquirira certo encanto; olhos muito grandes e expressivos, nariz perfeito, dentes brancos iguais. O que ela possuía de realmente bonito era a tez lisa, fina, acetinada, muito igual e a palidez de camélia chamava a atenção. O corpo também se modificara; já não andava curvada para a frente e como a mãe a obrigara a usar um colete especial durante anos, os ombros haviam firmado para trás e já não eram tão estreitos. Estudava pouco e pensava muito. Voltava da escola, atravessava a casa inteira, fingia-se distraída e não cumprimentava os hóspedes; fechava-se no quartinho, tirava o uniforme, vestia uma roupa caseira e deitava-se de costas, as mãos na nuca, cismadora. Se o pai ou a mãe perguntavam o que tinha, respondia: “Estou cansada”. Dizia-se sempre cansada, mas não era verdade; como queria estar só para pensar, fingia. Na realidade, sentia-se forte, mas de uma força diferente, que precisava de outro meio para expandir-se. Um dia em que estava assim, deitada de costas, a avó apareceu com a novidade: - Os Rodrigues vão festejar a chegada de Alexandre que deve ser lá para o dia 15 deste mês e querem oferecer um chá. - Para toda a gente? perguntou a mãe. - Parece que é só para a família e os amigos mais íntimos; vão se preparando porque Elisinha vai convidar vocês. Dora olhou disfarçadamente a folhinha da parede: dia 2. Pensou num vestido azul que vira na vitrina, pediria à mãe que fizesse um igual. A avó continuou: - Ele ficou noivo na Inglaterra. No dia seguinte, quando voltou da escola, viu a mãe às voltas com uma fazenda branca; tinha a mania de vesti-la de branco. Nem houve tempo para falar no azul, pois a mãe já cortara a fazenda branca, guardada desde o Natal. Ela mesma faria o vestido; quando a viu pregando rendinhas na saia, teve ímpetos de dizer: “Não, mamãe, não faça assim. Faça igual a um azul que vi na vitrina”. Não falou e a mãe terminou a costura. Comprou também uma palha branca, enfeitou-a de cerejas e deu o chapéu à filha para experimentar. Dora colocou-o na cabeça e só viu cerejas caindo sobre seus olhos. Teve vontade de chorar e jurou consigo mesma que não usaria aquele chapéu; quando se lembrou que não tinha outro, ficou triste; num momento em que a mãe foi atender um pensionista, procurou esconder uma cereja sob outra, conseguiu arrancar duas e achou que assim ficaria melhor na cabeça. Tinha os olhos cheios de lágrimas quando experimentou o chapéu pela segunda vez. Tia Elisinha escreveu convidando: “Quero que venham conhecer meu Alec”. Só chamava o filho de Alec e dizia “meu”, como se o filho fosse propriedade dela, só dela, uma coisa dela. Dora pensou: “meu guarda-chuva”, “meu livro”, “meu gato”. Tia Elisinha é engraçada. No dia do chá, a mãe vestiu-se de preto, um velho vestido que Dora conhecia desde que haviam residido no interior.  mãe modificava de quando em quando: trocava o cinto, colocava gola branca, às vezes lisa, às vezes com preguinhas, encurtava, descia a barra, tornava a subir. Todos os anos em janeiro, dizia solene: “Este ano vou comprar um bom vestido para mim. O meu está muito velho”. Não” comprava, Dora precisava de livros, precisava pagar o dentista, o sapato não tinha mais conserto, precisava de um par novo. E o dinheiro do bom vestido ia para coisas mais importantes. Dora vestiu-se de branco. “Enfeitado demais, para que tanta renda? Ninguém usa assim”. Quando colocou o chapéu pesado de cerejas, teve vontade de gritar: “Não posso ir, mamãe, tenho uma dor horrível na barriga, nunca tive isso”, e correr a fechar-se no banheiro. As cerejas brilhavam vermelhas, na aba branca do chapéu e Dora cerrou os lábios de raiva. Perguntou ao pai se não queria ir: “Deus me livre”, respondeu ele tirando um cigarro do bolso. A mãe avisou, já no bonde: - Hoje você vai conhecer tio Paulo, tome a bênção dele. Na entrada da casa, um homem de altura regular, de olhos azul-claros e charuto na boca, recebia os parentes e dava palmadinhas nos ombros de cada um. - É tio Paulo, disse a mãe. Beije a mão dele. Dora olhou; o tio era como o retrato do salão azul, aquele que tinha condecorações no peito e devia ter sido um grande da Espanha. O mesmo cavanhaque, os mesmos olhos, os bigodes pretos, a fisionomia expressiva. Era como se o retrato tivesse saído da moldura dourada e estivesse ali falando com ela, dando uma palmadinha amigável nas suas costas. Faltavam apenas as condecorações e o ar distante, tudo o mais era o mesmo. Sorriu e gostou do modo simpático do tio ao recebê-la; era risonho e bondoso. Tia Elisinha ao lado, parecia mais alta, imponente, de roxo-violeta. Viu o hall cheio de gente e ouviu a voz da tia: - Alec, venha cá. Era parecido com o pai, mas não tão simpático, nem tão risonho; parecia-se com a mãe quando sorria. Cumprimentou a ambas e voltou-se para falar com outras pessoas que vinham entrando. Dora foi para um lado do hall, no ponto mais escuro, onde havia menos gente; colocou-se atrás de uma coluna e ficou quieta, olhando para toda aquela multidão; a maioria eram parentes. Ela pensou: “Tem mania de agradar os tios Rodríguez porque os tios são ricos e poderosos; bajulam tio Paulo, agradam tia Elisinha de todas as formas possíveis, elogiam tudo que ela faz ou diz, adulam, incensam, adoram os tios ricos. Tirem o dinheiro deles para ver, toda esta gente desaparece como fumaça”. Sentiu raiva de todos; todos pareciam felizes, menos ela. Queria estar longe, longe, no alto de uma montanha e quando perguntassem: - “O que ela está fazendo lá em cima?” Uma voz respondesse: - “Sonhando”. “Não gosto de nada, não gosto de nada, não gosto de festas, não gosto de gente. Gosto do meu quartinho pobre, pobre, com cortina de ramagens; ele é escuro e só tem uma janela que fica do outro lado, mas eu gosto. Há um raio de sol que atravessa tudo e vem me cumprimentar todas as manhãs. Meu raiozinho de sol! Como eu gosto de tudo que é meu, mesmo que seja pobre. Tenho o raio de sol todas as manhãs e não quero mais nada; lá eu sou feliz, aqui eu sofro. Devia ficar em casa com papai, mas mamãe começava a dizer que “precisamos visitar os tios e conhecer Alec”. Como odeio tudo isto, odeio com força, com alma, com coração”. Viu D. Fernando e D. Isidro; ambos altos, magros, feios, os dedos das mãos como se fossem pernas de aranha. D. Fernando conversava num grupo de moças; dizia galanteios, inclinava-se para uma e para outra, sussurrava segredos que as faziam rir, piscava e sorria com malícia, satisfeito por sentir-se sob o encanto feminino. D. Isidro, sentado num canto da mesa, comia grossas fatias de peru com farofa e bebia champanha; de vez em quando, parava de comer para cumprimentar os recém-chegados, a boca cheia, os lábios úmidos, aborrecido por estar sendo perturbado num momento tão agradável. Dizia às sobrinhas que vinham beijar-lhe a mão mole: “Deus a abençoe”, e continuava a mastigar com pressa, como se tivesse medo de perder bocados tão bons. Foi o primeiro a se retirar acompanhado da mulher: “Não podemos perder a hora da reza”. Lá estava prima Justina, muito gorda e alta, as grossas pérolas enterradas nas carnes do pescoço, a abraçar os primos, a brincar com as primas, a rir e a falar, muito apertada num vestido marrom, não aceitando nada que lhe ofereciam. Espalmava a mão gorda na frente de cada bandeja: “Não, não, estou fazendo regime. Não posso comer”. E Dora sabia que, em casa, ela comia um frango inteiro, e saladas e frutas com creme e meia garrafa de vinho e café. A avó e a mãe aproximaram-se: - Venha comer um pedaço de bolo, menina. - Venha tomar um refresco. - Venha conhecer suas primas. De repende sentiu um peso no ombro, era a mão de prima Justina e depois o vozeirão que mais parecia de homem: - Esta é a Dorita? Como vai? Está crescida esta menina… Sou a prima Justina. Mesmo que não dissesse, Dora saberia logo; conheceria a prima de longe, pelo corpo imenso e pelo colar que ofuscava. Lá estavam as pérolas belíssimas, grandes como grãos de milho, amareladas, brilhantes. Ah! Por que não a deixavam? Tinha vontade de morrer, sumir dali. Só ela era feia, só ela estava mal vestida, só ela era pobre. Tornou a ver Alec à hora da saída; estava sempre rodeado de moças e rapazes; falavam e riam à volta dele. Sentiu raiva. De volta para casa, pediu à mãe: - Não tenho vontade de voltar lá, mamãe. São todos tão ricos e nós somos tão pobres! Não combinamos. A mãe sorriu, irônica: - Estou desconfiada de que você é muito orgulhosa. Por que notar a diferença entre eles e nós? Porque são ricos? Mas são nossos parentes e se nos convidam, precisamos ir. São tão bons e amáveis! Que importa que sejam ricos? Você parece um bicho-do-mato, precisa civilizar-se, desembaraçar-se. Nem a escola a modificou. Que coisa! Em casa, o pai perguntou pela festa. - Muito boa, disse a mãe. Tudo muito bonito, muita gente, Alec uma simpatia. Tia Elisinha felicíssima. - Ela foi sempre felicíssima, respondeu o pai. - E aqui? Tudo correu bem, à hora do jantar? - Tudo, menos seu Alencar que se queixou outra vez da carne assada, disse que estava dura. - Ora, ele se queixa de tudo, já é hábito, falou a mãe a caminho do quarto. Dora tirou o chapéu, o vestido, guardou tudo. Pôs a roupa de todo o dia e sentou-se na beira da cama para pensar. “Valerá a pena tanto sacrifício da gente se vestir, se aprontar, ir com vergonha da pobreza, do chapéu, do vestido, chegar lá e ficar num canto do hall espiando como se fosse um bicho, depois voltar para casa? Prefiro meu quarto escuro sem janela do que toda aquela riqueza. Nunca mais irei à casa dos Rodríguez, detesto todos. Odeio. Juro que nunca mais irei”. Com essa firme resolução tomou um livro e começou a ler. A avó continuava a levar notícias à Rua Marquês de Itu; quando ela chegava e não dizia nada sobre os Rodríguez, a mãe perguntava: - E os Rodríguez? Tem notícias deles? Tem estado lá? - Alec quer ser fazendeiro, diz que está procurando fazendas para comprar lá para os lados da Mogiana; Carlos continua a estudar Direito, apesar de Elisinha sempre dizer que queria que ele fosse engenheiro. Jane ganhou uma pulseira do marido, dizem que é uma beleza, não vi ainda… A mãe fazia “Ah!” e passava vela na costura, sobre a mesa: depois o dedão ia e vinha espalhando o espermacete. A avó continuava a contar novidades. No fim daquele ano, Dora fez exames e passou para o terceiro ano da Escola. Estava com dezesseis anos e seu corpo florescia; era alta e fina, já não tão magra, e muito esbelta. Tinha um modo de se mover, de andar, de falar que atraía olhares de toda a gente; havia graça em todos seus gestos; seu rosto era parado, sem muito movimento, mas quando falava ou sorria, tinha encantos que atraíam. Tinha saúde e prenúncios de beleza. Não ria sempre, era séria e retraída, parecia diferente de todas as meninas da sua idade. Quando a mãe falava em visitar tia Elisinha, ela dizia: “Não posso, tenho que estudar”. Não foi mais. Em vez de estudar, conversava longamente com o pai, ou saíam juntos e andavam a pé pelas ruas vizinhas. Quando a mãe voltava, o pai perguntava: - Sua tia Elisinha ainda tem muita pena de nós? - Como não? Tem pena porque temos casa de pensão, porque esta menina não estuda em bons colégios, porque não temos dinheiro, e trabalhamos. - E ela? perguntava o pai, sorridente. - Ela não cansa de dizer que é feliz. Tem tudo e nada lhe falta. - Que seja sempre assim, respondia o pai, piscando para Dora. Muitas vezes, quando ficavam sós, ela e o pai ridicularizavam os Rodríguez. Dora imitava a maneira de tia Elisinha falar, o pai ria-se muito; depois perguntava: “E os outros?” Dora enchia as bochechas de ar e dizia que era prima Justina; andava de um lado para outro sacudindo exageradamente os braços e falava com voz grossa: “Esta é a Dorita? Está crescida…Sou a prima Justina…” Antes de findar o ano, a mãe chamou Dora e falou: - Não podemos continuar com os pensionistas porque estamos ficando endividados. Para vivermos só com o dinheiro de seu pai, não podemos; seus irmãos estão trabalhando e o que ganham é para eles se manterem, não podemos contar com o auxílio de nenhum. No interior a vida é mais barata e o que temos dá para viver; vamos voltar para o interior e você fica em casa de sua avó até terminar os estudos. Dora não se importou muito, até preferia ficar em S. Paulo, apesar da ausência dos pais. Passaram adiante a pensão, despediram-se de alguns parentes e seguiram para o interior. Dora foi novamente para a casa da avó; lá só havia o tio solteirão, a avó e a cozinheira; todas as horas eram tristes e o silêncio era eterno na casa. Lia muito; ficava horas inteiras fechada no quarto, lendo ou pensando. Não tinha amigas; simpatizava com algumas colegas, mas mantinha ligeiras relações apenas na escola. Nunca convidou nenhuma para visitá-la e nem pensou em visitar ninguém. Um dia levou um susto; a avó dissera de repente: - Vamos visitar os Rodríguez. - Não posso, vovó. Preciso estudar. - Estuda amanhã que é domingo, você precisa ir, é aniversário de tio Paulo. Não pôde deixar de acompanhar a avó; jantaram lá. Havia umas quinze pessoas à mesa e Dora ficou colocada à frente de duas netas da tia Elisinha. Quando o criado colocou espargos em seu prato, uma prima que estava sentada do outro lado, perguntou: - Gosta de espargos, Dora? Antes que respondesse, uma das netas de tia Elisinha, falou, irónica: - Aposto que ela nunca comeu. Riu. As outras riram também. Dora olhou os talos brancos e compridos em seu prato e sem saber que fazer, levantou os olhos amargurada; viu então Alec do outro lado olhar para ela e sorrir. Sentiu uma grande tristeza e um leve calor no rosto; comeu os espargos sem levantar a cabeça e sem sorrir. Pensou: “Como pode esta menina tão bonita ser tão má? Que fiz para ela me humilhar assim? Sou uma pobre criatura e ainda riem de mim. E Alec? Por que olhou e sorriu? Não preciso da compaixão de ninguém; quero ir embora desta casa e nunca mais voltar. Fingem que são bons, mas não são; todos são maus, maus como lobos. Odeio-os”. Depois do jantar procurou a copa e ficou lá, conversando com uma parenta pobre que vivia nos fundos da casa, de favor. A avó foi chamá-la: - Vamos para o salão; você não pode ficar aqui encafuada. Que parece? Seus tios já perguntaram por você. Acompanhou a avó de má vontade. Estavam todos no salão que só se abria para recepções; a avó contava que todos os anos tio Paulo falava nos antepassados, justamente no dia do seu aniversário, parece que aproveitava a reunião de todos os membros da família, para recordar. Os ancestrais eram um culto para tio Paulo; fazia uma espécie de exame retrospectivo para que as novas gerações dos Rodríguez não se esquecessem dos feitos heróicos dos antigos Rodríguez. A hora retrospectiva da família era logo após o jantar. Tio Paulo ficava sentado na poltrona principal e antes de começar a falar, preparava o charuto; cortava a ponta, furava-o com um palito que trazia sempre no bolso, acendia-o, provava-o e começava: - Os Rodríguez vêm desde o século dezesseis; no alvorecer desse século aparece o primeiro da família, os outros perdem-se nas brumas do passado. Meu avô, aquele das condecorações e com o qual eu me pareço, segundo dizem, contava que o avô dele, D. Rodrigo Amancio de Rodríguez combateu na batalha de Lepanto ao lado de Cervantes, o autor de D. Quixote. Nessa batalha, Cervantes perdeu um braço. Foi uma batalha terrível e esse D. Rodrigo recebeu várias condecorações e grandes honrarias pelo seu heroísmo. Aquela dama de gola engomada que vocês conhecem pelo retrato é D. Branca, irmã da minha bisavó materna, descendente direta pelo pai, dos Williams, importante família inglesa. Pois bem. Contam que quando houve uma revolta na Espanha e mouros matavam homens e violavam mulheres, D. Branca que estava quase só no seu castelo porque todos os homens haviam seguido para a guerra, ouviu dizer que os mouros podiam chegar de um momento para outro. Tinha quatro filhas moças e a mãe velha além de alguns criados também velhos; então disse à mãe: “Temos aqui dois bacamartes. A senhora matará duas meninas e eu matarei outras duas, prefiro-as mortas a vê-las nas mãos daqueles malditos. Se o bacamarte falhar, está aqui um punhal. Tem coragem?” A mãe velha disse: “Tenho, pode ficar tranqüila. E você?” “Eu? Tenho a folha afiada do meu punhal, saberei morrer”. Dois dias e duas noites os criados velhos ficaram postados nas ameias vigiando as estradas e as duas mulheres passaram sentadas nos bancos duros atrás das seteiras das torres, olhando os caminhos por onde os mouros deviam vir. Mas eles não chegaram e D. Branca ainda viveu muitos anos ao lado de toda a família… Todas as fisionomias ficavam aliviadas e prima Justina suspirava alto, elevando e baixando o farto busto. Tio Paulo continuava: - O outro retrato, aquela que tem brilhantes na testa, era parenta da família de Santo Inácio de Loiola, é o traço mais antigo da nossa família, vem dos meados do século dezesseis. Fazia uma pausa, fumava durante alguns minutos e olhava a assistência à sua volta, queria saber se estavam gostando. Jane, a filha mais velha pedia: - Papai, conte a história de Santo Inácio de Loiola. - Já é tão conhecida… Outras vozes pediam: - Conte, conte. Era isso que tio Paulo queria; consertava a garganta, fumava mais um pouquinho e continuava: - Inácio que se chamava no século Inigo Lopes de Recalde era um jovem dado a aventuras galantes e proezas de toda espécie. Inteligente, corajoso, vivia em busca de glórias, de sucessos, de amores. Naquela época reinava na Espanha o Imperador Carlos V e os franceses invadiram o país e tomaram a cidade de Pamplona; Inácio foi dos que lutaram em defesa da cidade; teve as duas pernas quebradas e foi feito prisioneiro. Esteve à morte e chegou a receber os sacramentos mas no dia seguinte, com espanto de muita gente, começou a melhorar e pouco depois estava curado. Voltou-se então para a religião; em suas meditações, pensava numa grande dama e desejava realizar um feito extraordinário para ganhar a admiração dessa senhora. Uma noite em que não pôde dormir, teve uma visão; apareceu-lhe uma dama que não era outra senão a Virgem Maria com o Menino Jesus ao colo. Arrependeu-se imediatamente dos erros da sua vida passada e resolveu daquele momento em diante abandonar todas as coisas terrenas e dedicar-se à devoção e à religião; enfim, voltar-se para a vida monástica. Tornou-se um cavaleiro andante, um segundo D. Quixote de Ia Mancha; montou a cavalo e saiu pelo mundo como um pobre sem recursos que só tinha o cavalo que montava, as roupas que vestia e as armas que levava. Um dia, encontrou-se com um mouro, viajaram juntos durante algum tempo e começaram a falar a respeito de religião. O mouro que era culto começou a dizer palavras ofensivas à Virgem Maria; Inácio não encontrou argumentos para responder às ofensas que ouviu. Separaram-se depois disso e Inácio ficou tão desesperado e envergonhado que teve vontade de voltar e matar o mouro. Dizem que ele entregou a sorte ao cavalo que montava e o cavalo levou-o à abadia de Montserrat; aí fez vigília por uma noite inteira diante da imagem da Virgem Maria. Resolveu então dar a outrem o cavalo, as roupas e as armas; vestiu uma roupa de estamenha, entregou-se a mortificações e vigílias. Mais tarde, foi em peregrinação à Terra Santa. Andou assim alguns anos, depois estudou em Salamanca, na França e afinal foi ordenado padre. Foi quando fundou a “Sociedade de Jesus” que é a Ordem dos Jesuítas; esta ordem levou o Cristianismo à China, índia e América do Norte, tendo sido enfim um dos mais fortes baluartes da Igreja Católica. Nova pausa. Todos comentaram por alguns instantes a história de Santo Inácio, enquanto tio Paulo fumava o charuto com satisfação. - E a história deste, vovô? A neta apontava para um retrato que havia na parede acima do piano. Tio Paulo levantava, dava umas voltinhas pelo salão, acariciava o cavanhaque, tornava a fumar. - Vocês sabem de cor a história deste senhor. - Conte outra vez. Mesmo de pé, tio Paulo apontava o charuto para o retrato de um homem magro, vestido de preto, e ar triste; grandes bigodes sobre a boca, um nariz enorme de águia. - Este foi D. Rafael Diogo Fernando de Rodríguez, o infeliz da família. Contam que no dia do casamento dele com D. Juana Ortiz, quando tudo estava preparado para a boda e os convidados estavam chegando e as mesas postas e acabavam de enfeitar o altar, a noiva desapareceu. Ninguém viu, ninguém soube, ninguém ouviu nada, mas a noiva não estava em parte alguma. Procuraram por toda a parte, por todos os recantos do castelo, no sótão, nos porões, atrás das portas, dentro dos gavetões. Nada. Homens a cavalo percorreram todas as estradas da província à procura da noiva. Os convidados se despediram, criados desmancharam as mesas, tiraram as flores dos altares, apagaram as velas. D. Rafael, desesperado, recolheu-se a um quarto e chorou. Passaram-se meses, sem notícias de D. Juana. Onde estaria D. Juana? D. Rafael ofereceu grandes somas para quem descobrisse o paradeiro da noiva; era uma noiva tão gentil, tão mimosa, tão bonita. Ele tinha o retrato dela no quarto e não se cansava de olhá-lo. Onde estaria D. Juana? D. Juana que ia se casar com o homem mais rico da província, o homem que tinha castelos, grandes plantações e duas mil cabeças de gado? O homem que se chamava D. Rafael Diogo Fernando de Rodríguez e era nobre, e era bom, e era belo? Um dia, um menino, filho de um guarda-florestal, estava sentado na beira do lago que havia em frente ao castelo, quando viu uma coisa branca flutuando na água. O menino chamou gente aos gritos, correu o guarda-florestal, correram os empregados, correu D. Rafael. Aquela coisa branca era o véu de noiva de D. Juana. E ela? Onde estaria? No fundo do lago, morta, coitadinha, irreconhecível, coberta de lodo e limo, comida pelos peixes, as carnes desfeitas, buracos no lugar dos olhos. Em prantos, luto fechado, quebrado de dor, D. Rafael fez o enterro solene daquela que havia sido bela, mimosa e meiga; toda a província compareceu; houve missa e durante a missa D. Rafael fez questão de casar-se com a defunta. Sim, casou-se com D. Juana; fez voto perpétuo de fidelidade à morta; todo o mundo chorou. Durante trinta anos, D. Rafael viveu fechado no castelo procurando descobrir a causa da morte da noiva tão amada; investigou, inquiriu, perguntou, escutou, vigiou, desconfiou de toda a gente, até de seus próprios parentes, até de seus pais. Jurava que D. Juana não se suicidara, fora atirada ao lago. Mas por quem? Quem poderia ter feito isso? E por quê? De tanto pensar e de tanto procurar, ficou esquisito e terminou seus dias meio enlouquecido, chamando: “Juana! Juana!” Todos os dias e todas as horas. Era como se Juana estivesse viva: “Senta-te aqui, vem conversar comigo. Viste as macieiras como estão floridas?” Ou então: “Onde queres ir amanhã? Não, perto do lago não, Juana. É tão triste aquele lugar. Vamos comer esta lebre, depois combinaremos nosso passeio de hoje”. Colocava um pedaço de lebre no prato ao lado e sorria como se Juana estivesse ali. Morreu assim, um pobre louco inofensivo, chamando a noiva até nos últimos instantes de vida. Pobre D. Rafael! Dora deixou a casa com a impressão de que tio Paulo era um bom homem, delicado e amável; gostava de gatos, tinha sempre um no colo, Agustin. Quando estava em casa, vestia um paletó de veludo marrom, punha um barretinho na cabeça e sentava-se para ler jornais, Agustin no colo. Ao lado, charutos. A avó contava que na mocidade, havia sido grande caçador de veados; agora tinha um arrependimento profundo por ter matado “esses animais inocentes”, como dizia. Ficava revoltado consigo mesmo por haver cometido essas barbaridades; coçava a cabeça de Agustin e punha nesse gesto todo seu arrependimento pelas maldades que fizera aos pobres veadinhos. Era risonho e bondoso; não podia ver uma visita entrar, sem lembrar imediatamente de oferecer café ou vinho ou doces. Gostava de doces e dizia: “Sou como formiga”. Era de uma bondade extrema para as crianças e os animais; um dia atravessou a rua para dizer a um carroceiro: “Parabéns. Seu burro está tão bem tratado e tão gordo que nem está se importando com o milho que você lhe deu agora. Gosto de ver animais assim bem tratados”. Foi embora e o carroceiro só compreendeu quando ele já ia indo; seguiu-o para agradecer o interesse dele pelo burro: “Sim senhor, muito obrigado, sempre tratei bem dos meus burros. Muito obrigado”. Tio Paulo era um bom e um simples. No ano seguinte, o último que passava em S. Paulo, a avó falou: - Vamos jantar em casa de Elisinha, é aniversário dela e nos convidou. - Impossível, vovó, tenho que estudar. - É assim. A gente faz tudo para alegrar sua vida e você vem com “impossível, vovó”. Desanima. - Mas não estou triste, sou assim mesmo. Meu gênio é assim, é que estou em véspera de exames e preciso estudar um pouco. - Que hei de dizer lá? Elisinha já disse que você é muito esquisita, parece sempre contrariada; até Paulo pergunta por você. Faça minha vontade, vamos. Dora foi, dizendo consigo mesma que seria a despedida dos Rodríguez, não pretendia vê-los mais. Completara dezessete anos e estava embelezando; tinha muita vida nos olhos e quando falava ou ria surpreendia as pessoas. Não parecia vaidosa, a avó lembrava-lhe continuamente: “Passe pó de arroz, seu nariz está brilhando”. Ao jantar, sentou-se ao lado da avó, perto de Tio Paulo. O tio mandou vir champanha no princípio do jantar e explicou: - Hoje toma-se champanha logo depois da sopa, os costumes estão mudados. Dora tomou um gole daquela bebida espumante e achou-a de sabor acre. Tio Paulo perguntou: - Dora, para onde você vai depois de tirar o diploma? - Vou lecionar no interior. Papai quer ver se me arranja um lugar na Escola Isolada do Lavapés. Todos os netos de tia Elisinha começaram a rir; as meninas levantaram as taças e brindaram à saúde de Dora, dizendo: - Ao seu Lavapés! Ela ficou vermelha e, levantando os olhos, tornou a encontrar os de Alec fixos nela; o rapaz estava sério e parecia não ter ouvido. No íntimo, ficou-lhe reconhecida. Mais de uma vez durante o jantar, as meninas referiram-se ao Lavapés, até que tia Elisinha rindo também, mandou que parassem com a brincadeira. Deixou dessa vez a casa com a impressão de que os Rodríguez nada respeitavam; não se importavam com religião, não faziam caridade, não entendiam de música, nem de arte. “Materialistas até a medula dos ossos. Me-du-la. Se vão ao teatro lírico é porque toda a gente fina vai, mas não entendem. As filhas só falam em jóias, dinheiro, vestidos caros; acham que tudo que as amigas têm é inferior. Só o delas é bom, é superior, é melhor. Tia Elisinha deixa os filhos e netos ridicularizarem os parentes na mesa; ela acha graça, acompanha os filhos num riso discreto que os encoraja. Não levam nada a sério, só têm uma palavra sarcástica para definir os outros, o resto é brincadeira. O mundo todo é uma brincadeira para eles: “Vamos brincar, ah! a vida é tão boa, tão divertida”. Sempre ouvi vovó dizer que tia Elisinha foi leviana quando moça; é leviana até hoje apesar da idade. E tem orgulho das filhas, dos filhos, dos netos, do marido. “Meu Alec. Meu Alec”. Tonta. Tudo dela é melhor que dos outros. Minha casa. Meu aparelho de louça inglesa. Meu anel de brilhantes. Meu Alec. Velha tonta. Jane fala nas festas elegantes, tia Elisinha ri. Carlos fala na casa dos amigos ricos, tia Elisinha sorri, orgulhosa. Tonta orgulhosa. Mas agora desaparecem da minha vida. Nunca mais quero ouvir falar nessa gente; vou para o interior e morrerei lá. Tio Paulo podia dizer qualquer coisa, chamar atenção dos netos, não. Ele é o melhor de todos, mas não diz nada. Come e fuma charutos. Adeus, Rodríguez”. No fim do ano, tirou diploma de professora e fez as malas para seguir viagem; a avó lembrou: - Você não pode ir embora sem se despedir dos Rodríguez; foram tão bons para você. Dora pensou em quê haviam sido bons e nada encontrou. Disse que iria despedir-se ou então escreveria um cartão; não fez uma coisa, nem outra. Deixou S. Paulo. capítulo 3 Foi encontrar os pais morando numa chácara um pouco afastada da cidade. Era um lugar pitoresco; a casa não era nova, mas o pai a mandara pintar e parecia melhor assim, de azul-claro, no meio do arvoredo. Na frente e dos lados havia um jardim cheio de canteiros em círculos, rodeados de periquitinhos, begônias, dálias vermelhas e brancas com pétalas apertadinhas, uma roseira brava, um pé de esporinha, melindre, cravos, às vezes tudo no mesmo canteiro. Era um emaranhado selvagem, como se deixassem as plantas à vontade; Dora gostou do lugar. “Será bom para pensar”. O pai foi logo dizendo: - Não consegui a escola do Lavapés para você, mas não se incomode. Sua nomeação vai ser para uma cidadezinha muito pequena, mas será por pouco tempo. Eu a levarei lá. Seguiram dias depois para a cidadezinha. Havia apenas uma rua que saía da estação e se perdia no campo e mais três ou quatro vielas transversais com meia dúzia de casas. Um homem, João Papudo, dava pensão. O pai carregou as malas e seguiram os dois pelas ruas cheias de buracos. “Imagine isto quando chove, ou então à noite, como deve ser triste à luz da lua. Se houver lua”. Seu João tinha um papo que ficava dependurado fora da camisa; ele falava, o papo mexia. Dora olhava seu João nos olhos ou na testa, mas sentia irresistível atração pelo papo. Quando percebia, estava olhando a deformidade. João Papudo disse que dispunha de um quarto, já ocupado pelas duas professoras da vila e a moça poderia ficar lá; o pai dormiria na sala da frente. O chão era de barro socado. À tarde, as duas professoras chegaram e trocaram algumas palavras com Dora. Havia muita criança na redondeza; a classe dela seria mista, teria pelo menos quarenta crianças. Eram duas moças tristes e feias; uma delas já estava ali há um ano, a outra há apenas seis meses. Depois do jantar, conversaram sentadas em bancos toscos, na porta da casa; crianças sujas brincavam na terra, cachorros sarnentos passavam e paravam para se coçar, cavalos quietos no meio da rua esperavam os donos que se demoravam na venda em frente. Dessa, vinha um cheiro de pinga, de açúcar preto, de melado. Moscas grandes e pesadas voejavam por toda a parte. Colocaram um lampião de querosene num banquinho perto da janela; era a única luz. O quarto onde as professoras dormiam era pequeno, forrado de pano sujo; em certos lugares o pano caía formando sacos; Dora lembrou-se do papo de seu João. Deitaram-se. Dora nada mais pôde ver por causa da escuridão. Uma das moças, acendeu uma vela e rezou, rezou para que saísse logo daquele buraco; chamava a cidadezinha de buraco. Dora teve pena; depois apalpou o colchão; afundava tanto que seu corpo ficou dobrado; teve medo de cobra, de baratas, de ratos. Encolheu-se toda e esperou. - Posso apagar a vela? - Pode. Escuridão. As duas companheiras de quarto começaram a ressonar. Dora ficou escutando. “Deus permita que venha logo o dia. Que noite longa. Tudo à luz do sol é mais alegre, mais vivo, tem mais cor. Quanto tempo terei de ficar aqui? Meses? Anos? As professoras parecem boazinhas. Oh! Meu Deus, como é triste ser pobre, ter que vir para este lugar para ganhar a vida. Como seria bom se eu fosse uma Rodríguez”. Ouviu ratos correndo pelo forro de pano, encolheu-se toda e cobriu a cabeça; teve vontade de acordar as moças e perguntar se elas não tinham medo. Começou a tremer; os ratos corriam e davam guinchos finos; seu João roncava fortemente no quarto vizinho. Que noite! Só dormiu de madrugada, quando os ratos haviam desaparecido e a claridade começava a invadir o quarto. Foram ver a escola que ficava sobre uma colina; o lugar era bonito e a casa nova, mas estava suja de barro respingado das chuvas. Um bando de crianças descalças e sujinhas rodeou-a, curioso; Dora olhou-as, desanimada, nem teve vontade de sorrir. As outras professoras já estavam nas respectivas salas fazendo a chamada; Dora entrou na sala designada, acompanhada de meninos e meninas; esperou todos se sentarem. “Quanto tempo ficarei aqui9 Preciso ter muita força, muita coragem. Como vai ser difícil”. Quase todas as crianças estavam descalças; nos pés nus, havia barro seco; algumas despenteadas e maltrapilhas. Além de tudo, sentia cólicas; era horrível lidar com quarenta crianças desconhecidas, irrequietas, curiosas, e ao mesmo tempo sentir dores no corpo. Que sacrifício! Fez a chamada, depois ficou olhando a parede em frente, esquecida de tudo, a classe em grande algazarra. Resolveu dispensá-la mais cedo, nada podia fazer. Voltou para casa de João Papudo, pálida e doente; o pai foi vê-la na cama: - Sabe de uma coisa? Vamos embora, isto aqui não serve para você. - Agora não posso, papai. Hei de me acostumar. Devo ficar, pelo menos por algum tempo. - Apronte as malas e vamos embora amanhã no primeiro trem. Despediu-se das moças e de João Papudo com alívio; quando o trem apitou e ela recostou a cabeça no banco, fechou os olhos, aliviada. Era como se tivesse deixado atrás um pesadelo. Na pequena chácara, ficaram esperando a nomeação para o Lavapés; veio meses depois e Dora foi tomar posse do lugar. Ficava num bairro longe, era apenas uma escolinha que funcionava na sala da frente de uma residência, a família morava nos fundos. Ela ia e vinha a pé todos os dias. Começou a gostar da escolinha; era silenciosa, pequena e ela sozinha a dirigir a comandar aquela meninada barulhenta e irrequieta. Dora acordou de madrugada com o canto dos pássaros no jardim; o dia estava clareando. “Que será que eles cantam? Falam com os companheiros? Nem deixam a gente dormir direito”. Voltou-se e fechou os olhos. Quando se levantou, mais tarde, a cozinheira já chegara e estava colocando achas de lenha no fogão. Vestiu-se rapidamente e foi dar umas voltas pelo pomar; procurou algumas frutas, gostava de saboreá-las bem cedo, antes do café. Viu a mãe atirando milho às galinhas; o pai viajara na véspera em visita a uma fazenda. Dora pensava em si própria enquanto caminhava pela chácara, aquela manhã; sua vida era bem triste. Não gostava de festas, fora a um ou dois bailes e quase não dançara; diziam que ela era orgulhosa. Não era; apenas não gostava de sociedade. Não tinha amigas na cidade, uma ou duas companheiras somente. Esquisito: todas as moças tinham amigas, gostavam de dançar, de vestidos bonitos. Ela também gostava disso tudo, mas não naquela cidade tão acanhada, tão pequena. Gostaria de morar numa grande cidade e ser rica, muito rica. Gostaria de ser a primeira entre as primeiras. Para viver aquela vidinha de cidade de interior, aquela vidinha rotineira: Saber a vida de todo o mundo, cumprimentar todos que passam, “saber que D. Cilota está com febre. - Hoje a febre baixou. Hoje tornou a ter febre. - Hoje está boa, fora de perigo. - Toda a gente comenta a febre de D. Cilota. - Saber que “seu Raimundo seguiu para S. Paulo, foi visitar o filho que está no colégio. - A Tudinha vai mesmo se casar com o Mário”. Não, preferia viver sozinha, consigo mesma, não sair de casa a não ser para a escola, não se dar com ninguém. Não queria viver aquela vida estúpida. Por isso, era diferente. Preferia ser diferente ou orgulhosa, que importava? - Dora, café! Depois do café, corrigiu as lições dos alunos durante duas horas; havia tanto que fazer naquela escolinha. Tomou banho e vestiu-se para sair; tinha que almoçar e seguir para o Lavapés, a aula começava ao meio-dia e trinta. Sentou-se à mesa para almoçar; tudo era tão pobre na casa. Examinou os talheres, eram tortos; a louça desbeiçada. Copos grossos e feios, toalha remendada em muitos lugares. Com o ordenado do próximo mês, compraria louça nova para a casa, a mãe teria uma surpresa. Quem sabe mais tarde, alguns talheres também. - Até logo, mamãe. - Até logo. Viu um grupo de meninas esperando-a no portãozinho; moravam ali perto e gostavam de acompanhá-la à escola; desceu os degraus cimentados, abriu o portão, a trepadeira estava caída, atrapalhando; prendeu um dos galhos, enrolando-o num mais alto. - Bom dia, D. Dora. - Bom dia. Bom dia. Foi quando viu Alexandre Rodríguez à sua frente; chegara naquele instante. Viera a pé pelas ruas empoeiradas e estava tirando o chapéu para cumprimentá-la. Ficou atarantada, sem saber que fazer. Fora tudo tão rápido! Disse bom dia, depois lembrou-se de que devia convidá-lo para entrar. - O senhor quer entrar? Chamou-o de “senhor” sem querer. “Que maçada! Que estas meninas vão pensar de mim? Pareço uma tonta. Sou mesmo uma tonta.” Abriu o portãozinho e tornou a prender o galho da trepadeira que batia na cabeça de quem passava; ele auxiliou-a. Continuou: - Papai está viajando, mas mamãe está. Faça o favor… Caminharam os dois pela área que ia dar ao terraço; só então lembrou-se de que deixara as meninas sem uma palavra. - Faça o favor de sentar-se. Estava corada, gotinhas de suor na fronte. Voltou ao portão quase correndo e avisou as alunas que fossem andando, estava ocupada e iria mais tarde. Apinhadas no portãozinho, as meninas ainda olhavam através da grade de madeira. Dora contornou a casa e foi procurar a mãe: estava sentada na porta da cozinha curando um pinto doente, o avental sujo, os cabelos grisalhos caindo na testa; Dora falou, nervosa, em voz baixa, temendo ser ouvida: - Mamãe, Alec Rodríguez está aí, quer falar com papai. - Quem? Alec Rodríguez? O filho de Tia Elisinha? Levantou a cabeça e olhou a filha; Dora torceu as mãos, cada vez mais nervosa: - Vamos, mamãe, ele está esperando na sala; assim vou perder a aula. A mãe sacudiu o avental e o pinto correu, meio engasgado. - Tire o avental, mamãe. Está sujo. - Alexandre Rodríguez! Que será que ele quer com seu pai? - Não sei; disse que precisa falar… Vamos. - Mas seu pai está viajando… - Mas vá falar com ele, pelo amor de Deus. A mãe tirou o avental, prendeu os cabelos, lavou as mãos na torneira da porta da cozinha: - Então vamos. Foram encontrar o rapaz de pé na porta da sala, olhando o jardim emaranhado de flores e plantas de toda espécie. Sentaram-se os três e a mãe pediu notícias de toda a família; depois contou que estavam sós, o marido regressaria aquela noite. Alec Rodríguez disse que viera comprar fazenda; soubera que eles haviam sido donos da Boa Vista por alguns anos, queria informações. Dora olhava as horas no relógio velho da sala; mesmo que corresse, agora chegaria tarde; pensou nas alunas esperando na porta da escola, depois se dispersando uma a uma. A mãe observou: - Hoje você não vai à escola, Dora. Já perdeu a hora. Alec levantou-se: - Será que vim atrapalhar? Neste caso.. . - Não, não, sente-se. Um dia ou outro que ela falte, até é melhor. Trabalha muito. Dora também afirmou que não tinha importância. Falaram longamente sobre Boa Vista. A mãe contou como perdera a fazenda e como o marido passara de dono a simples administrador. O prejuízo que o café dera, a baixa dos preços; falaram sobre a praga dos gafanhotos e a mãe descreveu a qualidade das terras, o arrozal que haviam plantado na baixada. De repente perguntou: - Conhece alguém na cidade? - Ninguém a não ser vocês, respondeu ele. - Leve Alec para dar umas voltas, Dora. Depois voltem para tomar café, às três horas. Dora ficou revoltada, a mãe sabia que ela não gostava dos Rodríguez, odiava-os, por que fazia isso? - Não conheço nada. Para chegar até aqui, vim perguntando de rua em rua, disse Alec, sorrindo. - Vá mostrar a ele nossa catedral. Sabe que é o orgulho da cidade? E de fato é bem bonita. Mostre o jardim, as casas principais. Como toda a cidade do interior, parece-se com outras já conhecidas. Dora levantou-se, devagar; parecia mover-se sem vontade. Alec acompanhou-a; quando passaram pelo portãozinho, levantou a trepadeira para que ela passasse; saíram à rua e foram andando. - Gosta daqui? perguntou ele. - Mais ou menos. Muito não. Um ao lado do outro, caminharam em silêncio por algum tempo. Pararam diante da igreja. - Esta é a catedral. Quer entrar? - Vamos. A igreja estava deserta. Sentaram-se num dos bancos do meio e ficaram silenciosos. Os pensamentos tumultuavam no cérebro de Dora: “Tomara que ele vá embora logo, amanhã, hoje mesmo. Veio me atrapalhar, perturbar minha vida”. - Que santo é aquele? São João. Não conhece? Aquele que tem o carneirinho. Não me lembrava bem, pensei que tivesse uma criança nos braços. Ela sorriu: - Ah! Com criança nos braços é São Vicente de Paula. - Você conhece todos? - Mais ou menos. Lembrando-se de que já dissera mais ou menos antes, enrubesceu. Voltou a cabeça e olhou para outro lado. Como era estranho estar sentada num banco de igreja ao lado de Alexandre Rodríguez. Era tão estranho que não sabia que pensar; nunca, em S. Paulo, trocara com ele senão palavras convencionais, nunca conversara a sós com ele, nem sabia do que ele gostava ou não gostava, só sabia que era um Rodríguez e por isso o odiava. Sondou o fundo do coração para saber se o odiava verdadeiramente; com surpresa percebeu que não. Corou a esse pensamento. Um grupo de crianças entrou na igreja, ajoelhou-se perto deles e olhou-os com curiosidade. De súbito, Dora resolveu falar; não querendo que ele percebesse que estava acanhada, contou há quanto tempo estavam construindo a catedral e ainda não estava pronta; depois falou sobre a escolinha e as alunas. Depois perguntou: - Quer andar mais um pouco? No jardim? - Podemos ir. Saíram da igreja e foram ao jardim da praça; havia grandes gramados, canteiros e um pequeno lago cheio de peixinhos. Ficaram por ali dando voltas e falando sobre plantas, nomes de umas, qualidades de outras. De vez em quando passava uma pessoa conhecida e cumprimentava-os. - Conhece muita gente aqui? - Conheço quase todos. Você sabe, cresci aqui. Perturbou-se ao chamá-lo de você pela primeira vez. Ele falou: - Eu gostaria de morar numa cidade assim pequena, não gosto de cidades grandes, são muito barulhentas. Gosto de sossego. - Eu também. Por isso gosto daqui. Acho tão tranqüilo! Voltaram para casa, onde o café os esperava; tomaram-no no terraço, enquanto a mãe oferecia broinhas de fubá ainda quentes. Dora olhava Alec disfarçadamente: “Alec Rodríguez aqui em nossa casa, em nossa pobre casa. Ainda bem que ele vem só para tomar café e temos boas xícaras; nunca poderíamos convidá-lo para jantar ou almoçar, morreria de vergonha. Ele não é feio, nem bonito; pelas contas de mamãe, deve ter vinte e seis ou vinte e sete anos. Será que ainda está noivo na Inglaterra? Não sei se devemos perguntar, é melhor não. Quando sorri é simpático, mas não devo me esquecer de que é filho de tia Elisinha, aquela intolerável mulher”. A mãe estava perguntando: - Quer ver o nosso pomar, Alec? Temos boas frutas, plantadas por nós mesmos. Durante algumas horas, passearam entre as árvores e falaram sobre frutas; havia-as de muitas variedades e algumas escolhidas. A tarde começou a cair e Alec se despediu, voltaria no dia seguinte para conversar com o pai. A mãe apressou-se a convidá-lo: - Não quer jantar conosco? Não fazemos cerimônia com você. Ele agradeceu e disse que aceitaria o convite outro dia; estava cansado e preferia ir para o hotel. Quando saiu, Dora sentiu certo alívio. - Mamãe, como é que o convidou para jantar? Nós não temos nada e ele está acostumado com tanta coisa boa. Tenho vergonha… - Não se incomode, disse a mãe. Para tudo há remédio, só não há para a morte. Dora refugiou-se no quarto e começou a pensar: “Por que lhe disse que gosto desta cidade? Detesto tudo isto aqui, detesto. Por que disse que gosto? Só porque ele falou”? Para agradá-lo? Que tolice, estou ficando tonta. Tomara que vá embora logo, amanhã mesmo”. No dia seguinte, Dora levantou-se cantarolando; foi ao jardim cortar flores para os vasos da sala; Alec achara as espirradeiras bonitas, colheu uma braçada delas e colocou-as no vaso comprido. Subitamente lembrou-se de que decerto não o veria aquele dia; o pai fora procurá-lo cedo no hotel e com certeza haviam ido a Boa Vista: “Que importa? Preciso tratar da minha vida”. Não cantou mais e foi corrigir os cadernos das alunas; saiu à hora do costume e só voltou tarde. Assim que abriu o portãozinho, viu Alec e o pai sentados no terraço, conversando. Alec trajava roupa de montaria e mal a viu foi ao seu encontro, dizendo que estavam de volta de Boa Vista. - Alec janta conosco, disse o pai. Ela foi lá para dentro, assustada: - Ah! Mamãe… - Não se aflija. Já mandei Benedita matar um frango e pedi a D. Leocádia meia dúzia de talheres emprestados. Agora vá estender a mesa. - E a sobremesa? - Está pronta. Ovos queimados. Dora foi escolher a melhor toalha; encontrou uma sem remendos, adamascada, ignorava que a mãe ainda posuísse essas coisas. Enquanto preparava a mesa, via as cabeças do pai e de Alec, que palestravam no terraço; fumavam e riam. Dora examinou os talheres da vizinha; eram bonitos e pesados. Que bom se tivessem assim em casa, estaria livre de mais essa preocupação. Colocou violetas num pratinho no meio da mesa; com folhas em torno, não se percebia o prato. A mãe chamou-os para jantar. Perturbada, Dora sentou-se na frente de Alec e quase não falou. Alec repetiu o frango assado dizendo que estava delicioso, depois repetiu ovos queimados. Dora achou-o mais simpático, assim sem cerimônia. O pai ofereceu vinho de laranjas feito na chácara; o rapaz elogiou o vinho. Dora corou: “Meu Deus, Alec tem os melhores vinhos do mundo e papai oferece vinho feito em casa. Que horror!” A cerimônia desaparecera; voltaram ao terraço onde Dora serviu café, depois ficaram até tarde conversando; grilos cricrilavam entre as moitas do jardim e vaga-lumes passavam lentamente, brilhando na escuridão. Quando se despediu, naquela noite, Alec apertou a mão de Dora com insistência. Durante muito tempo, ela sentiu aquele aperto de mão; já estava deitada e não podia dormir, sentia o calor da mão de Alec na sua. “Como o destino é engraçado às vezes, como tudo parece convergir para um só ponto. Por causa de fazendas de café, Alexandre Paulo Vidal de Rodríguez está aqui conosco, conversando, tomando café com bolinhos, jantando. Voltará amanhã? Ele disse que sim, há outras fazendas a visitar. Vamos ver amanhã.” Só dormiu de madrugada. À hora do costume saiu para a escola; viu o pai e a mãe no pomar, mas não quis perguntar se Alec viria ou não. Durante todo o tempo que durou a aula, sentiu-se perturbada. Por quê? Que estava sentindo? Qual o sentimento que a dominava? Afastou a idéia que procurava penetrar em seu cérebro. Não. Não. “Sou uma idiota. Alec veio comprar fazendas, vai embora amanhã, hoje mesmo, nunca mais o verei. Nunca. Por que pensar nele?” Ao despedir-se o último aluno, permaneceu ainda alguns minutos sozinha, reunindo e guardando lápis e cadernos. Depois saiu; Alec estava na porta, esperando-a. - É bem longe sua escola, não? Ela corou de satisfação ao sentir o olhar do rapaz sobre seu rosto. Perguntou, alegre: - Veio visitar minha escola? - Fui ver uma fazenda deste lado e ao passar por aqui lembrei-me de vir buscá-la, estava quase na hora. A alegria de Dora desapareceu. Ele não fora buscá-la, ia passando por acaso; caminhou ao lado dele, um ar frio, indiferente, calmo. Alec perguntou: - Não quer passar pelo jardim? Por lá é mais bonito. - Já é tarde e pelo jardim o caminho é mais longo. Mamãe ficaria preocupada. - Meia hora mais, meia hora menos não vai deixar sua mãe preocupada. Vamos, Dora. Era a primeira vez que dizia o nome dela e Dora sentiu-se, de repente, possuída de felicidade. Foram andando juntos, bem devagar, através de ruas de um bairro quase deserto; conversavam pouco, faziam uma ou outra observação sobre as casas, sobre a vida da cidade. Sentaram-se num banco afastado do jardim e ficaram conversando mais intimamente; ele contou que sempre desejara ser fazendeiro, era seu sonho, agora pretendia realizá-lo. - E não receia que sua noiva não goste da fazenda? Ele olhou-a, admirado: - Que noiva? - A que você deixou na Inglaterra. Riu-se: - Não tenho noiva, nunca tive. Penso que mamãe inventou isso porque achou bonito. Imagine! “Meu filho Alec deixou a noiva em Londres.” Que romântico! Você não sabe que mamãe é toda 1830? Riram alegremente. Estava anoitecendo quando chegaram à chácara. O pai disse: - Logo vi que estavam passeando; Dora nunca chega tarde assim. Jantaram todos juntos; a mãe preparara pato com maçãs da chácara; Alec disse que nunca comera pato tão bem preparado. No dia seguinte, ele viajou para outra zona, onde ficaria alguns dias. Dora não teve paz; sentia desassossego, inquietação. “Ele não voltará mais. Impossível que volte, decerto está admirado da nossa miséria. Sabia que éramos pobres, mas não assim. Não temos nada. Não posso gostar de Alec, não posso e não devo amá-lo. Ele é muito rico e eu nada tenho. Pobres de nós! Deus permita que ele vá embora e não volte mais; se continuar a vir aqui, não sei que será de mim, não quero pensar. Oh! Meu Deus, afastai-me deste amor, não o amo, não o amo.” Quando Alec voltou alguns dias depois, encontrou Dora diferente; foram andar pelo pomar e ele perguntou porque estava assim, não parecia a mesma. Ela olhou-o de frente e fitou-o nos olhos; procurou mostrar-se despreocupada: - Diferente? Não. Estou bem, somente penso na minha ’ classe; você sabe, o inspetor percorre todas as escolas e faz exames nos alunos; está para chegar agora, de um momento para outro. Não sei ainda que achará da minha classe, não sei se está preparada, e depois… não tenho prática, comecei há pouco tempo. Começou a raspar, com a unha, o tronco de uma árvore; ele procurou apertar-lhe a mão, ela esquivou-se: - Vou me preparar, estou quase na hora. Até logo. Sacudiu os galhos secos da saia e dirigiu-se para a casa; seu coração estalava de dor. Lágrimas borbulharam em seus olhos, mas Dora preferia morrer a demonstrar seu sentimento. Vestiu-se para sair; disse à mãe que não podia almoçar, tinha exames aquele dia; riu-se jurando que nem tinha fome, estava nervosa por causa daquelas crianças, precisava ir mais cedo. Quando saiu, viu de longe o pai e Alec passeando entre duas alas de parreiras. Sentiu angústia: “Talvez nunca mais o veja”. Desceu os degraus, abriu o portãozinho e saiu; as meninas a esperavam a certa distância; caminhava cegamente, sem saber por onde andava e o que respondia para as meninas. Dirigiu-se à classe sem poder pensar em coisa alguma a não ser Alec; sentia um peso nos olhos, no coração. Via-o a todo instante, falando e rindo; via-lhe os traços todos; tinha vontade de acariciar-lhe o rosto, passar-lhe as mãos pelos cabelos, ouvir-lhe a voz, sentir sua presença, tê-lo perto dela. Que sofrimento! “Dai-me paz ao coração.” Uma hora antes de terminar a aula, uma menina veio dizer-lhe que um moço estava na porta e queria falar com ela. Sentiu-se desfalecer de emoção. Seria? Não, não podia ser, devia ser outra pessoa, ele não. Era Alec. - Você não pode sair um pouco mais cedo, Dora? Vamos passear por aí… O coração queria saltar-lhe do peito; nem podia falar, sufocava. - Penso que não fica bem, falta uma hora só. - Como não? Sabe, seu pai mandou chamá-la, penso que precisa ir. - Ele mandou mesmo me chamar? Pelos olhos brilhantes de Alec passou uma chama de malícia. - Mandou sim. Dispersou a classe dizendo que tivera um chamado de casa; ele fora esperá-la num recanto do jardim. Ela ficou um instante só na sala, as duas mãos sobre o coração como a querer conter-lhe as pulsações. Era demais. “Ah! Meu Deus, creio que ele gosta de mim.” Teve vontade de correr para chegar mais depressa; viu Alec esperando-a e estendendo as duas mãos para ela; teve ímpetos de atirar-se nos braços dele e apertá-lo durante muito tempo de encontro ao peito. Sentaram-se no banco, um ao lado do outro. - Você fugiu hoje de mim, Dora. Por quê? Ela riu-se, inclinando a cabeça para trás. - Eu? Que idéia. Por que fugir de você? Não somos primos? - Somos, disse ele, segurando-lhe a mão. Ela protestou: - Oh! Isso não… Ele continuou a apertar-lhe a mão. - Por favor, Alec, passa tanta gente por aqui… - Mas agora não está passando. Está? Ficaram silenciosos, olhando a tarde que caía; Dora sentia uma paz deliciosa na alma, no corpo, nunca fora tão feliz. De repente, lembrou-se de que Alec era um Rodríguez, que Alec iria embora daquela cidade e nunca mais daria notícias, que Alec era filho de tia Elisinha, a mulher orgulhosa que ela odiava. Que Alec era rico… Levantou-se num ímpeto: - Vamos para casa, é muito tarde. Ele ficou de pé, à frente dela: - Não, vamos ficar mais um pouco. - Preciso ir para casa, já é tarde. - Vamos andar mais um pouco, por favor. Contornaram a igreja e entraram de novo no jardim; uma ou outra pessoa passava. Ficaram parados perto de um caramanchão e, de súbito, Alec abraçou-a: - Dora! Ela ficou quase sem poder respirar; deixou-se abraçar, ansiara ardentemente por aquele instante, desejara-o com alma, corpo, coração. - Não, Alec, não faça assim… por favor… - O quê? - Eu disse para não me abraçar assim, não somos casados. Ele apertou-a mais: - Dora, sabe que eu quero muito você? Muito mesmo? Puxou-a para si e a cabeça de Dora inclinou-se-lhe no ombro; ficou imóvel, os olhos fechados. Sentia a respiração dele no seu rosto, sentia o bater do coração de Alec contra seu peito. Ele beijou-a na face, de leve. - Meu amor! “Oh! Alec, como te adoro. Eu te adorei sempre, desde que ouvi teu nome pela primeira vez.” Sentiu-se desfalecer. O crepúsculo havia caído quando entraram na chácara, completamente embriagados, tontos pela revelação daquele amor que, para eles, significava o universo. capítulo 4 DURANTE meses, Dora viveu num sonho; era como se um esplendor brilhasse dentro dela. A luz daquele amor empanava tudo, para ela só havia Alec e Alec era o mundo. Não contou nem à mãe que estavam noivos; guardou o segredo avaramente. Mantiveram uma correspondência assídua; a cozinheira levava e trazia cartas. Dora compunha poemas de saudade e de carinho nas cartas ao noivo. Quatro meses depois chegaram notícias da avó: “Há qualquer coisa em casa dos Rodríguez que não posso compreender. Elisinha anda triste, muito aborrecida, mas não me conta o que é; soubemos por fora que é por causa de Alec; parece que ele quer se casar contra vontade dela, ela se opõe terminantemente. Outros dizem que é por causa das fazendas que ele andou querendo comprar e o pai não consentiu. Ela que se gabou sempre de ser tão feliz, está sentindo agora um empecilho à felicidade. Não sei em que dará isso, Elisinha sempre foi autoritária com os filhos; vencerá desta vez? Ele também é teimoso. Não souberam de nada?” Dora ouviu os pais comentarem a carta; foi para o quarto e chorou; passou a noite em prantos, desesperada. Sabia que tia Elisinha era orgulhosa e não permitiria o casamento deles. Como acreditara que pudesse realizar seu belo sonho? Oh! Alec! E Dora começou a definhar. Não viu mais o brilho do sol, nem as flores do jardim, nem os frutos maduros caírem sobre as folhas secas do pomar; só sentia a saudade a corroer-lhe o coração. Ficava sentada perto da janela, quieta, sem ver ninguém. Pensava. A aridez do seu coração de menina feia e pobre havia desaparecido; sentia seu peito intumescido de amor, era como a planta que recebe os raios quentes do sol e sente-os em seu âmago, a dar-lhe vida e calor. A timidez da criança incompreendida havia se transformado à doçura do primeiro amor; aquela ânsia de domínio que sentira durante toda a vida e nunca dera aos pais, a um irmão, a uma amiga, dera-o inteiramente ao noivo. E tudo fora tomado e espezinhado; Alec a abandonara, não a queria. Bem tivera o pressentimento, mas não quisera ver a verdade, quisera apenas ser feliz. Vinha a noite e vinha o dia, e outras noites e mais outras; as flores murchavam, nasciam outras; os pássaros criavam asas e abandonavam os ninhos; o vento frio da tarde passava embalando os galhos da espirradeira que ele gostara; o sol brilhava sobre a terra, a chuva caía sobre os telhados e encharcava o chão e as plantas; os frutos amadureciam e caíam; Dora sofria. Chegava novamente a primavera com madrugadas radiosas; no céu havia tons vermelhos, rosa, azuis e brancos como se pintores fantásticos brincassem de dar pinceladas da direita para a esquerda, da esquerda para a direita. E o dia surgia cheio de cores. Os crepúsculos eram arroxeados; vinham vindo lentamente, muito mansos, a surpreender pessoas e coisas. A pequena chácara se recolhia muito silenciosamente como uma velhinha que se pusesse de joelhos, a rezar. Pássaros sumiam nas frondes das árvores e quietinhos, as cabeças escondidas entre as asas, pareciam medrosos da sombra escura da noite. O verão escaldava. Botões de rosas desabrochavam, pássaros e borboletas passavam aos pares diante da janela, o ar era perfumado, a brisa suave, o sol aquecia a terra. Do chão vinha um bafo quente e úmido. Havia noites estreladas e brilhantes; outras escuras e tristes. Por que as horas passavam devagar? Só os vaga-lumes e os grilos davam sinal de vida naquela escuridão, tudo mais estava morto, parecia morto. Era como se a morte descesse sobre a terra, imobilizando criaturas e plantas. Mas de repente vinham trovões e raios; a ventania passava vergando os galhos pesados, sacudindo as janelas, espalhando as pétalas das rosas; encolhida lá dentro, Dora evocava os passeios que fizera com ele, de suas palavras, da sensação experimentada quando a beijara na face, do abraço apertado junto o caramanchão do jardim. Dora sofria. As cartas do noivo foram rareando; chegavam agora de dois em dois meses e não diziam quase nada; eram mais curtas, menos comprometedoras. Mas eram ainda um bálsamo e somente elas animavam o coração de Dora. Levaram-na aos médicos; o pai pediu-lhe que deixasse a escola. Ela não quis. Que faria depois? Não queria pensar nesse depois, era como o naufrágio de toda sua vida, sentia-se afundar num abismo infinito de torturas. Tinha febre todas as tardes ao voltar das aulas. Veio o suave outono. Tudo foi empalidecendo; as tardes quietas morriam no silêncio da chácara. As árvores ficavam quase nuas, as flores murchavam; somente a espirradeira ainda ostentava cores claras no meio daquele deserto amarelado. Dora sofria. Continuava a ir à escola, ouvindo frases banais das meninas que a acompanhavam. O inverno foi triste; o vento gelado matou tudo aquele ano; a chácara parecia abandonada. A geada caiu durante uma noite inteira e no dia seguinte os pássaros haviam fugido para lugares mais alegres; somente um deles, ainda muito novo, caíra morto no meio do jardim, o biquinho aberto, os olhos vidrados, coberto de geada. As flores morreram, as plantas secaram, queimadas pelo frio. Dora tremia pensando no noivo; ficou ainda mais magra, mais triste, mais desamparada. Veio novamente a primavera e as flores da espirradeira bateram na janela do seu quartinho; apareceram novos pássaros e os sabiás cantaram nos crepúsculos claros. Dora definhava. Quando o verão voltou com tempestades e aguaceiros e todo o jardim ficou alagado, resolveu escrever e terminar tudo com Alec. “Que ele não pensasse que ela estava sofrendo ou não pensara bem nesta última carta, mas soubera que tia Elisinha era contra o casamento e se tia Elisinha não queria, ela também não queria. Poderia casar-se com ele e ser odiada pela família? Havia de se amoldar, era forte. Não se esqueceria dos dias que haviam passado juntos, seriam inesquecíveis.” Um mês depois, o pai recebeu uma carta de Alexandre Paulo Vidal de Rodríguez pedindo Dora em casamento. Os pais chamaram-na e mostraram-lhe a carta; ela ficou impassível. Só então compreenderam qual era o mal que minava a saúde da filha; o silêncio a traiu. Na solidão do seu quartinho ela chorou, a cabeça enterrada nos braços; era tarde, Alec chegara tarde. Sofrerá tanto e tão desesperadamente que nada a curaria agora. O mal que ele fizera se aprofundara demasiado e as raízes eram muito densas. Esquecia-se que, nessa idade, todas as dores são curáveis e todas as feridas deixam de sangrar; se o coração conserva algum resquício de dor, só o revela mais tarde. Quando o pai respondeu a carta, aceitando o casamento, ela começou a rir, tendo nos olhos um brilho mais intenso. Quando o noivo chegou e apertou-a nos braços, quase desfaleceu; começou a chorar. - Meu Deus, Dora, que você tem? - Não sei, parece que sou feliz demais… O casamento se realizaria na intimidade, em casa da avó em São Paulo; ela deixou a escola e, em companhia da mãe, seguiu viagem. O enxoval seria modesto, mas Alec dissera que não se importasse, ele lhe daria tudo. Levou-a dois dias depois para visitar os pais; Dora entrou na casa da Rua Maranhão, a cabeça erguida, um ar levemente arrogante. Lembrava-se da primeira vez que entrara naquela casa, humilhada e infeliz. Tia Elisinha tratou-a bem e procurou desculpar-lhe a maneira altiva, era muito jovem; mas sentiu que teria em Dora uma inimiga, a nora nunca a perdoaria. Os Rodríguez estavam muito apreensivos com a moléstia de tio Paulo; diziam em voz baixa que os charutos incessantes tinham-lhe feito uma ferida na língua, uma ferida incurável. Ele vivia deitado no sofá do quarto de vestir e ali os parentes se reuniam para conversar. Alec explicou a Dora que, devido à moléstia do pai, fora adiando o pedido de casamento na esperança de que ele melhorasse; agora os médicos haviam dito que não havia cura, a família concordara em apressar o casamento. Procurou desculpar a mãe, não fora por causa de tia Elisinha, ela nunca se interpunha nos casamentos dos filhos; fora devido apenas à moléstia de tio Paulo. Coitado! Estava bem mal. Dora fingiu acreditar e quando entrou no quarto de vestir, onde a família se reunira e tia Elisinha foi ao seu encontro para abraçá-la, correspondeu ao abraço, embora friamente. Em seu pensamento, perpassou tudo o que a avó contara a respeito dos casamentos dos Rodríguez; tia Elisinha queria para “meu Alec” uma noiva brilhante e rica. Esse filho era o mais bonito, o mais inteligente, o mais carinhoso, merecia uma princesa; percebeu que no íntimo a tia não compreendia a escolha do filho, justamente a prima feia e pobre, a prima do interior, insignificante, tolinha. Dora sentou-se ao lado do noivo e perguntou pela saúde de tio Paulo; procurava não fixar a tia; respondeu às perguntas das cunhadas com cerimônia e quando a tia ofereceu-lhe uma xícara de chá, agradeceu, mas não aceitou. D. Fernando e D. Isidro, que estavam em visita, reencetaram a conversa interrompida com a chegada dos noivos; tio Paulo fazia sinais com a cabeça, aprovando ou desaprovando o que ouvia. Pouco falava. O quarto estava quase às escuras e a claridade entrava apenas por uma janela meio cerrada. - O gótico acompanhou os cristãos em todas as províncias, em todas as cidades, disse D. Fernando, estendendo os dedos longos para segurar a xícara de chá. - Sim, disse D. Isidro. Os cristãos iam avançando de conquista em conquista enquanto os mouros fugiam; mas o mourisco árabe ficou na Espanha, assim como o gótico. Entraram juntos e ficaram. Essa arquitetura desenvolveu-se também entre os muçulmanos, mas o que eu quero dizer é que na Itália o gótico não entrou definitivamente. - Como não? respondeu D. Fernando. E a Catedral de Milão? Não é em puro estilo gótico? - Há isoladamente um ou outro caso. Houve o período gótico na Europa ocidental, ninguém ignora, mas na Itália dessa época só havia conflitos de estilo. É isso, conflitos de estilo. Onde o gótico penetrou fundo foi na Espanha… Veja a Catedral de Sevilha, é puramente gótica. Tio Paulo confirmou com a cabeça e os três irmãos se entreolharam. Jane, que oferecia pedaços de bolo em pratinhos de porcelana chinesa e garfinhos de ouro, voltou-se: - Não me lembro da Catedral de Sevilha; quero dizer, lembro-me da Catedral, mas não me lembro do estilo. Dora não quer bolo? D. Fernando sorriu, complacente: - Puramente gótica. Fica próxima ao palácio mourisco do Alcazar. É tão sublime! - Um pedaço de bolo, tio Isidro? - Aceito. A Igreja de S. Marcos é em estilo bizantino, a de Milão é gótica. Temos a Igreja de Amalfi que é uma mistura de normando, sarraceno e até romano, disse D. Isidro comendo o bolo. - Perdão, respondeu D. Fernando. A Catedral de Amalfi é romana, estilo romano. D. Isidro quase engasgou na pressa de responder: - Não, não. Está enganado. É uma mescla de normando, romano e sarraceno, estive lá. - Eu também estive, mas você está enganado. Deve estar se referindo a alguma outra igreja. - Tenho certeza que é a de Amalfi, devo ter fotografia em casa. Ambos olharam tio Paulo, como a pedir opinião; ele murmurou algumas palavras que só tia Elisinha, que estava ao lado, entendeu. - Ele disse que não se lembra, não tem certeza. Os dois irmãos continuaram a discussão por mais alguns minutos, em voz baixa para não perturbar o doente. Alec ouvia com atenção; Dora, erecta na cadeira ao lado do noivo, quase não falava e nem compreendia o que ouvia; sentia-se torturada por estar naquele meio que não era, o seu. Como iria viver com os Rodríguez? Seria quase impossível. A outra cunhada, Clotilde, ofereceu mais chá e serviu biscoitos. - Não quer, Dora? São de maisena, não são, mamãe? Dora não aceitou. No íntimo, detestava aquela gente toda. Sabia que não a queriam na família; mesmo que ninguém dissesse, tinha intuição da verdade e agora, fingidos, a falar com ela, a oferecer-lhe chá. Todos eram fingidos, hipócritas. Quem não sabia que os Rodríguez eram hipócritas? De repente D. Fernando perguntou, olhando D. Isidro de frente: - E qual o estilo da torre inclinada de Pisa? Pode me dizer? D. Isidro hesitou; D. Fernando sorriu, sarcástico e com os dedos compridos e peludos, acariciou a xícara. - Deve ser de estilo romano, não tenho muita certeza. Sei que é do século treze ou quatorze. D. Fernando riu-se francamente; tirou um biscoito do prato que a sobrinha apresentava e levou-o à boca. Ainda continuaram a discutir por alguns instantes e D. Isidro terminou dizendo que nesse assunto não era muito entendido. O irmão estava mais a par porque era do gosto dele: arquitetura e pintura. Mas viessem perguntar-lhe de religião e assuntos concernentes a ela, ele diria tudo, era seu estudo predileto. Percebia-se que ultimamente os dois irmãos discutiam por qualquer motivo menos banal. A causa era o dinheiro; D. Fernando jogava, D. Isidro economizava. Um temia o outro. Clotilde e Jane procuravam conversar com Dora; faziam perguntas que Dora respondia timidamente. D. Fernando observava com atenção a futura sobrinha: esse primeiro exame não o satisfez. “Que? Por causa desta insignificante menina Alexandre lutara com a família?” Disfarçadamente, enquanto discutia com o irmão, seu olhar crítico percorreu o corpo franzino de Dora; era um olhar entendido, um exame de quem pesava e media. D. Isidro procurou informar-se a respeito dos remédios que o irmão tomava, a melhora manifestada nos últimos dias, as visitas que o médico fazia. Quando soube que o médico vinha muitas vezes à noite também, calculou mentalmente as despesas causadas pela moléstia prolongada do irmão. Regozijou-se por gozar boa saúde e com as pontas dos dedos apalpou as contas grossas do rosário que trazia sempre no bolso. Tio Paulo queixou-se de dores e todos resolveram abandonar o quarto; os noivos foram os primeiros a sair. Tia Elisinha suspirou; via-se que não se conformava com a escolha de “meu Alec”. D. Isidro disse que o principal era a futura sobrinha ter religião, o mais não importava. Coçou a barba grisalha: - Sendo religiosa, será boa esposa. Será temente a Deus e obediente ao marido. É preciso que seja religiosa, o mais não importa. Tia Elisinha respondeu: - Ela é religiosa, toda a família é. Mas acho Dora orgulhosa; além de tudo, preferia uma nora bonita… D. Fernando alisou os bigodes: - Não sei se é orgulhosa, mas não é de todo feia. Examinando-se bem, não é feia. Tem qualidades. Bonitas pernas, corpo bem feito, talvez um tanto franzina, um tanto acanhadinha, mas com o tempo endireita. Alexandre vai transformá-la por completo e não me admirarei se daqui a algum tempo ficar uma bela mulher. ’ Seu olhar de velho atrevido teve um brilho desusado; todos riram e tio Paulo tentou sorrir, depois gemeu de leve, sentindo dor. Na volta para casa da avó, ao perceber que Alec ainda procurava isentar tia Elisinha de culpa, Dora disse que não aceitava subterfúgios, sabia a verdade e preferia não comentar. Tio Paulo piorou depois desse dia. Resolveram efetuar a cerimônia do casamento na maior intimidade. Casaram-se uma manhã, em casa da avó; depois de casados, foram pedir a bênção ao tio Paulo. Tia Elisinha estava inconsolável; Dora procurou interpretar o pranto da tia; achou que ela chorava mais pelo casamento do filho do que pela moléstia e pelo sofrimento do marido. Seguiram no mesmo dia para o Rio de Janeiro. Nessa data que devia marcar para Dora uma era de felicidade, sem rancores, ela levou consigo a aversão pelos Rodríguez, menos por tio Paulo que estava agonizante e por Alec que era agora seu marido. O casamento constituiu um deslumbramento para Dora; conheceu o amor e a riqueza ao mesmo tempo. A primeira vez que Alec apertou-a contra o peito e ela pode dar vasão àquele anseio de amor que a consumia, sentiu-se feliz. Os beijos ardentes do marido eram bálsamos para todos seus sofrimentos passados, mas ela correspondia a esse amor sem deixar de lembrar os dias amargos em que ele quase a esquecera. Mais de dois anos ficara abandonada e quando se lembrava disso, amava Alec com mais ardor como se temesse que a esquecesse de novo. Achava que se Alec a procurara novamente, fora porque Deus assim o quisera; então rezava todos os dias com fervor. Não podia, porém, discernir o passado e o presente; confundiam-se em seu cérebro os dias amargos que passara e a ventura que agora sentia ao lado do marido, por isso não podia ser plenamente feliz. Dias depois, Alec pôs-lhe nas mãos cinco notas de conto de réis; Dora atirou-se-lhe nos braços: - Meu bem, que farei com tudo isto? - O que quiser, disse ele. É seu. Foram para a cidade e Dora escolheu vestidos, chapéus, roupa branca. Lembrou-se de fazer uma surpresa e mandar um conto de réis aos pais; aquela soma representaria um pouco de alegria no lar pobre da cidade do interior; não mandou porque esqueceu. Começou a comprar cegamente tudo que via; o marido deu-lhe mais dinheiro, gostava de vê-la assim, atarantada, como uma criança que entra numa loja de brinquedos e fica surpreendida, encantada, sem saber que escolher. O rosto magro foi-se arredondando e as cores saudáveis foram voltando às faces de Dora; os olhos adquiriram um brilho extraordinário; bastava vê-la para compreender que ela estava sentindo pela primeira vez a força da vida. Dia a dia, aquele ar tímido de menina assustada foi desaparecendo, substituído por uma grande confiança e paz interior. Só em lembrar que não sofreria mais saudades de Alec porque ele estava ali ao alcance de sua mão, e que lhe pertencia, e que partilhava da riqueza dele, e que assinava o nome de Rodríguez, o nome que fora para ela, a vida toda, uma espécie de torre de marfim inacessível, e que não era mais pobre e não viveria mais na cidade do interior, e que não sofreria necessidades e humilhações, tudo isso dava-lhe uma tão grande força que Dora, sem o saber, transformava-se inteiramente. Quando se sentava ao lado do marido e ouvia-lhe as palavras carinhosas, era como se qualquer coisa dentro dela, transbordasse; daquela alma árida e seca de menina infeliz, pouco restava; apertava a cabeça de Alec contra o peito, acariciava-lhe os cabelos, beijava-o repetidas vezes: “Meu marido, meu marido…” como se temesse que aquilo fosse um sonho e se desvanecesse. Entregava-se a ele num arrebatamento de paixão, como se o fizesse pela última vez; parecia querer recompensá-lo por tudo que ele lhe dava: amor, nome, dinheiro. Viveram dias de paixão intensa; esqueceram-se de dar notícias, esqueceram-se da moléstia do pai; só quando chegou notícia da morte de tio Paulo voltaram a si, um pouco desorientados. Seguiram para S. Paulo no mesmo dia e só então Alec Rodríguez compreendeu a responsabilidade que lhe cabia dessa data em diante; como filho mais velho, herdara o nome, a fortuna e a grande indústria do pai. Nem mesmo no dia do enterro, quando tia Elisinha soluçava ao lado do marido morto, Dora se comoveu; seu ressentimento era tão grande que nele não cabiam lágrimas. Olhou a tia quase com desprezo. Sentia-se orgulhosa e, para ela, seu orgulho tinha razão de ser. Era uma Rodríguez. Dora Laura Vidal de Rodríguez! Começou a assinar esse nome com arrogância; esse “de Rodríguez” representava nobreza, já não era igual aos outros. Alec comprara uma casa perto da casa dos pais e mandara mobiliar luxuosamente; lá se instalaram depois do enterro. Começou uma nova vida para Dora; ficou conhecendo inúmeras pessoas, recebeu e fez visitas em companhia do marido, surpreendeu-se por ser acatada e recebida com fidalguia pela sociedade; esquecia-se às vezes de que o era mais pela fortuna e pelo nome do marido do que por sua própria pessoa. Um ano após a morte do sogro, deu o primeiro jantar; foi quase um acontecimento. Mandou descer as pratas e as mais finas porcelanas que herdara de tio Paulo, ela mesma elaborou o programa da reunião, e quando se viu de pé, recebendo os convidados à porta do salão, percebeu que gostava daquela vida, de aparecer na sociedade, mas para ser a primeira em tudo. Se tivesse que ficar em segundo plano, sentir-se-ia infeliz e preferia esconder-se. Veio à tona o orgulho desmedido de Dora; a avó e os pais ficaram admirados: - Nunca percebi que Dora gostasse tanto de vestidos e jóias; ela não era assim. - E eu nunca pensei que ela gostasse de freqüentar a sociedade, disse a mãe. Lembra-se de quando era solteira? Não gostava de nada, preferia viver afastada. - As pessoas mudam muito às vezes. Tenho a impressão de que Dora vive deslumbrada com tudo o que tem. - Nem tanto assim. Ela é inteligente e não se deslumbra tão facilmente. E Dora vivia numa espécie de perpétuo encantamento; na vida artificial em que viveu durante meses, pairando acima das coisas vulgares, chegou quase a esquecer os pais; de vez em quando lembrava-se deles e pensava: “Amanhã sem falta, escreverei e mandarei algum dinheiro. Coitados!” Mas chegavam outros convites, apareciam outras novidades e ela tornava a esquecer. Tratava a sogra com desconfiança, quase com frieza: achava que tia Elisinha não a perdoava por haver desposado Alec. E por sua vez, mal a suportava. Veio depois a época de gravidez, teve primeiro uma menina e um ano depois, um menino: Lilian e Alexandre. Ficou desgostosa quando se viu presa em casa amamentando os filhos, não nascera para aquilo. Desde o nascimento de Lilian, mandara vir uma governante suíça para ficar com a criança. Nunca achara a riqueza tão vantajosa quanto naquela época de sua vida; enquanto outras mulheres, como as esposas dos irmãos, que não eram ricos, passavam mal as noites com os filhos pequenos, ela dormia perfeitamente, sabendo as crianças no quarto da governante. Quando Alec disse que precisava ir à Europa comprar material para as fábricas ela disse que o acompanharia; a mãe escreveu do interior oferecendo-se para ficar com os netos, ela respondeu não ser necessário, tinha absoluta confiança na governante. Alec era fraco nas mãos da esposa; fazia-lhe as vontades e aprovava-lhe os caprichos. Partiram deixando os filhos que tinham então dois e três anos; tia Elisinha reprovou-a em silêncio, as cunhadas também. Dora dissera que voltaria logo, seria uma viagem rápida, mas ficaram viajando durante quase oito meses e, ao regressarem, os filhos não os conheceram; passaram dias, antes que as crianças voltassem a seus braços. Tia Elisinha, que fora mãe extremosa e nunca pudera separar-se dos filhos pequenos, não compreendia a nora. Aos quatro anos de casada, Dora transformara-se, moral e fisicamente. Tornara-se bela, não de traços, mas de expressão, de felicidade contínua, perfeita. A pele do rosto adquirira um brilho de cetim, o corpo se arredondara; era magra sim, mas há muito não existia o corpo chato de ombros estreitos. Tornara-se elegante e desembaraçada no modo de andar, de atravessar um salão. Seu espírito também parecia desabrochar, expandir-se. E bastava observá-la para se notar a sensualidade que emanava dela, da curva da boca, dos olhos grandes e parados. Era muito materialista e demonstrava-o em todos seus atos; seguia os negócios das fábricas do marido quase com avidez. Quando via grandes lucros chegarem às mãos de Alec, exultava. Pensava logo em como gastar esses lucros, mas nunca se lembrava de auxiliar os parentes pobres. Dizia: “Se eu mandar dinheiro para mamãe, ela é capaz de dar tudo aos pobres ou à igreja; prefiro mandar um corte de vestido”. Todos os anos, por ocasião do aniversário da mãe e do pai, mandava um xale ou uns metros de fazenda para uma roupa. Somente uma vez, quando a mãe veio a S. Paulo consultar um médico, Dora deu-lhe duzentos mil-réis; a mãe ficou virando a nota na mão, admirada com tanta generosidade. Tornava-se avara; mas achava que tudo quanto gastasse consigo ainda era pouco. Lembrava-se do seu tempo de menina pobre; colocava Alec em primeiro lugar em seu coração por tê-la arrancado da miséria; mesmo os filhos ficavam em segundo plano. Tia Elisinha foi a primeira a notar a avareza da nora; era tão visível que a tia chegou a lamentar os pais e a avó de Dora, pois sabia que ela não os auxiliava e um pouquinho que desse era muito para a pobreza deles. E era egoísta também. Tudo para ela, o marido e os filhos, nada para os outros. Recolhia-se como numa torre e deixava que o mundo se debatesse aos seus pés. Quando uma criança do ramo pobre da família fazia anos, era Dora quem dava o presente mais insignificante; costumava dizer que não se deve habituar uma criança pobre com brinquedos ricos. Para os sobrinhos que nasciam ou para os aniversários em que era convidada, aparecia com uma ninharia que, quem recebia, quase não acreditava. Os parentes mais afastados que não conheciam esse traço do caráter de Dora, quando a convidavam para um casamento e esperavam um presente digno da riqueza dos Rodríguez, recebiam uma cesta de flores das mais comuns. Ficavam atônitos. Mas era pródiga para com os ricos; se a convidavam para um aniversário ou casamento em casa rica, dava os presentes de mais alto preço. Em sua casa, recebia fidalgamente. Apesar de muito moça ainda, era fria em seus cálculos; entre todas as amizades da família Rodríguez, começou a separar mentalmente aquelas cuja amizade convinha cultivar. Riu-se um dia, sozinha, ao perceber que colocara ao lado da amizade, os ricos e poderosos; do lado oposto, os pobres e insignificantes. Aos poucos conseguiu realizar seus planos. Começou a desprezar os próprios tios do marido quando viu que eles haviam perdido o prestígio na sociedade e a fortuna. Quando soube que D. Fernando estava pobre, usou de astúcia para não recebê-lo em casa, temendo que viesse pedir dinheiro. Chamava-o de “velho gaiteiro”, ridicularizava-o mesmo diante dos filhos. Tolerava D. Isidro, mas também não o estimava. Achava-o egoísta e avarento; criticava abertamente os hábitos de avareza do tio e sempre que podia, evitava-o. Dizia: “Desse nada se espera”. Sabia que ele, morrendo, pouco deixaria aos sobrinhos; considerava isso uma afronta, pois não tendo filhos, tinha obrigação de deixar uma grande fortuna aos parentes. Quando sabia que ele dava dinheiro à igreja, revoltava-se. Ria-se dele: “esse beateiro que vive batendo no peito”. Não procurou mais os velhos Rodríguez, mas quando os encontrava, por acaso, em casa de algum parente, estendia as duas mãos e cumprimentava-os amavelmente perguntando porque não a visitavam quase; “Alec sempre pergunta pelo senhor”. Cultivava a amizade de prima Justina porque esperava herdar o colar de pérolas; cobiçava ardentemente a jóia magnífica. Sempre que podia, elogiava o colar; prima Justina nada dizia, apenas sorria e apalpava as contas com seus grossos dedos. Parece que aos poucos, sem deixar perceber, numa atitude mesquinha, começou a vingar-se de todos os parentes de Alec, daqueles que não haviam aprovado seu casamento, que apenas a haviam aceitado por ser esposa do sobrinho. Era uma vingança lenta, mas certa, infalível. Gostava de vingar-se das pequeninas coisas e, mesmo que isso acontecesse anos depois, sentia-se feliz por ter podido devolver a ofensa, por pequena que fosse. Extremamente vingativa. Suas cunhadas, Jane e Clotilde, compreenderam desde o princípio que Dora não seria amiga; aos poucos ficou demonstrado que haviam acertado. Assim conseguiu afastar de Alec alguns amigos de infância que o marido apreciava muito; para ela não serviam. No íntimo, julgava tais amizades perniciosas; um dia, talvez recorressem ao dinheiro do marido e ele não poderia negar. Seria tão desagradável. Alec estranhou a princípio e falou; ela sorriu com brandura: “Ah! Na próxima semana vou convidá-los para jantar. Eles não têm aparecido, mas na próxima semana virão. Como fomos esquecer assim?” O marido era um homem ocupado e essa parte social pertencia-lhe; o tempo foi passando e os amigos de Alec ficaram relegados ao esquecimento. Dora tinha um fraco por todas as pessoas importantes e ricas; ao saber que viria a S. Paulo um descendente da velha aristocracia européia, seu coração batia, apressado e dirigia-se ao marido: “Alec, precisamos organizar uma recepção ou jantar, não podemos deixar de recebê-lo; afinal, pertence a uma das mais antigas famílias da Europa… Até fico excitada… Um conde autêntico!” O marido concordava sempre e ela procurava deslumbrar o hóspede com toda sua riqueza, já que não podia oferecer-lhe outra coisa. Ficava nervosa; chamava o mordomo e dava ordens desencontradas, inquiria de tudo que estava se passando na cozinha, queria que tudo fosse servido de maneira impecável. Dias depois ainda comentava a reunião como se lembrasse de um bonito sonho. Em toda sua roupa branca, louças, talheres, mandou gravar as iniciais: D. de R. Sofria por não poder acrescentar uma coroa as iniciais. Depois de alguns anos, no auge da sua carreira social, ficou novamente grávida; sentiu-se desesperar, disse ao marido que não queria mais filhos, era a morte, a desgraça. Chorava e se maldizia, preferia morrer. O marido levou-a para a fazenda que comprara anos antes e onde ela nunca quisera ir. “Não gosto de vida parada, parece que a gente não vive, vegeta”. Ele se atreveu a perguntar-lhe, urna vez: “Você não disse que gostava do sossego das cidades do interior?” “Eu disse isso? Então não sei onde tinha a cabeça, detesto fazendas e cidadezinhas”. Quando foi aproximando a época do nascimento da criança, voltaram para S. Paulo. Dessa vez ela teve uma menina a quem puseram o nome de Dora, mas desde o princípio chamaram-na Dorita. O pai de Dora ficou gravemente enfermo e precisou fazer um tratamento em S. Paulo; ela perguntou ao marido: - Que faremos? Sei que papai precisa tratar-se. Para convidá-lo para nossa casa, vai desalojar completamente as crianças e não quero.Vamos ver um hotel para eles ficarem? O marido fitou-a: - Não será preciso um hospital? - Creio que não; mamãe escreveu que vão para um hotel modesto; querem consultar alguns médicos. Que podemos fazer? - Traze-los para nossa casa; creio que você nunca convidou seus pais para ficarem conosco algum tempo. Ela impacientou-se: - Não temos as crianças? Se eles viessem, não teríamos onde alojá-los. .. O marido ficou impaciente por sua vez: - Não diga isso, a casa é grande e dá para todos; escreva hoje mesmo convidando-os para ficarem conosco. - E as crianças? - Vão para o quarto dos fundos e a sala dos brinquedos fica para eles. - Mas o quarto dos fundos é tão pequeno, os pequenos vão sentir. - Serve perfeitamente e as crianças até vão gostar da novidade. Os pais vieram do interior. Dora os esperava com o quarto preparado, flores nas jarras; quando viu o abatimento do pai, teve pena, um raio de luz passou-lhe pelo coração. Foi carinhosa nos primeiros dias. “Coitados Tão pobres, preciso dar algum dinheiro de vez em quando, também minha vida é tão ocupada. Desta vez vou ajudá-los mais”. Mas foi um raio que passou. Aborreceu-se logo. O pai dava trabalho; vinha um médico, vinha outro, era preciso dieta na alimentação, as criadas começaram a se queixar. A moléstia modificou os hábitos da casa; os pais sentiam-se acanhados e constrangidos no meio daquele luxo, o que mais irritou Dora. Queria que eles se sentissem à vontade, não mostrassem aquele ar tímido diante dos médicos, de Alec, até dos criados, pareciam estar sempre pedindo desculpas por se encontrarem ali, perturbando todos, alterando a vida elegante da filha. Por qualquer favor que recebiam diziam: “Obrigado, muito obrigado”. Ou então: “Não se incomodem, por favor”, com humildade. A mãe tinha vestidos velhos e sem gosto; se vinha uma visita, ficava desnorteada, sem saber que fazer entre tantos criados; na mesa, servia-se tão desajeitadamente que Dora foi se irritando cada vez mais. Percebeu então que não amava os pais, suportava-os apenas; tinha dó deles, um dó confundido com impaciência e raiva. No íntimo, não os perdoava por haverem-na educado tão modestamente, quase humildemente; culpava o pai por ter perdido a fortuna; não fora ele, não teria passado o que passara; humilhações, desgostos. Se tivesse perdido Alec, teria sido por culpa deles, daquela miséria de cidade do interior; lembrava-se do primeiro jantar de Alec em sua casa, quando o pai oferecera vinho de laranja feito na chácara. Corava sempre ao recordar essas coisas. Tornou-se impaciente, aborrecida, respondendo com pouca vontade às perguntas que lhe faziam. No dia em que soube que os pais haviam determinado a viagem de volta, ficou aliviada; o movimento da casa se normalizaria e ela reiniciaria a vida social de que tanto gostava. Quando se despediu dos pais, teve novamente um impulso de compaixão; achou-os velhos, alquebrados; pareciam envergonhados por serem tão pobres. Lembrou-se da casinha da chácara na qual viviam sozinhos, meio abandonados; teve vontade de convidá-los para ficar em S. Paulo, arranjaria um lar para eles; esqueceu-se logo da idéia. Deu-lhes uma nota de quinhentos mil-réis e eles ficaram comovidos; abraçaram a filha balbuciando palavras de agradecimento e desculpas. Ela os viu partir e procurou esquecer depressa a temporada desagradável que haviam passado na casa. Naquela época, desconfiou que estava novamente grávida; passou a noite toda acordada e de manhã, disse ao marido desesperada: - Se for mesmo, morro desta vez. Não suportarei mais. Isto é vida? Quatro filhos, Alec, para quem não tem muita saúde? É demais, demais, tenho certeza de que vou morrer. Torcia as mãos num grande desespero; o marido procurou acalmá-la. - Eu sei, Alec. Sei que outras mulheres têm mais filhos, eu sei, mas não sofrem como eu. Lembra-se quando tive Lilian? Quase morri aquela noite; mesmo durante a gravidez, sofri muito, tenho ódio a tudo isso, ódio… Com as mãos fechadas, dava pancadinhas no ventre e andava pelo quarto de um lado para outro. Alec lembrava-se do primeiro parto de Dora; fora penoso e demorado, mas os outros haviam sido perfeitamente normais. Mesmo os meses de espera, haviam sido felizes. Ela parou diante do marido: - Se for gravidez, farei uma loucura. Vou procurar alguém que tire isto, não quero mais filhos. - Não diga tolices, você não fará isso. - Não farei? Você há de ver, é porque não me conhece ainda. Não tenho saúde para ter tanto filho. Por que só a mim acontecem essas coisas? Veja como meu corpo está deformado; eu não era assim, tinha linhas perfeitas. Veja, pareço outra mulher. Passeava pelo quarto, encolerizada; de vez em quando batia no ventre como se assim pudesse livrar-se da gravidez. Quando teve certeza .do seu estado, fechou-se no quarto e durante alguns dias, não quis receber ninguém; quando via o marido, chorava de raiva e desespero. Alec, que já a conhecia, apareceu um dia com uma pulseira de brilhantes e rubis; Dora olhou a pulseira, enxugou as lágrimas e resignou-se. Veio um período de calma; meses depois, teve um lindo menino, Paulo. Ninguém sabe por que, amou mais esse filho do que os outros; talvez porque tivesse pensado em destruí-lo e sentisse remorsos; ninguém sabe, mas demonstrou predileção marcante por Paulo. A princípio, dizia: “É porque ele é um bebê ainda”. Depois: “Ele é mais fraco que os outros”. Não era. Levantava-se durante a noite para vê-lo, não podia ouvi-lo chorar. Exigiu uma governante só para Paulo; era seu ídolo, depois de Alec. Quando via os dois juntos, pensava: “Meus tesouros’’ Por eles, principalmente pelo filho, era capaz de algum sacrifício, apesar de todo seu egoísmo. Quando o menino fez um ano, ofereceu uma festa a todas as crianças das amigas; nunca dera festas antes, para os filhos; dizia que as crianças não compreendem o movimento, o vaivém só servia para deixá-las nervosas. Mas Paulo com um ano, era tão bonito, tão corado, tão vivo que ela se sentiu orgulhosa de ser mãe, o que não acontecera antes; e teve desejos de mostrar aquele tesouro a toda a gente. Dorita, a terceira filha, estava com dois anos e meio àquela época; foi a primeira a sentir que a mãe preferia Paulo. Era uma menina feia e triste, não gostava muito de brincar. A governante chamava, as vezes, a atenção dos pais para a tristeza de Dorita; a mãe respondia: - Ah! Eu também era assim, muito esquisita. Mamãe sempre fala que fui diferente das outras crianças; ela é igualzinha a mim. Não se incomodem, Fráulein, é questão de temperamento. Ninguém se importava com Dorita: “É temperamento”. E Dorita fenecia como uma florzinha abandonada; pouco sorria, quase não brincava. “É temperamento, ela é assim mesmo”. Só o pai a observava; mas não tinha muito tempo para isso. Quando não estava visitando as fábricas, estava oferecendo jantares e almoços às pessoas importantes da cidade. CAPÍTULO 5 DORA recebeu a notícia da morte do pai com tristeza; mas depois a imagem dele foi se esfumando. Seguiu para o interior com o marido. O trem era vagaroso e viajaram parte da noite; queixou-se durante toda a viagem do pó e do calor. Por que acontecem essas coisas? Seu conforto era tão precioso. Depois do enterro, ficou só com a mãe; o marido convidou-a para dar umas voltas pela chácara, queria rever o lugar onde se haviam amado, ela achou-o tolamente sentimental. “O passado deve sempre ser esquecido, principalmente um mau passado”. Não tinha vontade de percorrer lugar algum onde vivera antes, nem ver ninguém. Para quê? Era tão prática que só apreciava aquilo de que pudesse tirar algum proveito; quando pensava em alguma coisa ou algum fato do qual nada pudesse aproveitar, punha-o de lado no mesmo instante. Fria nas ações e nos pensamentos; fazia cálculos, pesava tudo; o que convinha e o que não convinha. Não hesitava em jogar fora o que não pesava na balança para proveito próprio ou da própria família. Voltariam naquela mesma tarde para S. Paulo; ela entrou no quarto da mãe para conversar. Encontrou-a chorando baixinho, sentada na cadeira velha, de balanço; era aquele mesmo quarto pobre que ela conhecera tanto, e que nunca fora modificado. Um tapetinho velho e sujo ao lado da cama, móveis gastos, cortina remendada na janela; teve horror àquela pobreza tão evidente. - Mamãe, eu e Alec estivemos pensando em sua situação. Não convém a senhora ficar morando aqui sozinha, então lembramos de uma coisa; a senhora deve vender tudo isto e ir de mudança para S. Paulo. A mãe levantou a cabeça branca; levou o lenço ao rosto e enxugou as lágrimas: - Seu pai tinha tanto amor a isto aqui… Fez um gesto abrangendo a janela através da qual se viam as árvores da chácara. - Mas a senhora não pode ficar aqui, é melhor ir de mudança para S. Paulo. Temos que combinar tudo hoje, embarcaremos à noite. Os olhos da mãe eram uma ansiosa interrogação. - De mudança? Dora não hesitou: - Sim. A senhora sabe que em nossa casa não há quartos de sobra, temos quatro filhos. Então lembramos que a senhora pode ficar morando com vovó e lhe daremos uma pensão para ter uma vida melhor. Que acha? A mãe que esboçara um gesto de protesto quando a filha falara em “nossa casa”, inclinou a cabeça concordando. Dora colocou a mão no ombro da mãe: - Então? Não se aflija, vai levar uma vida boa de agora em diante. A senhora gosta de S. Paulo e terá seu dinheiro para comprar o que quiser; ainda poderá dar um pouco para vovó, a senhora sabe, para não ficar pesada na casa. Vovó também não tem muito. Vai levar uma vida esplêndida, sem preocupações. Chega de trabalhar, lidar com galinhas e patos; chega de vender ovos e verduras. Acabe com tudo e vá para S. Paulo. Aliás, vovó disse isso logo que soube da morte de papai; disse que não valia a pena a senhora morar com noras, o melhor é morar com ela que combina mais. Ficam as duas independentes, levando boa vida… Em algumas horas determinaram tudo, pagaram as despesas do enterro, partiram; deixaram a mãe sentada numa cadeira da sala, com os dois filhos mais velhos a consolá-la. No caminho, Dora perguntou: - Alec, você acha que a velha vai gostar? - De quê? - De ir para S. Paulo e viver com vovó… - Por que não? Mãe e filha se dão bem. - Você sabe, eu não posso. Quem sabe ela pensou que eu ia convidá-la para ficar conosco. Não posso, tenho quatro filhos para olhar, para educar. Lá as duas ficam bem, as duas pobres velhinhas. Quando a mãe chegou do interior, Dora instalou-a em casa da avó; mandou para lá uma mobília velha que estava guardada no porão da casa, comprou algumas roupas e depois de tudo pronto, pôs trezentos mil-réis nas mãos da mãe: - Este é o dinheiro que eu e Alec vamos dar todos os meses para a senhora. O marido mandara quinhentos mil-réis; Dora achou muito, tirou duzentos. “Trezentos são suficientes, mais que suficientes, mais que suficientes. Para que a velha precisa de mais?” Todo o dinheiro que podia, guardava para si. Tirava das despesas da casa, do ordenado dos criados, dos vestidos velhos que mandava vender às escondidas, da importância que o marido dava para as associações de caridade. Não que ele não desse bastante; mas para ela era sempre pouco. Chegava a tirar dos bolsos de Alec sem que ele percebesse; economizou em pouco tempo oito contos. Comprou uma jóia; dizia para as cunhadas com olhos brilhantes, cheia de excitação: - Esta jóia é o dinheiro das minhas economias. Sempre fui econômica, não admito que nada seja esperdiçado. Vejam que conquista representa esta jóia; .consegui economizar apesar da vida dispendiosa que leva Alec. Iam todos os anos passar o inverno no Rio onde tia Elisinha tinha uma casa, em Copacabana. Dora fazia novos vestidos, comprava tudo novo; gostava do luxo, da grandeza. O marido admirava: - O quê? Um novo modelo? - Este? Não, este é do ano passado. É aquele preto, não está reconhecendo? Só mudei a gola e o cinto… E sorria com meiguice dando um leve tapinha no rosto de Alec. - É gosto de sua mulher, tenho sempre novas idéias. Tinha o guarda-roupa sempre cheio; quando as revistas da moda traziam crônicas neste estilo: “A elegante Sra. Alexandre de Rodríguez estava com uma toilette assim… assim …”, o coração de Dora intumescia de orgulho e prazer. “A elegante Dora de Rodríguez tout en noir…” Assim foi vivendo Dora Laura Vidal de Rodríguez, desejando tudo para si e não se importando com o resto do mundo, a não ser com os dois tesouros que, se pudesse, deixaria guardados em casa: o marido e o filho mais moço. A princípio, visitava a mãe e a avó todas as semanas, mas o tempo foi se encurtando para essas visitas. Tinha tanta coisa a fazer. Enquanto estava na costureira ou na massagista, mandava um empregado telefonar: “D. Dora manda dizer que vai outro dia, está muito ocupada hoje”. Aparecia sempre correndo, com pressa, olhando o relógio-pulseira: - Hoje tenho um chá marcado para as cinco. Não posso demorar muito. Dizia ter pena das duas velhinhas, mas nunca se demorava ao lado delas. A avó, já quase inválida, passava os dias sentada numa poltrona e gostava de receber visitas; a mãe saía pouco, passava o tempo tratando da doente. O dinheiro que Dora dava, não era muito, a vida encarecera e elas tinham apenas que viver. Frutas finas, iguarias caras, nem sempre entravam na casa das pobres velhinhas; e a cegueira do egoísmo de Dora era tão grande que ela não observava esses detalhes. Tinha a mania de valorizar tudo que dava. Dizia: “Com esse dinheiro que damos todos os meses a senhora pode comprar isto ou aquilo”. A mãe não respondia e só comprava o necessário. Quando ia fazer suas rápidas visitas, levava uma lata de biscoitos comprada no armazém mais próximo: falava desde a entrada: - Olhe o que eu trouxe para as duas meninas… E sorria, encantada com o próprio presente. Na semana seguinte, perguntava mais de uma vez: - Gostaram daquela bolacha? Muito boa, não acharam? São caras, mas muito boas. Nunca a provara, era para valorizar, chamar atenção sobre suas dádivas. Assim parecia que dava sempre mais, generosamente. Um dia, um dos irmãos foi pedir-lhe um empréstimo; era um negócio bom, dependia de capital. Antes que ele dissesse a quantia, o rosto de Dora contraiu-se de desgosto; temera sempre aquele momento desagradável, quase esperara aquele dia. Conhecia a luta dos irmãos mais velhos e das duas cunhadas; um deles vivia mais ou menos folgado, o outro com dificuldade e Dora procurava afastar-se da família pobre, cada vez mais. Quando o irmão explicou o negócio e citou a quantia, para pagar no prazo de dois anos, ela sentiu raiva: - Impossível. Você pensa que somos ricos? Está enganado, agora que Alec está refazendo as coisas erradas que o pai deixou. Foi uma luta; lembre-se de que temos quatro filhos para criar, educar. Ainda se Alec fosse o único dono das fábricas, o único herdeiro, mas há outros e todos reclamam, todos precisam. Sinto muito, mas não é possível. - Sempre pensei que o pai de Alec tivesse deixado uma sólida fortuna. - Qual o quê! Meu marido tem tido um trabalhão para organizar tudo, só vendo. As fábricas estavam em péssimas condições. Fitando o rosto torturado do irmão, falou a modo de conforto: - Em todo caso, falarei com Alec hoje mesmo; se ele puder arranjar o dinheiro, avisarei amanhã. À noite, a sós com o marido, contou o pedido do irmão, cheia de cólera: - Que pensa que somos? Pais dele? Por que não economizou desde o princípio como eu economizo? Por que não guardou? Eu, que poderia esbanjar dinheiro, vivo guardando; por que ele não guarda? É o cúmulo vir pedir-me dinheiro. Esquece-se de que temos quatro filhos. Quatro! E para educar e encaminhar essas crianças. Ele pensa que é brincadeira o que gastamos com a casa e a educação dos meninos? Depois, ele não tem nome, não tem prestígio social, por que gasta tanto? Nosso caso é diferente, temos nossas relações e não podemos abandoná-las. Por isso disse a ele que não podemos. Lembrando-se do lucro fabuloso que tivera nas fábricas esse ano, o marido quis fraquejar: - Quem sabe podemos arranjar-lhe o dinheiro? Não é muito… Ela sentiu nova revolta: - O quê? Você também? Nunca! E nossos filhos, Alec? Prefiro então que me dê esse dinheiro, tirarei qualquer proveito, comprarei terrenos, farei qualquer coisa útil. Você sabe, não tenho confiança nos negócios dele, vai perder nosso dinheiro. Nem pense em dar e se está sobrando para você, eu quero. - Mas não é dar, é apenas emprestar. - Se é apenas um empréstimo, por que nos procura? Por que não vai procurar um agiota na praça? Arranja quanto quiser. Vem nos procurar porque se daqui a um ou dois anos, não puder pagar, sabe que você perdoa. Não, a mim não me engana, não sou nenhuma tola. Foi inflexível, como costumava ser sempre em matéria de dinheiro. Dora de Rodríguez amava o marido a seu modo. Depois de todos aqueles anos de vida em comum, achara nele defeitos que não perdoava; considerava-o fraco. Tolerante em demasia para a fraqueza dos outros, negligente na escolha de amizades; precisava estar sempre vigilante, sempre observando tudo que se passava à volta dele. Alec não deixava de ser bom marido, não havia dúvida. Admirava-a, dava tudo o que ela queria, era rico e poderoso na sociedade, tinha um físico atraente e bondosos olhos azuis. Ninguém deve ser bom em demasia: “A bondade extrema é um defeito”, dizia. No íntimo, achava-o fraco; não fosse a fraqueza, poderia ocupar cargos importantes, aumentar sua empresa, até na política poderia triunfar. Mas Alec não gostava de lutar e esse era seu maior desgosto; Alec apenas continuava a tarefa do pai, não procurava aumentar, dobrar o capital, fundar mais fábricas no interior. Seria, se quisesse, um dos primeiros industriais do país, mas parecia-lhe às vezes tão apático, tão indiferente, tão amigo da inércia e do sossego… Mesmo a vida social seria negligenciada não fosse seu esforço constante em fomentar as melhores amizades, procurar elevá-lo no conceito dos outros. “Sabem que meu marido conseguiu um lucro nas fábricas como o pai e o avô nunca haviam conseguido antes?”. “Não sabia que Alec lê filosofia? Ah! Os melhores livros para ele são os filosóficos.” “Alec é um homem extraordinário. Admiro nele a capacidade de trabalho, nunca vi coisa igual. É incrível. Ele sozinho dirige todas as fábricas, que não são poucas, de uma maneira tão eficiente.” Queria fazer dele um batalhador, mas Alec não correspondia aos seus esforços e respondia muitas vezes que assim estava bem. Para que tanta luta? Ela não podia compreender. Como eram diferentes um do outro! Tinha vontade, às vezes, de dirigir, ficar à frente da empresa, determinar o salário de milhares de operários. Em suas mãos, tudo seria grandioso e eficiente, tinha certeza. Ele era bom demais, ela seria apenas justa. Recebia as dádivas do destino sem agradecer, achava que tudo que tinha era merecido, Deus mandava. “Por que importunar Deus com minhas orações? Ele deve ter tanto que ouvir de outros que precisam mais do que eu!… Não preciso de nada.” Seguia, sem o perceber, a mesma rotina da casa de tia Elisinha; tudo que censurava acerbamente na vida da sogra, ela repetia, ultrapassando. Era vaidosa em extremo; tudo que lhe pertencia era superior; o que era seu, era diferente porque era melhor: marido, filhos, casa, móveis, jóias, vestidos. capítulo 6 Os Rodríguez atingiram o apogeu. Na casa da Rua Maranhão, onde foram residir depois da morte de tia Elisinha, festas e recepções se sucediam. Os filhos estavam moços. Lilian casou-se aos dezoito anos com um rapaz muito rico. Dora sentiu-se feliz com o casamento da filha, justamente o que havia sonhado. Em todos esses anos de fausto e divertimento, Dora mal percebeu o afastamento completo do marido, o qual se tornara apenas o dono da casa, o pai daqueles filhos brilhantes e bonitos, não mais o companheiro carinhoso e dedicado. Ocupado com os inúmeros negócios, viajava muito e nunca estava em casa. Dora, preocupada com a carreira dos filhos e com a vida social, não sentiu esse afastamento; tinha justamente o que desejava e, aos quarenta anos, era bastante. Lilian que residia na vizinhança, visitava-a todos os dias; Alexandre habitava um apartamento nos fundos do terreno da Rua Maranhão; ali tinha criados para servi-lo e recebia os amigos. Possuía cavalos de raça e dois automóveis; de dois em dois anos, passava grandes temporadas na Europa. Se o pai recriminava a vida inútil do filho mais velho, Dora estava sempre pronta a defendê-lo. - Que culpa tem ele de sermos ricos? Deixe que aproveite a vida. - Mas ele precisa trabalhar, fazer alguma coisa; eu sempre trabalhei com meu pai. - Não sabe que ele pertence a outra geração? Agora só trabalham os que precisam; felizmente ele não tem necessidade disso. Felizmente. Dorita, aos dezesseis anos, era uma menina magra com aparência raquítica. A mãe se aborrecia, Dorita era feia, a única feia da família. Mandava-a para o Rio tomar banhos de mar, levava-a aos médicos, fazia-a freqüentar cursos de ginástica, Dorita continuava feia. E possuía uma personalidade inquietante, parecia sempre insatisfeita. Como raramente era convidada para festas, dedicava-se aos estudos, aprofundou-se no estudo de línguas, estudou a história dos povos, aperfeiçoou-se no saber. Era o oposto de Lilian. Lilian, como no tempo de solteira, continuava flor. Admirada, cuidada, mimada pelos pais, depois pelo marido. Muito loura, de um louro cor de mel, pele de leite e rosa; herdara os olhos azuis do pai e a boca sensual da mãe. Era considerada uma beleza e estava habituada a receber carinhos e homenagens. Ao lado da irmã, o contraste era chocante. Gostava de ridicularizar Dorita; perguntava-lhe por que era assim angulosa, por que não se vestia bem, por que não tratava das sardas; Dorita sacudia os ombros e não respondia; procurava sempre fugir das reuniões da família. Os jantares em que todos tomavam parte, representavam um suplício para ela. Muitas vezes inventava pretextos para não comparecer; os irmãos achavam-na esquisita e diferente das outras moças. Diziam que ela nunca se casaria, como quem dissesse: “Quem olhará para você?” Ela respondia: - Não pretendo me casar. A mãe sentia cólera ante a indiferença da filha: - Que pretende então? Ficar solteira? - Oh! Não se importe comigo; saberei fazer minha vida, tenho meus estudos. Lilian perguntava com ironia: - Pretende estudar a vida inteira? - Talvez. O pai a compreendia, mas raramente se encontrava em casa; se não estava viajando, estava no trabalho ou no Clube. Entristecia-se em ver o pai afastado de casa, ao mesmo tempo dava-lhe razão; ela também se afastaria, se pudesse; não suportava a vida que a mãe e a irmã levavam, tão oca, tão vazia. Alexandre, o mais velho, era um rapaz simpático, mas não queria estudar, nem trabalhar. Não era alto como o pai, tinha ombros largos e era forte. Mãos grandes como de todos os Rodríguez, brancas e ossudas, de dedos longos, cobertos de pêlos. Era dado a conquistas de toda espécie; se o avô fosse vivo, diria que ele havia herdado as qualidades e os defeitos dos antepassados, os aristocratas espanhóis. Falava e ria alto, ruidosamente; sua personalidade dominava o ambiente; maneiroso, delicado para com todos, lembrava o tio, D. Fernando. Muito acatado na sociedade, generoso para com os amigos, herdara da mãe, o egoísmo. Não se importava com a família e não tinha noção de responsabilidade. A vida para Alexandre era uma eterna brincadeira; gastava a fortuna que os avós haviam ganho e que o pai se esforçava por aumentar. Pouco estava em casa; procurava a mãe para pedir dinheiro e raramente via o pai. Tinha uma lábia extraordinária para conseguir seus intentos e nisso também parecia-se com D. Fernando. Conversava com a mãe, contava histórias engraçadas ou novidades e escândalos da sociedade, beijava-lhe a face e levava a quantia que ambicionava. Ela inventava pretextos incríveis para tirar dinheiro do marido e dar ao filho. Sabia que ele jogava, como o tio, e nunca o censurou nem admitia que Alec o censurasse; dizia que com a idade viria o juízo. Paulo, o último filho, era moderado em tudo: nos hábitos, nas maneiras, nas atitudes delicadas e distintas. Parecia-se com o pai; tinha aquela mesma bondade e tolerância que Dora chamava de fraqueza. Fisicamente parecia-se com ela: o sorriso, os olhos, a boca. Era bonito, aloirado, um tanto retraído. Falava pouco. Não gostava muito de vida social, procurava pretextos para não freqüentar festas. O pai dizia: “Paulo é minha esperança; esse dirigirá as fábricas depois da minha morte”. Dora orgulhava-se cada vez mais do filho predileto; chamava-o brincando: “Esperança do papai”. Ele não tinha as características dos Rodríguez; somente na altura e na palidez do rosto, parecia-se com os velhos tios. Quando os dois irmãos estavam reunidos, um personificava movimento e outro, tranqüilidade. Dora tinha o coração pequeno; o amor intenso que nutrira pelo marido durante tantos anos, desaparecera para dar lugar ao amor pelos filhos moços; cada dia, era como se visse os filhos pela primeira vez. Amou a beleza delicada de Lilian, a vivacidade de Alexandre, a força de Paulo. Dorita quase não existia; esquecia muitas vezes a segunda filha, assim como esquecera o marido. Foi sentindo gradualmente o afastamento de Alec e nada fez para retê-lo. Os filhos não davam tempo para pensar em mais nada. Eram tão encantadores! Desculpava-lhes as faltas, dava-lhes mais dinheiro do que precisavam, ria-se de tudo que faziam ou diziam. Se o pai os censurava, Dora colocava-se imediatamente ao lado deles. - Você precisa compreendê-los, Alec. Todos os outros agem como eles, não são os únicos. São muito bons até, têm caráter. Esta geração é diferente da nossa, precisamos entendê-la; eles não têm culpa de terem nascido nesta época, de terem presenciado esta guerra que abalou o mundo. Precisa ter paciência. Um dia chegou aos ouvidos da família, a história do namoro de Dorita; ninguém acreditou, não era possível, Dorita não podia ser amada. A mãe ficou curiosa; mandou chamar a filha no quarto de vestir: - Dorita, o que estão falando por aí é exato? Você tem um admirador? Dorita afundou as mãos nos bolsos do casaco e encarou a mãe: - Que eu saiba, não. Empurrou com o pé a almofada de seda sobre o tapete; a mãe irritou-se: - Que resposta! Com quem estava conversando outro dia em frente à escola? Dorita franziu a testa como se fizesse esforço para lembrar-se: - Em frente à escola? Ah! Eu converso às vezes com colegas, amigas. A senhora quer saber o nome de todos que falam comigo? Dora ensinara os filhos a tratá-la por “você”. Dorita era a única que dizia: “senhora”. Procurou ter paciência e fingiu não perceber a irritação da filha. - Não, Dorita. Sempre há de haver alguém que seja mais simpático a você, alguém que você compreenda melhor, algum rapaz por quem tenha grande simpatia. A moça interrompeu-a de súbito: - Não há ninguém a não ser colegas, simples colegas… Sentindo que fora áspera no falar com a mãe, procurou amenizar: - Vai hoje ao chá em benefício das vítimas da guerra? Deve ser uma bela festa. - Tenho que ir, sou da comissão. Você quer ir comigo? - Não, obrigada, tenho outras coisas a fazer. Voltou-se e deixou o quarto, não esperando resposta alguma. A mãe suspirou e passou o pente dourado pelos cabelos: “Como Dorita é esquisita”. Ela também fora assim, um pouco retraída, mas não era feia. Tinha “charme”, a filha não tinha, era um pedaço de pau; para andar, para falar, para entrar num salão. Era incapaz de uma vaidade, um capricho, um gesto gracioso. Nada. Só estudar, estudar, ler, falar coisas complicadas, assuntos elevados. Tolices. Suspirou de novo e começou a pensar no vestido que usaria aquela tarde. No íntimo, respeitava a filha, achava-a superior. Percebia que Dorita censurava seu modo de vida, suas vaidades, suas festas. Empregava o termo “cerebral” quando se referia a Dorita: - Ela é inteiramente cerebral, toda intelectual, toda sabedoria. Só cérebro. Nem eu que sou mãe a compreendo bem. Dorita foi encontrar-se com Eduardo no ponto do bonde “Jardim da Aclimação”; sentavam em bancos diferentes para não chamar atenção; lá no silêncio das alamedas, onde pouca gente havia àquela hora, passeavam juntos, lado a lado. Eduardo era seu companheiro de estudos; apreciava-o muito. Era um rapaz estudioso e ponderado; pertencia a uma família modesta do interior. Dorita não pensara em casar com ele; se pensara algum dia, guardava esse pensamento no recanto mais fechado da sua alma. Sabia que a mãe levantaria uma barreira entre ambos, e isso a assustava um pouco. Apesar de seu espírito independente e de estar sempre disposta a lutar contra a família, pressentia grandes aborrecimentos. Começaram a andar à volta do lago, como se encontrassem ali por acaso. Ela era tão simples que quem a visse tomaria por uma estudante pobre; levava livros sob o braço. Modestamente vestida, ninguém reparava nela. Eduardo era pouco mais alto, moreno claro, magro. Falavam de vários assuntos e discutiam algumas vezes; essa intimidade lhes era agradável. - Já estudou o ponto para sabatina? perguntou Dorita quando passaram sob um salgueiro e ela colhia uma folha. - Quis encontrar-me com você, exatamente para falar sobre isso. Acho que ele dá pontos demais para uma simples sabatina. Imagine o que será no exame! - E eu imagino o que os outros colegas diriam se nos vissem juntos aqui à beira do lago. Pensariam mil coisas, menos que viemos aqui para estudar, não é mesmo? - Os colegas que pensem o que quiserem, a mim não incomoda. E a você? - A mim muito menos. Ela continuou: - O que me entristece é isto: não tenho liberdade em minha casa. Veja um pouco, se mamãe fosse outra, eu poderia convidar você e outros colegas para estudarmos juntos em casa. O estudo em comum vale o dobro. Tenho uma sala de estudos daqui até lá (mostrou a borda do lago), mas não penso nisso, mamãe não gostaria nem um pouco. Percebendo o olhar interrogativo do rapaz, concluiu: - Ela é complicada… Há muito percebera que a mãe era egoísta, vaidosa, orgulhosa; mas dizia apenas - complicada. Riu-se alto e continuou: - Se eu fosse convidar amigos para uma festa ou um chá, tenho certeza de que ela me apoiaria imediatamente. Diria: “Dorita, quer que eu convide mais alguém? Que flores você prefere para esse dia9 Veja se a mesa está do seu gosto; encomendei isto, isto e isto”. Ficaria alegremente excitada, mas você compreende, ela não gosta que eu estude muito e não aprova esse curso que estou fazendo. Disse que fujo da sociedade e ela só gosta dessa vida. Diz mais ainda… - Que mais? - Tolices de mamãe. Diz que só pobre precisa estudar assim como estudo, gente que vai viver desses estudos, vai lecionar, vai ganhar a vida. Diz que não preciso porque papai tem alguma coisa. Quem sabe um dia vou precisar? Quem nos diz o que será o futuro? - Tem razão. E seu pai? - Papai é um anjo de bondade, bom como você não imagina, compreensivo mesmo. Ele e eu nos entendemos admiravelmente, mas ele é um homem de negócios, não pode me dedicar muito tempo. Quando está em casa, conversamos muito; trocamos idéias, falamos sobre as fábricas, damos risada, ouvimos vitrola. Nunca esquecerei uma viagem que fiz ao Rio com papai, só com ele. Você precisava ver que maravilha, ele parecia dez anos mais moço; alegre, animado, conversador. Aqui ele parece sempre preocupado, às vezes aborrecido com isto ou aquilo. Lá não, era outro homem. Os olhos de Dorita umedeceram-se ao recordar o pai; depois o olhar tornou-se distante e ela continuou a andar observando o chão. Tornou a falar: - Ele está sempre fora, mas quando está em casa, ficamos sempre juntos. Vamos a concertos, a teatros. Certos teatros mamãe não aprecia muito, por isso vou só com ele. Ele… Parece que Dorita arrependeu-se do que ia falar, pois parou subitamente para perguntar: - E sua irmã? Melhorou? Eduardo enrugou levemente a testa: - Parece que vai escapar da operação; ontem foi examinada por outro médico. Está um pouco melhor e mais animada. - E seus pais? Estão mais calmos? - Eu contei que mamãe veio? Coitada, doente daquele jeito, diabética, veio ficar com minha irmã. Está passando bem, vamos ver no que dá tudo isto. - Vai dar tudo certo, você verá. A tarde está tão bonita… Reparou como o lago está diferente hoje? Ficaram olhando a água; dois botes com moças e rapazes estavam no meio do lago; pararam de remar. Tudo ficou imóvel e assim, a distância, parecia um cartão postal. Passaram pelo lado onde ficavam os animais; estavam tão habituados a vê-los que mal olharam para os ursos, macacos, tigres, elefantes. Naquele lugar havia mais gente e eles passaram depressa a fim de não serem notados. Foram depois para mais longe e sentaram-se num banco meio oculto pela vegetação, num ponto elevado. Eduardo fitou-a: - Prefiro vir aqui com você do que ir à sua casa; mesmo que sua mãe permitisse, prefiro aqui. Ela corou, depois perguntou: - Já contei a você minha viagem à Inglaterra? Papai deixou. Só disse para eu esperar um pouco. Ficou tudo tão desorganizado depois da guerra! Devo esperar e ir mais tarde. Vou com prima Justina, uma prima de papai. Estou tão contente… Notou o rosto tristonho do rapaz; ele inclinou-se, tomou uma pedrinha entre as mãos e tentou esmagá-la entre os dedos. - E sua mãe? Deixa? Ela teve ímpetos de contar tudo a Eduardo: “Mamãe não se importa comigo, até gostará se eu for”. - Papai deixando, ela deixa também… - Sempre pensei que você gostasse de estudar aqui. Então vai nos abandonar? - Não diga isso. Nunca esquecerei vocês, meus bons colegas. Vou porque tenho loucura por conhecer a Europa: França, Espanha, Inglaterra. Vontade de viajar… sumir um pouco… Não podia contar que era infeliz em sua própria casa; continuou, mais alegre: - Sabe que papai prometeu me visitar? E eu escreverei, escreverei sempre a você. Quer? - Ainda pergunta? Quero, sim, e muito. Continuava a tentativa de esmagar a pedrinha redonda. Perguntou: - Vamos fazer um trato? - Qual? - Mantermos assídua correspondência. Não sei se você acha, mas sempre achei romântico, errivelmente romântico, uma correspondência assim, entre duas pessoas. Sempre gostei dessas cartas antigas, trocadas entre amigos, ou entre noivos, ou entre mãe e filha, por exemplo. As cartas de Madame de Sevigné, lembra-se delas? Abençôo as gentes por não tê-las destruído. E Eduardo esforçando-se por recordar, falou: - Ma douleur serait bien medíocre si je pouvais vous Ia dépeindre; je ne l’entreprendrai pás aussi. J’ai beau chercher, ma chère filie, je ne Ia retrouve plus, et tous lês pás qu’elle fait 1’éloignent de mói. Lembra-se quando decorávamos juntos? Ela riu-se: - Lembro-me. Já percebi que você é muito sentimental, romântico mesmo; por isso resolvi contar a resolução da minha viagem aqui, sozinhos. Não quis contar perto dos outros… Sentiu-se enrubescer ao perceber que fora longe demais. Eduardo olhou-a, lisonjeado: - Fez muito bem, Dorita. Eu agradeço, mas não vai logo, vai? - Não, nem quero que fale ainda. Guarde segredo por enquanto. Quanto à correspondência, estou pensando… - Precisa pensar? Não gosta de escrever? - Falar a verdade, nunca escrevi para ninguém; talvez a alguma colega, a vovó; sempre gostei das minhas avós. Mas a você, escreverei. A pedrinha foi atirada longe: caiu na água que se abriu em círculo; os dois ficaram olhando para o mesmo ponto até que a água serenou de novo. A tarde começando a cair, pássaros passavam piando e pousavam nos galhos mais altos dos salgueiros; ficavam um instante balançando nas pontas mais finas dos galhos, olhando o mundo que se estendia lá embaixo. Eduardo levantou-se: - Quer andar mais um pouco? - Aqui está tão bom. Ou você acha que é hora de voltarmos? - Longe disso, falei à toa. Vamos ao nosso ponto? Estamos esquecendo dele. - Vamos. Hoje estamos divagando mais, falando das famílias e de nós mesmos… Houve um silêncio. De repente Dorita tornou a falar: - Não sei, Eduardo, acho às vezes o mundo tão errado, parece que falta qualquer coisa. - Em que sentido você diz isso? - Em todo sentido. As pessoas, por exemplo; são às vezes egoístas, más, não perdoam nada. Por que são assim? Ele sorriu: - Você hoje está um pouco amarga. Que aconteceu? Olhe, se as pessoas fossem sempre boas, não haveria maldade. - E acha que é preciso haver maldade? - Não acho, mas há de tudo. Você não conhece uma pessoa verdadeiramente má. Conhece? - Felizmente não. Mas conheço egoístas, autoritárias, orgulhosas. Acho que o egoísmo é uma forma de maldade, o orgulho também. Está de acordo? - Estou. - Nunca falei a você na minha irmã mais velha, Lilian, É um poço de orgulho. Mas quando penso bem nisso, acho que ela não é muito culpada; culpado é o ambiente em que ela foi criada. O ambiente de mimos e riqueza tornou-a assim; o ambiente de: “Não chore, você ganha ainda um melhor que ela”, tornou-a uma rainha, quer todo o mundo inclinado aos seus pés. Eduardo riu-se: - Tanto assim? - Não acredita? Você precisava ver, até hoje é assim. Quando ela quer uma coisa, toda gente corre a satisfazê-la. Está acostumada. E depois é muito bonita, uma beleza… Já teve um filho, você sabe. A família quase morreu quando Lilian estava para ter o filho; agora está esperando o segundo, a família está na mesma ansiosa espera. O telefone toca desde manhã: “Lilian passou bem? Não teve dor de cabeça? A que horas ela dormiu?” Nunca vi. - E o marido? - É uma pérola de marido. Digo mais, é bom, demasiadamente bom para ela, por isso mesmo acho que ela se aborrece às vezes. Outro dia, a vi queixando-se dele para mamãe, disse que ele é sem energia, faz tudo o que os outros pedem, mas não quer dar o broche de brilhantes que ela quer há tanto tempo. Você sabe, um broche caríssimo, não é brincadeira. E depois ela tem montões de jóias. Olhou Eduardo, admirada por haver falado tão longamente sobre a família; com um galhinho seco entre as mãos o rapaz, inclinado para a frente, fazia figurinhas riscando o chão. - Há muita gente assim, Dorita. Minha mãe sempre fala de uma tia nossa muito rica, criada cheia de vontades. Depois ficou pobre e nunca se conformou com a pobreza, pedia dinheiro a toda a gente, até aos criados. - Por isso acho que o mundo está errado. Dá demais para uns; para outros, nada. Lilian, por exemplo, tem tudo; e quantas mulheres boas não têm nem a metade do que ela tem? Apesar de ser minha irmã, acho que ela não merecia tanto… Não falo por inveja, nunca tive inveja de nada, falo por justiça… Dorita suspirou. Ficaram silenciosos um instante; de repente, Eduardo perguntou sem levantar a cabeça: - Promete falar a verdade? - Que verdade? - O que vou perguntar. Ela hesitou um instante. - Prometo. - Não é por causa dessas coisas de família que você vai embora daqui, é? Ela quis fugir à verdade, depois resolveu ser franca: - Em parte é. Não suporto certas coisas, sou quase uma estranha em minha casa. Tentou corrigir e riu-se: - Tanto assim, não, estou brincando. Quero viajar para conhecer países, cidades, e também para fugir dessa mania de luxo e grandeza que há em certas pessoas lá em casa. - Você diz que sua irmã é assim porque foi criada num ambiente de luxo, demasiado luxo. Não foi nesse mesmo ambiente que você foi criada? Então você também devia ser assim… - Há uma diferença muito grande entre nós duas. Ela é mais velha e foi sempre muito bonita; eu já vim em terceiro lugar, fui sempre um pouco fraca, doente mesmo. Minha infância foi cheia de dificuldades, ela nunca teve nada. - Por isso mesmo você devia ser mais mimada que ela. Por ser mais fraca… Ela fez um gesto indeciso: - Ah! Não sei, eu sou diferente. Nem posso compreender como sou diferente. Nunca aceitei certas imposições, certas normas da nossa família. - Já sei, você - é mais inteligente. Não é diferente, é inteligente. Ela corou. - Seus irmãos também são como sua irmã? - Paulo nem tanto, saiu mais a papai. O mais velho só pensa em se divertir e gozar a vida. Ficaram silenciosos. - Deve ser horrível não ser compreendido pela própria família. Admiro-a, Dorita. O rosto da moça pareceu brilhar de emoção, tornou-se quase bonita. - Obrigada, mas não há de que se admirar. Ele protestou: - Como não? Você é admirável. Viver nesse meio e não se contaminar… é muita coisa. É quase ser…. heroína. Ela riu-se alegremente: - E nosso ponto, Eduardo? - Bom. Vamos trabalhar. Tirou um papel meio amarrotado do bolso, estendeu-o sobre o joelho e começou a alisá-lo: - Que quer em primeiro lugar? Guerras Púnicas? - Prefiro primeiro a Civilização Romana, me agrada mais. - Diga o que sabe. Dorita levantou a cabeça, fitou a árvore mais alta e começou: - O triunfo de Roma sobre Atenas foi porque… quero dizer, duzentos e tantos anos antes de Cristo, Roma assimilou e compreendeu os aliados. Atenas continuou democrática, porém estreita no seu exagerado patriotismo; não assimilou, era possuída de um egoísmo cívico e não aceitou outros povos, mesmo os aliados. Roma, por exemplo, numa época em que não havia imprensa, comunicou-se com outros povos por meio de estradas; caminhos abertos em grande extensão, por exemplo: A Via Ápia… - Esplêndido. - A República Romana estendeu sua cidadania até o Vale do Pó… Dorita interrompeu e começou a rir: - Há gente como Roma e gente como Atenas; uns assimilam, outros não. Uns compreendem, outros não. Uns perdoam, outros não. Papai sempre diz que ninguém pode ser demasiado egoísta e se isolar, viver numa torre; as pessoas, assim como os povos, têm que se comunicar. Conheço famílias que vivem só para si. É um erro. - E você o que é? - Eu? Eu penso que sou Roma. E você? Nem se pergunta, você também é Roma. - Creio que sou. Continuavam a estudar e esqueciam o tempo. De repente, ela se levantou, assustada: - Precisamos ir, deve ser tarde… - Cinco e vinte. - Até chegar em casa, é noite. A gente aqui esquece as horas. - Quando pode vir de novo? - Na escola combinaremos melhor, talvez na próxima terça-feira. Vamos? Antes de se separarem, Eduardo disse: - Não se esqueça da correspondência, faço questão das suas cartas, “lê ne vous parle plus du départ de ma filie, quoique j’y pense toujours et que je ne puisse jamais bien m’accou-Turner à vivre sans elle; mais cê chagrin ne doit être que pour mói.” Então, até amanhã, não se esqueça. Tomaram o primeiro bonde. Dorita entrou em casa quando as luzes estavam se acendendo. Passou pelo salão verde e ouviu a voz da mãe falando com as visitas; era uma voz doce, aveludada, tinha um timbre discreto: “Achei que ela teve muito gosto, a festa foi belíssima. Em tudo, desde o arranjo das mesas, as toilettes, modelos lindos…” Dorita conhecia aquele tom de voz; a mãe estava conversando com pessoas de importância, pessoas de alta categoria social. Ela adotava atitude e voz especiais nesses momentos; quando falava com pessoas modestas ou parentes pobres, a voz tinha o timbre habitual: áspero, quase desagradável, metálico. Subiu a escada de dois em dois degraus, tirou o chapéu, entrou no quarto e fechou a porta depressa. Já estava triste. Em casa sentia-se sempre assim: deprimida. Durante quatro anos, a vida dos Rodríguez não se modificou grandemente, apesar dos fatos ocorridos. Dorita passou esse tempo no estrangeiro; raramente escrevia, suas cartas mais pareciam bilhetes. Quando regressou, a chamado do pai que estava doente, foi recebida com cordialidade e carinho, mas sentiu que tudo era um pouco forçado, nada espontâneo. A mãe sempre vaidosa, aborrecia-se com a longa moléstia do marido; já havia sido operado uma vez, talvez fosse necessária uma segunda operação. Pensava nas noites mal passadas, nas idas ao hospital, nas entrevistas com os médicos, no cheiro desagradável dos remédios. Como tudo aquilo lhe fazia mal! Ninguém pensava nela; no entanto, ela sofria também; dormia pouco, alimentava-se às pressas, cansava-se à toa, tinha olheiras profundas, ela que nunca tivera olheiras, e ninguém se importava. Mesmo Dorita, depois de quatro anos de ausência, desembarcou e ao abraçá-la, perguntou: “Como vai papai?” Era decepcionador. A filha não viu seu rosto emagrecido, não viu seu sofrimento, só pensou no pai. Mas Dorita era egoísta; toda a família sabia disso. Dorita só amara uma pessoa: o pai. Esquecera os sacrifícios que a mãe fizera por ela, as idas às aulas de ginástica, a idéia de mandá-la aos banhos de mar todos os anos, tudo a ingrata esquecera depressa. Nunca fora carinhosa, nunca correspondia ao devotamento da mãe, só amara o pai. Fora a Santos com Paulo assistir ao desembarque de Dorita; enquanto subiam a serra de automóvel, começou a contar o que acontecera durante os quatro anos de ausência; de vez em quando, olhava de soslaio a filha sentada a seu lado. Era uma moça séria, concentrada, pouco vaidosa, sem uma jóia a não ser o anelzinho que o pai lhe dera quando mocinha. Não parecia sua filha. Não era bonita, nem elegante, nem tinha vivacidade. Para esquecer seu desgosto, começou a falar: - Houve muitos aborrecimentos em nossa família; naturalmente você recebeu as cartas contando. Mas quando a gente lê uma carta, nunca é como quando se presencia o fato. - Recebi as cartas contando tudo, disse Dorita apertando as mãos, uma contra outra. - Primeiro foram as duas velhinhas: sua avó e sua bisavó. Deram muito trabalho, ficaram doentes, precisei mandar enfermeiras para lá, dia e noite; despesas enormes que tive com tudo isso. Eu não podia ir todos os dias, tinha muitas ocupações, ia quando podia. Primeiro morreu sua avó, oito meses depois, sua bisavó. Coitadas, eu não podia traze-las para nossa casa; ficaram lá, mas nada faltou a elas. Nada. Morreram como passarinhos, muito quietinhas, sem reclamar coisa alguma. Quando eu ia, perguntava: “Precisam de alguma coisa?” Sua avó respondia: “Não precisamos de nada, temos tudo, muito obrigada”. Coitadinhas. Sua bisavó, sem poder andar, presa numa cadeira; sua avó na cama, muito mal. Um horror de doenças. Depois, logo depois, começou a moléstia de seu pai; fomos a não sei quantos médicos, uns achavam que devia ser operado, outros eram contra, afinal foi resolvida a operação. Se você soubesse como sofri esse tempo todo! Não dormi bem, tive falta de ar, passei mal as noites, um inferno. Ele foi feliz e passou dois anos bem, depois começou a sentir dores novamente e ficou ameaçado de segunda operação; foi aí que ele escreveu a você pedindo para voltar. - Está muito abatido? - Não muito. Coitado de Alec. Procura ser forte para me dar coragem. Quase não se queixa, mas deve sofrer. Agora que você chegou, tudo irá melhor, ele ficará tão contente! Perguntava sempre quando o navio ia chegar. Ansioso por você. Acariciou ligeiramente as mãos da filha. Seria mesmo sua filha essa moça que quase não sorria? Essa moça que encarava a vida de maneira tão diferente da sua? Tornou a olhar Dorita e viu-a de perfil; tinha a mesma pele sardenta (decerto nunca fizera tratamento para sardas e ela conhecia cremes tão bons para isso!) o mesmo nariz saliente, a boca de lábios finos, as sobrancelhas e os cabelos castanhos desbotados e sem brilho, as pestanas curtas, os olhos miúdos; lábios e faces levemente pintados. Comparou-a mentalmente a Lilian. Lilian era uma flor! Observou a toilette da filha; um costume marrom muito simples, um casaco também marrom; o tecido era bom. - E as crianças de Lilian? - Ah! Uns , verdadeiros amores. As duas mais velhas estão grandes, você não vai reconhecê-las; a terceira menina não é tão bonita, isto é um desgosto para Lilian. Mas ficará bonita, tenho certeza; tem um nariz perfeitinho e boca muito bem desenhada. Não é, Paulo? O menino é forte, um meninão; você vai ver que beleza de criança. O filho interrompeu-a: - Afinal, conte alguma coisa. Fale de você, Dorita. Que fez nestes quatro anos? Muita coisa? - Estudei. Fiz um curso muito bom para moças que querem trabalhar: isso na Inglaterra. Depois fiz um curso superior. E viajei. Viajei muito, fiquei conhecendo os parentes de vovô, fiz viagens pela Espanha, gostei muito. - Que tal nossos primos? Boa gente? - Gente muito simpática, mas muito simples, diferente de nós. Dora olhou-a: - Como, diferente de nós? Em que sentido? - Moram no campo, pouco vão a Madri; não fazem vida elegante, isso é que quero dizer. - Mas são nobres, interrompeu a mãe. São da mais alta aristocracia; eu me lembro de quanto tio Paulo e tia Elisinha falavam dos Rodríguez. Nosso ramo descende de um visconde pertencente a uma família da nobreza; tio Paulo era sobrinho-neto do visconde. Isso sei muito bem e tenho um livro que já mostrei a vocês que conta a história dos Rodríguez. Tio Paulo reunia a família para falar; os Rodríguez vêm de séculos atrás… Falava depressa, nervosa. - Eu sei, mamãe. Mas esses descendentes do visconde, esses que residem no campo e que visitei, são gente simples. Muito bons, mas simples. - Eles não têm dinheiro? perguntou Paulo. - Alguns têm, outros não. São até modestos. Fazendeiros modestos. Estive na fazenda de um deles, com prima Justina. Muito bons, muito amáveis. Toda a família levantava-se cedo para tratar da terra, da criação, tiravam leite das vacas às cinco da manhã e mandavam vender na cidade mais próxima. Prima Justina foi uma boa companheira, ia dizendo logo: “Olhem, esta aqui é Dorita, neta de Paulo Rodríguez, o que emigrou para o Brasil”. Dora revoltou-se: - Emigrou? Ela dizia emigrou? Prima Justina está louca para dizer isso? Que brincadeira de mau gosto! Que idéia! - Todos sabiam que era brincadeira, mamãe. Prima Justina gosta de brincar; riam e me abraçavam: “Sim? Chama-se Dorita? Tivemos notícias que o Paulo morreu há alguns anos. Coitado! Paulo era nosso amigo, todas as vezes que vinha à Europa, nos visitava”. Eles mesmos colhiam a verdura, preparavam os ovos em cestas e os enviavam para o mercado de Salamanca. A mãe mordeu os lábios, despeitada. Quando estivera viajando, não procurara os parentes pobres; voltou-se para a filha: - É melhor não repetir essas coisas aqui para nossas amizades, só serve para a família perder o prestígio… Paulo começou a rir, divertido. Dorita perguntou: - A quem irei falar? Ora, mamãe, que tolice. - Você é muito simples, Dorita. Pode começar a falar e os outros acharão graça, no fim você acaba contando tudo. Não vale a pena, prezo muito a estirpe dos Rodríguez. Dorita corou. - Não, não contarei. Quando o automóvel chegou à casa da Rua Maranhão, Dorita quis subir correndo as escadas para ver o pai. - Espere, disse a mãe, num gesto autoritário. Eu vou na frente. Entrou no quarto do marido (agora ocupavam quartos separados) e Dorita ouviu-a dizer: - Alec, Dorita chegou. Não ouviu resposta. A mãe continuou: - Chegou bem, aquilo mesmo que foi daqui, não mudou muito. Nem parece que viveu na Europa; simples como sempre. Não vá emocionar-se muito, pode fazer mal. Sabe o que prima Justina andou falando para todos nossos parentes? Que seu pai emigrou para o Brasil. Nem por brincadeira quero que ela diga isso. Desaforo. Depois de um rápido silêncio, gritou: - Dorita! Entre. Viu o pai meio sentado na cama, a barba um pouco crescida, magro, abatidíssimo. Levou um susto, o pai não podia viver muito, o pai estava muito mal, para morrer. Sentou-se ao lado do leito e tomou-lhe as mãos emagrecidas, sorrindo timidamente: - Papai, estou aqui, finalmente. Como vai? Os lábios de Alec começaram a tremer e os olhos umedeceram-se: não pôde falar. Dorita inclinou-se para abraçá-lo e os dois começaram a chorar ternamente, um choro manso e triste. Ele, a cabeça recostada no ombro da filha; ela, inclinada, acariciando-lhe a testa. - Para que essa cena? Agora que a filha querida está aí, você não deve chorar. Pode fazer mal… Ele não respondeu e apertando a mão de Dorita, tentou sorrir. Dora Laura Vidal de Rodríguez sofreu naquele dia uma das maiores desilusões da sua vida; a filha chegara de Espanha e contara que os parentes eram simples, pobres e viviam no campo. Era horrível só de pensar; não podia crer nas palavras de Dorita. A princípio chegara a pensar que a filha inventara essa história para se divertir, para ver a mãe sofrer; mas Dorita não brincava,’ Dorita havia falado seriamente. Como sofria. Depois de assistir ao encontro entre pai e filha, fechou-se no próprio quarto e ficou pensativa; sentia-se como que roubada em seus sonhos de grandeza; era como se alguém tivesse furtado alguma coisa íntima que ela guardava como um tesouro. Quase odiou a filha que viera, a sorrir, arrancar-lhe a doce ilusão. Contaria a verdade aos outros filhos ou deixaria que eles continuassem a pensar erradamente? Paulo ouvira também, mas Paulo não se importava. Alexandre e Lilian não podiam saber, principalmente Lilian, tão vaidosa, tão bonita. Tinha tanta certeza da nobre estirpe dos Rodríguez que nem por um momento hesitou no que devia fazer. Fez um esforço para esquecer o mau momento. Voltou para o quarto do marido e sentou-se na poltrona ao lado do leito; ficou ouvindo os filhos e parentes que visitavam diariamente Alec. Mas não podia esquecer o que Dorita contara; a idéia a atormentava. E a filha contara com prazer, parece que se regozijara em dar a notícia desagradável. Olhou a filha quase com raiva. Mais tarde no salão verde, quando servia o chá a umas amigas que haviam ido visitá-la, o assunto recaiu sobre a chegada de Dorita. - E ela gostou da estadia na Europa? - Gostou muito, viajou bastante, estudou numa universidade inglesa. Depois percorreu várias capitais. Esteve mais tempo na Inglaterra e na Espanha. Quer chá com leite ou limão? - Com leite. Esteve na Espanha? E o que ela conta de lá? Vocês têm parentes na Espanha, não têm? Dora passou a xícara de chá. Sorriu. - Temos. Dorita visitou-os, passou temporadas com alguns deles. Disse que gostou muito da estadia que passou com uns primos, no campo. Quer um pedaço de bolo? - Um pedacinho, obrigada. Que interessante! E eles residem no campo? - Não. Residem na cidade, mas possuem um castelo na província, onde passam dois meses por ano, no verão. O verão em Madri é muito desagradável. Naquele instante, Dorita e Lilian entraram no salão. Uma das visitas continuou, dirigindo-se a Dorita: - Sua mãe estava falando sobre sua viagem. Gostou muito, não é verdade? - Gostei. Viajei bastante, fui com nossa prima Justina e como ela já residiu um tempo lá, conhece muitas cidades. - Ah! Sim? E que você me diz da Espanha? Era a primeira vez que visitava seus parentes? - Era sim, senhora. Fiquei conhecendo alguns muito simpáticos. A mãe interrompeu, apressada: - Dorita, sirva mais bolo para D. Adelaide. Mais um pouco de chá? E um sanduíche? Lilian falou, pressurosa: - Nem tivemos tempo de falar sobre isso, Dorita. Que tal nossos primos? Visitou-os em Madri? Mamãe sempre contava que eles residiam num palácio em Madri. Não é, mamãe? - É. Visitei-os lá mais de uma vez. Dorita esteve com eles no campo, perto de Salamanca. Lá eles passam grandes temporadas todos os anos. Não é, Dorita? Olhou a filha com firmeza, desafiando-a a desmenti-la. Dorita sentiu o olhar autoritário da mãe, cerrou os lábios e confirmou enquanto cortava um pedaço de bolo. - São simpáticos? perguntou Lilian, curiosa. A mãe tornou a responder: - Receberam Dorita de braços abertos. Eles são muito bons e apesar de pertencerem à mais alta aristocracia, são simples. Levaram Dorita a vários lugares nos arredores do castelo em que passam o verão; Dorita ficou conhecendo várias famílias da nobreza, aparentadas com os Rodríguez por outro ramo. Não é, Dorita? Foi a um jantar no castelo de um deles, um jantar finíssimo; a sala enorme, madeira pelas paredes, retratos de antepassados em tamanho natural. Durante toda a refeição, apenas a luz das velas no meio da mesa, aquela sala imensa toda escura ao redor; quase que havia um criado atrás de cada convidado. Tudo sóbrio, distinto… Dorita disse que aqueles retratos antigos, assim meio no escuro, até davam medo… - Oh! Que interessante… Interessante… A filha confirmou e ela continuou: - Todos muito gentis. Tire outro sanduíche. Lilian, ofereça os sanduíches de queijo. Dorita esteve contando ao pai tantas coisas bonitas a respeito dos nossos parentes aristocratas. São da mais nobre estirpe. Não é, Dorita? A filha confirmou. Lilian queria saber mais; se eram muito ricos, se eram simpáticos, se eram cultos. - Muito simpáticos e amáveis, gostei muito deles. Dorita falava sem levantar a cabeça da xícara, como se pedisse desculpas. A mãe procurou mudar de assunto: - Nós estaríamos lá agora, se não fosse a moléstia de Alec. Pretendemos seguir logo que ele melhore; temos tantas saudades de lá, dos nossos parentes e amigos da Europa… Como a moléstia prolongada faz a gente sofrer, não? Tenho tanta pena de Alec. A senhora sabe o que é isso, teve seu marido bem doente o ano passado… Dirigira-se a uma das visitas; depois a conversa se generalizou e esqueceram a viagem de Dorita. Naquela noite, a sós no quarto, Dora pensou consigo mesma no esforço que havia despendido para conservar a nobreza da família e sentiu-se de repente cansada, cansadíssima. Penteou os cabelos diante do espelho, depois dirigiu-se para o leito; deitou-se e em vez de apagar a luz, ficou pensando na grande desilusão sofrida. Onde estava aquela nobreza de que tanto se orgulhara sempre? Então não pertenciam à aristocracia? Dorita dissera que mandavam vender ovos no mercado de Salamanca… Oh! Dorita mentira. Dorita nada sabia, e sempre gostara de mentir, fazê-la sofrer. E depois prima Justina era má. Justina, a gorda. “Estou emagrecendo com um regime que descobri agora na Europa. Espantoso. Mira, já tirei três quilos e meio numa semana.” Puxava o cós da saia para a frente e mostrava o quanto havia emagrecido; mas parecia cada vez mais gorda, ombros roliços, rosto enorme, as pérolas graúdas enterradas nas carnes do pescoço, aquelas pérolas de que tanto se orgulhava… Satisfeita com a idéia de que Dorita mentira e prima Justina inventava estórias contra a família, por maldade, sorriu e estendeu o braço para apagar a luz; estava tão enraizada em Dora de Rodríguez a certeza da nobre linhagem da família, que em seu íntimo, duvidava do que a filha dissera. Dorita sempre gostara de mentir e de fazê-la sofrer. Sim, os Rodríguez pertenciam à mais alta aristocracia européia; tinha razão de se orgulhar. Fechou os olhos e procurou dormir; sentia-se novamente tranqüila e feliz. Capítulo 7 O pai não viveu muito depois da chegada da filha; a vida foi diminuindo lentamente naquele corpo outrora vigoroso e cheio de saúde. Dia e noite, Dorita permaneceu ao lado dele, animando-o, acariciando-o. A mãe confessou: - Se não fosse Dorita, não sei o que seria, já não agüentava mais. Queixava-se sempre de doente e nunca fez companhia ao marido; havia enfermeiros para tratar dele. Mas Dorita ficava; não abandonou o pai até o último instante, devotada, simples, curiosa. Apesar de sua aparência delicada, era forte e de uma energia invulgar nos piores momentos. Não foi necessária a segunda operação; enquanto os médicos esperavam que ele se fortalecesse, morreu. Morreu de repente, numa noite serena, Dorita ao lado. Ela ficava sempre assim, segurando-lhe a mão, dizendo-lhe palavras confortadoras; nessa noite, Dorita sentiu um aperto de mão mais forte, levantou a cabeça e olhou; estava morto. Ficou de pé e silenciosa, olhou o pai; depois foi chamar a mãe que dormia no quarto vizinho; o enfermeiro que se aproximara, tentava às pressas preparar uma injeção. - Mamãe, venha. Papai está muito mal. - Ah! Meu Deus, Dorita, sinto-me tão cansada, cansada de tudo. Há quanto tempo não tenho sossego? Quando viu Alec estendido no leito e o enfermeiro fechando-lhe piedosamente os olhos, teve um terrível acesso de dor. Lembrou-se do que o marido fora para ela e um remorso infinito entrou no coração de Dora. - Pensei que ele ainda fosse sarar, e viver muito. Se soubesse que iria morrer logo, teria sido mais dedicada. Oh! Meu Deus! Penso que o abandonei um pouco no fim, mas estava tão cansada… Dorita, tenha pena de sua mãe. Ajoelhou-se ao lado do leito e chorou desesperadamente, o rosto enterrado nas mãos. - Meu querido, nunca soube compreender você. Você foi muito melhor do que eu, Alec, você foi bom e humano; eu fui muitas vezes má. Fui egoísta, fui… Oh! Dorita, que farei sem seu pai? Dorita nunca a vira em tal estado; procurava consolá-la e tirá-la daquele desespero. Mas Dora Laura Vidal de Rodríguez sentia, somente naquele instante em que o havia perdido, tudo o que o marido fora para ela. Beijava a mão cor de cera que pendia fora da cama e suas lágrimas misturavam-se aos beijos e às palavras de arrependimento. - Meu querido, meu Alec, escute, meu marido, quero que me compreenda agora, agora que você foi embora, quero que me ouça e me compreenda. Eu nunca fui boa como devia ser. Há quanto tempo deixei de ser sua companheira? Não sei como fui abandonar você, eu que sempre, sempre te amei! Lembra-se, Alec, quando você ia me buscar na porta da escola? Eu tremia de alegria, de ansiedade, de amor; e quando você disse pela primeira vez que gostava de mim, quase morri. Quase. Ninguém pode imaginar o quanto te amei. Ninguém. Não posso compreender o que está acontecendo. Que responsabilidade a minha, sozinha, ter de lidar com os filhos e com os negócios. Não me abandone, por favor. Oh! por favor. Soluços doloridos embargavam-lhe a voz: - Eu ficava pensando em você a noite inteira: “Será que ele vem hoje?” Quando você chegava na chacarinha, vozes cantavam na minha alma. “Ele chegou, ele chegou.” Oh! Meu amor… Lilian entrou no quarto e toda aquela radiante beleza e mocidade encheram o ambiente de luz; ela se inclinou ao lado da mãe e disse com voz suave: - Mamãe, venha… Dora levantou-se e seguiu a filha, soluçando ainda. Passou os primeiros dias em grande abatimento; não queria receber ninguém, queria ficar só, com os filhos. Apertava a mão de Alexandre e chorava, achava-o parecido com o pai. Levantava-se, andava de um lado para outro. - E agora que vamos fazer? Ele vai nos fazer uma falta imensa, ele olhava tudo. Alexandre, você entende de negócios? - Mamãe, você parece criança. Em cada fábrica há um gerente, depois há o gerente-geral no escritório, eles sabem melhor do que nós do que se trata. Não se aflija assim. Mas ela se sentia aterrorizada. Tinha pavor de perder aquela fortuna que era a base principal da sua vida, o esteio que sustinha o luxo e a ociosidade da família. Passou horas sem sono, pensando: “E se ficarmos pobres, como iremos viver?” “E se os gerentes começarem a roubar?” Desconfiava da honestidade de todos. Mandou chamar o advogado da família e inquirou, perguntou, interrogou, quis detalhes de todos os negócios. Quando o testamento foi aberto e ficou a par da quantia que coubera aos filhos e a ela, respirou, aliviada. Sabia agora quanto tinha e quanto podia gastar. Era riquíssima. Ficou tão orgulhosa que mesmo aos parentes pobres, naquela ânsia de contar quanto possuía, naquela certeza de repetir sempre para se certificar, contou que possuía muito dinheiro, muito dinheiro. Toda a família repetiu às horas das refeições, uns aos outros, que Dora de Rodríguez herdara uma grande fortuna do marido. Dinheiro para jogar fora. Logo depois convidou Dorita para ir ao Rio: - Vamos espairecer, vamos sair um pouco. Se continuar aqui só pensando em Alec, morrerei em menos de um ano. Tinha naquela época, cinqüenta anos; era tratada, sempre muito bem vestida, um todo elegante. Pela primeira vez, Dorita sentiu certa afinidade com a mãe; condoeu-se daquele desespero, daquele sentimento de aflição diante do vazio que ficara depois da morte do pai. Acompanhou-a, devotada e submissa. Antes de seguir para o Rio, encontrou-se com Eduardo no Jardim da Aclimação; passaram uma tarde juntos, a primeira depois da chegada da Europa. Eduardo era o mesmo; formara-se e trabalhava numa fábrica, da qual era o químico principal.’ Haviam mantido uma correspondência assídua e sincera durante os quatro anos de separação. E nessa primeira tarde que passaram ao lado um do outro, Eduardo muito simplesmente, como se a amizade que os unia desde o tempo de estudantes, fosse o prenúncio de um amor profundo, propôs casamento a Dorita. De mãos dadas, sentados no banco predileto no recanto do jardim, ficaram algum tempo silenciosos; vendo-a assim, sem responder, ele perguntou: - Então? No silêncio imenso da tarde, ela só ouvia o próprio coração bater, descompassado. Durante aqueles quatro anos tivera tanto medo de perder Eduardo; amara-o sempre, mas nunca dera a perceber. Sabia que não era bonita, não tinha elegância, nem graça, nem vida; era uma pobre moça de aparência raquítica, um pouco estreita de ombros, sempre curvada para a frente. Também um pouco ridicularizada pela mãe e pelos irmãos; um pouco desprezada por todos porque tinha amigos de uma só qualidade: livros. Só o pai a amara e a compreendera; aquele pai, bom, admirável, que o destino levara tão cedo. Sem os conselhos dele, não sabia que fazer. Tinha receio do futuro, do casamento; ouvira, mais de uma vez, a mãe dizer: “Quem se casar com Dorita, casa-se por interesse. Coitada!” E Lilian repetia. Por isso fugia dos rapazes, das amigas, de tudo. Mas Eduardo era sincero, tinha certeza de que ele a amava; viu o rapaz ali ao lado, apertando-lhe a mão, esperando uma resposta. - Eu me casarei com você, Eduardo; vamos esperar passar o luto de papai. Gosto de você há tanto, tanto tempo… Beijaram-se pela primeira vez. Dorita voltou para casa, confiante, alegre, diferente. Ficou combinado que na volta da viagem ao Rio, ela falaria à mãe. Dorita ficou pasma. A mãe pesarosa, aterrorizada com a ausência do marido, a mãe que passava horas chorando e suspirando: “Que será de nós de agora em diante?” desapareceu por completo. No Rio, pensou logo em toilettes, admirou jóias nas vitrinas, recebeu amigas entre beijos e sorrisos, ofereceu chás, encomendou vestidos elegantes. “Como se pode transformar, assim de repente?” Dorita pensava. Bastou mudar de ambiente, a mãe esqueceu o passado. Só pensou nos dias que corriam: “Onde iremos hoje à tarde?” “Amanhã a costureira vem aqui provar meu vestido novo”. “Viu o chapéu de Fulana? Não gosto desse gênero, vou mandar fazer de outro modo”. “Se Alec estivesse aqui, nos levaria em tal lugar. Coitado de Alec!” E só. A filha impressionou-se; ficava olhando a mãe comer com apetite, falar com animação de coisas diferentes; dizia muitas vezes frases assim: “Quando eu tirar o luto… Vamos ver quanto falta”. E fazia apenas dois meses que o pai morrera. Dorita, que levara livros para ler em voz alta para a mãe, que pensara em mil subterfúgios, leves pretextos para distraí-la, fazê-la esquecer o sofrimento por que estava passando, ficou horrorizada. Olhou a mãe como se olhasse um monstro; monstro de egoísmo e vaidade. Nunca poderia compreendê-la. Aquela dor, demonstrada nos primeiros dias, não era sincera; era pânico, terror de não ter Alec ali perto para dar-lhe dinheiro, receio de perder a máquina que fazia girar toda aquela engrenagem que eram as fábricas; agora que sabia tudo assegurado, o futuro dela e dos filhos garantido em base sólida, esquecera depressa. Não deixava de ser a mesma mulher fútil, leviana, vaidosa, orgulhosa, que a filha pressentira em criança. Era ela mesma. Sentiu horror; procurou esquivar-se, falou em voltar para S. Paulo. Dora olhou admirada para a filha: - Então, não está gostando? Como você é ingrata! Faço tudo para ajudá-la a esquecer seu pai, sei que vocês se quiseram muito e você não reconhece meu esforço. Quer voltar para a nossa casa em S. Paulo e me ver sofrer, chorar, desesperar. Gente egoísta é assim. Gosta de ver os outros sofrerem. Não pode me ver alegre e distraída, eu que sofri tanto. justamente agora que eu estava começando a esquecer meu adorado Alec. Em S. Paulo morrerei de desgosto naquela mesma casa que vivemos juntos, tão felizes, tantos anos. Impossível. E chorava, o lencinho cobrindo os olhos. Dorita consentiu em ficar mais um mês; Alexandre e Paulo foram visitá-las algumas vezes. Dora ficava completamente feliz ao lado dos filhos; fazia grandes projetos. Só quando se lembrava que Dorita, a triste e feia filha, estava ali ao lado, suspirava e dizia com o semblante entristecido: - Meu pobre Alec. Que saudade tenho dele… De volta a S. Paulo, alguns meses depois da morte do marido, Dora reiniciou a vida social; dizia suspirando que seria impossível ficar dentro daquela casa e não receber ninguém; era preciso sair, fazer visitas, ir a teatros, convidar gente para jantar, do contrário sofreria muito. Foi quando Lilian veio com a novidade: Paulo se apaixonara. Ninguém sabia quem era a moça, diziam que era pobre e não era do mesmo meio. Dora alarmou-se: - Quem? Paulo? Tem certeza? Quem é a moça? Passou a observar o filho; seguia-lhe os movimentos, prestava atenção no que ele falava, queria saber onde ia, que fazia. Depois mandou que descobrissem quem era a moça. A resposta veio logo: era uma menina muito bonitinha e educada, filha de um funcionário público, residia numa casa modesta no bairro das Perdizes. O automóvel azul de Paulo era visto diariamente nas imediações; ele visitava a família da moça. Dora resolveu ser franca e falar com o filho; ele era o predileto, sempre fora. Sofria só em pensar que Paulo poderia se casar, mal completara vinte e dois anos; tinha medo, sabia o quanto ele era impulsivo, um temperamento apaixonado. E casar-se em outro meio, era incompreensível, não compreendia. Chamou-o uma manhã em seu quarto de vestir, circundado de espelhos; Paulo apareceu amarrando os cordões do roupão de seda: - Mamãe quer falar comigo? - Paulo, peço a você uma informação, uma só. - Pois não. De que se trata? - Quem é a moça que você está namorando? É coisa séria? Lembre-se de que é muito moço e casamento cedo não dá certo. Ele ficou um pouco assustado e olhou o rosto autoritário da mãe; resolveu levar o inquérito em brincadeira e sorriu: - Quem foi que contou a você? Dorita? - Não precisa saber quem foi, só gostaria de saber o que há nesse namoro. Acho você tão moço! Moço demais para se casar. Dava um tom indiferente à voz, mas era persuasiva, firme. Ele começou a andar pelo quarto, as mãos nos bolsos do roupão; parou diante de um dos espelhos e se observou demoradamente; sua voz também tinha um tom indiferente: - Que besteira! Isso é coisa de Lilian, a linguaruda da família. Lilian sempre gostou de novidades, mesmo que sejam mentiras. - Quem é a moça? - Que moça, mamãe? - Ora, Paulo, não se faça de tolo, a moça que mora nas Perdizes e que você visita todas as semanas, ou todos os dias, não sei bem. - Meu Deus! Como4. a informaram mal! Em primeiro lugar, nunca visitei ninguém naquele bairro, tenho um amigo que mora lá e às vezes vou buscá-lo para sairmos juntos. A moça que falaram para você deve ser uma menina muito distinta que eu encontro porque mora na vizinhança desse meu amigo, quase em frente. Não é minha namorada, não tenho nada com ela, mas admiro-a e respeito-a muito. Dora impacientou-se; percebeu que agora o filho não estava brincando; e se ele não levava mais o caso em brincadeira era mais sério do que ela julgava. - De que família ela é? - Família respeitável, mas pobre. Não tem brasões, nem dinheiro - aquilo de que mais gostamos… - Que idéia, Paulo. - Estou brincando. Falei só para ver você zangada. Fez uma leve carícia na testa enrugada de Dora. - Você pensa seriamente nela? Pensa em se casar? Ele riu-se: - Eu, casar? Longe disso. Tenho só vinte e dois anos e preciso gozar a vida. Quem falou em casamento? - Mas, visitando essa moça sempre, indo à casa dela, você se compromete; sei de muitos que começaram assim e acabaram casando. - Eu não visito Luisinha. Quem falou, mentiu para você. Às vezes converso com ela na rua, quando a encontro. Muitas vezes em companhia do meu amigo. E é só. - Então chama-se Luisinha? Mas se esses encontros com ela são repetidos, não são casuais. Tenha cuidado. Gente dessa… desse meio, acha que quem conversa na rua, está comprometido… Ia dizer: “Gente dessa laia!” Na mesma noite, Dora teve uma idéia e resolveu pô-la em execução no dia seguinte; telefonou para a moça e convidou-a para tomar chá; não na cidade, numa confeitaria de bairro e “o melhor será às três horas, assim não haverá ninguém para interromper nossa conversa; preciso falar com você”. A moça ficou com o coração trêmulo. Que seria? Que teria a mãe de Paulo para falar tão particularmente? Foi à hora marcada; viu um automóvel preto e luzidio parar à porta da confeitaria e descer uma senhora muito elegante e ainda bonita. Apresentou-se um pouco assustada e foi dizendo: - Eu sou Luisinha… Teria uns dezessete anos, bonita e modesta. Entraram na confeitaria, deserta àquela hora, e sentaram-se numa mesa de canto; Dora encomendou chá e sanduíches, imaginou que a menina devia ter apetite, decerto passavam mal em casa, eram tão pobres. Luisinha tinha um sorriso trêmulo e não sabia o que a esperava. Dora começou: - Decerto você se assustou com meu convite, não sabendo do que se trata; quero falar sobre Paulo, meu filho. Fez uma pausa ao ver que a moça enrubescia. Depois prosseguiu: - É melhor ir direto ao assunto, não adianta retardar com subterfúgios. Você e Paulo namoram-se, não é verdade? Paulo falou em casamento? A moça mexeu-se na cadeira e olhou para os lados; Dora sorriu com meiguice: - Seja franca comigo, lembre-se de que eu podia ser sua mãe e estou aqui para auxiliá-la. Quem mais do que eu deseja a felicidade de meu filho? Luisinha gaguejou: - Por enquanto não está nada certo, D. Dora. Combinamos nosso casamento para daqui a dois anos, mas nada está definitivo. Ele disse que… Dora interrompeu-a fazendo breve gesto com a mão: - Sabe, Luisinha, o que são os rapazes de hoje? Os olhos da moça arredondaram-se de espanto; não pôde responder porque o garçom estava colocando as xícaras e o bule de chá sobre a mesinha. Dora pensou um instante no que estava fazendo; seguindo a inspiração do momento, resolvida a fazer tudo para impedir aquele casamento, continuou: - Eu não devia falar certas coisas, mas também não posso calar; Paulo é bom; é ótima pessoa e ótimo filho, mas… tem suas leviandades de rapaz. Não sei se ainda continua, mas sei que há tempos ele andou com uma mulher casada. Ela sabia que Alexandre, o mais velho vivia com uma mulher há três anos, mas nada sabia a respeito de Paulo. Fez uma leve carícia na mão que Luisinha conservava sobre a mesa e continuou: Se lhe conto isso é para seu bem, unicamente para seu bem. Se acontecesse isso com uma filha minha, eu agradeceria quem me dissesse a verdade. Ele, naturalmente, pretende deixar a mulher para casar-se com você, mas tenha cuidado com rapazes que têm ligações antigas; voltam para elas mais tarde ou mais cedo. Tenho idade e experiência, minha filha. Há exceções, como em tudo, mas… Veja, falo a você como se fosse minha filha. Já lhe quero bem. Serviu o chá e passou a xícara para a moça; tomou uns goles enquanto observava Luisinha. Que suas amigas pensariam ao vê-la naquela pobre confeitaria de bairro, um pouco suja e escura, diante daquela mocinha modestíssima? A moça tomava o chá em golinhos miúdos, sem levantar os olhos da xícara. Não aceitou sanduíches. - Muito obrigada, a esta hora não como nada. Dora tornou a falar: - Sabe a minha idéia principal? Por que chamei você e contei essas coisas? Desejaria que você se afastasse dele, deixasse o tempo correr; se ele gostar realmente de você - com certeza gosta muito porque você merece - ele casa com você. Ah! Isso nem que o mundo venha abaixo, conheço-o bem, é meu filho. Mas afaste-o um pouco agora; não convém continuar esses encontros, esse namoro, se ele ainda vai à Europa e ainda tem essas atrapalhações na vida dele. Sabia que ele vai à Inglaterra? Os lábios de Luisinha tremeram um pouco quando respondeu: - Não sabia. - Pois vai. É coisa assentada; vai um pouco para se divertir e um pouco por causa dos negócios. Apesar de ser meu filho, não quero que uma moça distinta como você seja iludida. Quase todos os rapazes hoje, principalmente os que têm algum dinheiro, fazem dessas coisas, e às vezes se prendem para o resto da vida. A princípio, pensei que ele estivesse namorando uma moça qualquer e não me importei; quando soube que sua família é respeitável e distinta, pensei: “Tenho que falar, fazer alguma coisa, não quero que essa família seja enganada por meu filho. Depois terei remorsos para o resto da vida, se não agir”. Por isso estou aqui. Não sei o que você há de pensar da minha atitude, mas creia, Luisinha, que é para seu bem. Unicamente para seu bem. Um rapaz rico é, às vezes, um irresponsável; não digo que Paulo seja assim, mas você sabe, foi criado com muitas facilidades… Eu e meu marido fizemos mal em dar certas liberdades aos filhos, às vezes um pouco de dinheiro demais. O resultado foi esse, infelizmente. Não quero dizer que temos fortuna, mas o pouco que tínhamos, sempre dávamos aos filhos, fomos liberais demais para eles. Esse foi o mal. Acho que você, sendo uma moça ajuizada e inteligente, deve afastar-se dele por enquanto. Apenas por enquanto porque, como eu disse antes, se o amor de Paulo por você for sincero, ele casa-se logo que voltar da Europa. Será para mim um dia feliz. - Muito obrigada, D. Dora. Agradeço muito. Dora tomou outro gole de chá e baixou a voz porque um casal acabava de entrar. Continuou a falar baixinho, como se cochichasse: - Outra coisa: quero avisar você que Paulo sempre diz que só gosta das coisas difíceis e só se casará com a moça que o desprezar, que se mostrar indiferente. Tudo o que é fácil para ele, não tem valor. É apenas um conselho de mãe que estou dando. Desejo muito que Paulo case com uma moça distinta e bonita como você, por isso faço tudo que posso para que se realize esse desejo de ver você e ele casados. - Obrigada. - E essa nossa conversa deve ficar em segredo, não fale a ninguém, nem a seus parentes, nem à sua melhor amiga. Fez uma pausa. - Não acha melhor assim? - Acho sim senhora. - Promete não repetir a ninguém o que falamos hoje? - Prometo. Dora insistiu: - Não quer mais um pouco de chá? Está bem gostosinho. Agora quero que fique bem claro uma coisa, Luisinha. Não chamei você para contar novidades a respeito de Paulo como quem diz: “Quero que Paulo acabe com esse namoro”. Nada disso. Quero apenas que você saiba a verdade e deduza por si como deve agir. Você é uma menina criteriosa e sensata, deve saber como agir diante dos fatos que acabo de relatar. Apenas contei a verdade. E digo mais: minha maior felicidade é ver você e Paulo casados. As moças da sociedade que ele freqüenta não me agradarão como você me agrada; em geral são levianas, fúteis, só pensam em divertimentos, em luxo. Meu ideal é ver meus filhos felizes e bem casados e sei que você daria uma nora admirável. Luisinha corou ante o elogio. Dora tomou outra xícara de chá e baixou mais a voz, o semblante entristecido: - Tenho tido algum desgosto por causa de Paulo; é um bom rapaz mas não deixa de ter suas leviandades. Tenho passado horas de insônia por causa dele. Sorriu amavelmente: - Mas creio que você conseguirá o que eu não tenho conseguido até hoje, nem com conselhos, nem com carinhos. Olhou à volta e continuou: - Espere o regresso da Europa; ele parte o ano que vem e pretende voltar um ano depois. Até lá, quem sabe, tudo estará mudado e ele mais sensato; então será uma tranqüilidade vê-lo casado com você. Chamou o garçom mostrando-lhe os sanduíches que não haviam sido tocados, pediu que descontasse da nota. Pagou e levantou-se; abraçou demoradamente a moça com palavras de animação e amizade. Despediram-se. De volta para casa, pensou que seu plano não podia ter sido melhor e podia dormir tranqüila. A tranqüilidade de Dora não foi de longa duração; uns dias depois Dorita apresentou-se e pediu consentimento para casar-se com Eduardo. Dora levantou a cabeça e fitou-a: - Quem é esse Eduardo? - Um engenheiro químico, trabalha numa fábrica de tecidos. - E quem é a família dele? É conhecida? Família boa? - Só conheço Eduardo desde os tempos de estudante. Nada sei da família, sei apenas que mora no interior. Família Meneses. - Como é que quer casar-se com um rapaz sem saber de que família é? Nem os antecedentes? Nada? - A senhora pode mandar tomar informações, mamãe. Dora queria mais esclarecimentos: “Não posso deixar minha filha casar-se assim com qualquer um”. Dias depois, chamou Dorita: - Escute uma coisa, você não pode casar com esse rapaz, o tal não sei o que Meneses. Dorita empalideceu. - Por que, mamãe? - Soube muitas coisas que não posso estar explicando a você, só posso dizer que a família dele não é grande coisa pelo menos as informações são essas. - Mas eu não vou casar com a família, vou casar com ele - Eduardo. - Não venha com argumentos descabidos. A família é parte integrante dele e nem que você queira separar um do outro, não pode. - Mas, mamãe… - Não insista. Eu sou sua mãe e se faço isso, é para seu bem. -Quem melhor que a mãe para aconselhar e proteger os filhos? Dorita levantou a cabeça e encarou a mãe: - Já sei. A senhora não quer porque eles são pobres; eu sei que os pais de Eduardo são muito pobres e ele os auxilia. A mãe encolerizou-se: - Você fala como se eu só pensasse em dinheiro. Que importa o dinheiro para mim? Fique sabendo que a última coisa que me preocupa é dinheiro; há muitas coisas mais importantes e eu sei disso. - Então por quê? A senhora precisa explicar, não sou nenhuma criança. - Basta dizer que não é do meu agrado e peço a você que não pense mais nisso. Houve um silêncio. Dorita voltou-se: - A senhora diz: “não pense mais nisso”, como se dissesse não leia este livro, não vá a tal lugar, não estude tanto. Esquece-se de que Eduardo e eu nos queremos há muitos anos e não se pode esquecer uma pessoa assim como quem põe um livro de lado. Conheço-o há quase oito anos, conversamos muitas vezes, trocamos idéias, combinamos perfeitamente um com outro. Sei que está formado em Química, e trabalha há dois anos numa fábrica. Tem ordenado regular. Que mais a senhora quer? Só porque não é do seu círculo? Das suas amizades? - Não quero esse casamento e penso que disse tudo. - Mas o motivo, o motivo? Queria que a senhora dissesse por que não quer. Tudo na vida tem que ter um motivo, uma razão de ser. Por que não quer? Dora levantou-se e andou pela sala verde: - O motivo? Quer saber o motivo, não é? Quer saber a razão por que não dou meu consentimento? Pois vai ouvir: a família de Eduardo não é branca. Tenho certeza disso porque andei tomando informações. Disse tudo. Falou pausadamente, parada em frente à filha; Dorita sentiu o sangue subir-lhe ao rosto. - Não acredito. Mentira de quem falou; ou então a senhora inventou isso de propósito, não acredito. - Dorita! Pensei que você não fosse tão ingrata ou fosse mais inteligente. Se falo isso é para seu bem, menina! Os filhos são assim; faz-se o que se pode por eles e eles nos chamam de mentirosos. Imagine eu inventar isso de propósito?! Com que fim? Por quê? Pois meu maior desejo não é ver a felicidade de vocês todos? Quero evitar a você uma vergonha para o resto da vida. Pense nos filhos, Dorita, podem sair mulatos! Que coisa horrível! É para seu bem que estou falando, para garantia do seu futuro. Andava de um lado para outro, nervosamente. Dorita deixou a sala e foi chorando para o quarto. Só apareceu na tarde do dia seguinte; procurou a mãe para dizer-lhe: - Mamãe, mesmo que seja verdade o que a senhora disse ontem, eu quero casar com Eduardo. Se Dora tivesse levado uma bofetada, não se assustaria tanto; fitou a filha, boquiaberta, olhos dilatados. Depois procurou acalmar-se para perguntar: - Sabe bem o que está falando? Compreende o alcance de suas palavras? - Como não? Tive a noite toda para pensar. Sei o que estou falando. - Sempre atrevida! Sempre pensando que o pai estará aqui para defendê-la” para mimá-la. Mas ele não está e você não se casará com um homem que poderá ser a vergonha da família. Nunca! Prefiro ver você solteira a vida inteira, ou dentro de um convento, a vê-la casada com tal homem. Dorita crispou as mãos, um ar aflito; falou quase gritando: - Por que falar “tal homem”? A senhora precisa conhecê-lo para depois julgá-lo. Ele não é o que a senhora está dizendo, não é. - A família dele é, tenho a certeza. E digo mais uma vez: não admito esse casamento. Nunca darei meu consentimento; nem seu pai daria, se fosse vivo. - Como se pode falar de uma pessoa sem conhecê-la? É uma leviandade falar-se de alguém só porque outro contou que é assim… como a senhora disse. Não compreendo certas coisas que a senhora faz. - Ah! Então se atreve a me julgar? Chamou-me de mentirosa, agora me chama de leviana. Também que mais esperar de filhos ingratos? - Eu não disse nada disso. Só disse que a senhora precisa conhecer Eduardo; sem conhecer, não pode julgar. Ninguém pode. Antes que a mãe respondesse, ela deixou a sala novamente e fechou-se no quarto. Dora mandou chamar Lilian e reuniu os filhos; Dorita não apareceu. Contou a todos a loucura da filha e pediu que a aconselhassem; só em pensar que Dorita queria se casar com o rapaz de qualquer maneira, deixava-a desesperada. Lembrou-se da prima Justina. Oh! Como seria bom se pudesse pedir conselhos à prima Justina, mas ela morrera um ano antes, diziam que de desgosto. Justina Maria da Conceição de Rodríguez Delgado tinha dois segredos que a consumiam: não se ter casado pela segunda vez e não ter conseguido emagrecer. Mas havia um terceiro segredo na vida de Justina Maria da Conceição e esse a matou: o famoso colar de pérolas que arrancava gritos de admiração nos salões e atraía olhares de cobiça e inveja, já não tinha o mesmo valor; desde que haviam aparecido as pérolas cultivadas, as maravilhosas pérolas orientais haviam caído para um segundo plano e isto fez prima Justina sofrer até a morte. Seu sofrimento chegara ao auge quando, um dia, uma senhora que a conhecera na véspera, apontou um dedo mimoso para seu pescoço e perguntou: “Onde comprou esse colar admirável? São pérolas cultivadas, não são?” Foi o máximo que ela pôde suportar. Sua vaidade de mulher fora atingida em cheio, no que ela possuía de mais precioso, de mais caro. No dia seguinte começou a definhar e emagrecer; e emagreceu sem regime, o que era espantoso. Os olhos afundaram-se, seu rosto grande e gordo foi afinando e diminuindo. Toda a família prestou atenção em prima Justina. Que seria? Com espanto soube que ela não comia um frango em cada refeição, agora comia meio frango. Não comia mais creme, apenas café. Que seria? Os Rodríguez seguiam com interesse o que estava acontecendo; em duas semanas, ela perdera cinco quilos; nunca emagrecera tanto em tão pouco tempo. Outras mulheres gordas apareceram para pedir-lhe conselhos, queriam conversar com prima Justina, saber qual o milagre que havia tirado os quilos de sobra; ela apenas sacudia a cabeça e dizia: “Nada, não estou fazendo regime algum. Estou emagrecendo sem saber por quê. Mira”. Puxava o cós da saia para a frente e desta vez cabiam quatro dedos entre a camisa e a saia. Todas admiravam e deixavam a casa com raiva. “Ela não conta o segredo”. Então que seria? Não podiam imaginar a verdade. Ela então, a sós, apalpava com os dedos grossos o maravilhoso colar que a estava matando, os olhos cheios d’água. Definhava dia a dia. Uma manhã, os jornais trouxeram a notícia da revolução espanhola; prima Justina esqueceu o colar por algum tempo e pensou na revolução. Quando olhava o mapa da Espanha que estava pregado na parede de sua saleta, via o país nadando numa onda de sangue; a onda encrespava-se e se movia de um lado a outro, levando a Espanha no tope. Era horrível. No dia seguinte, os jornais trouxeram más notícias: “Os aristocratas espanhóis refugiam-se na França”. Ela pensou na fuga através dos Pireneus, deixando atrás de si, bens, castelos, jóias, quadros de Velásquez. Pensou em morrer. Procurou primo Isidro, desde que primo Fernando que era mais compreensivo, já morrera. D. Isidro, preocupado com a fortuna que ainda lhe restava, só pensava em como preservá-la; em todas as horas do dia, puxava para fora do bolso seu grosso rosário de contas negras e rezava alto, cheio de contrição. Não se importava muito com o que se passava na Espanha, lá não possuía terras, nem bens, nada a não ser parentes. “Ora, os parentes que se arranjassem”. Prima Justina esqueceu a revolução e voltou ao colar. Desde que não surpreendera mais olhares cobiçosos sobre seu pescoço, definhava. Nem Dora, a viúva de Alec Rodríguez, a sobrinha ambiciosa e vaidosa, a tratava com deferência e respeito como nos outros tempos. Era horrível. Era como se sua vida fosse fugindo através das contas do colar de pérolas. Ficava cada dia mais triste e mais magra; continuava a apalpar as pérolas no pescoço que se afinava dia a dia e a chorar. Uma tarde teve congestão cerebral. Não pôde mais se levantar; ficou estendida no leito, indiferente a tudo, só desejando a morte. Quando D. Isidro soube, levou um padre para confessar prima Justina, ela não se importou; nada mais a importava. O padre preparou-se para dar comunhão; inclinou-se e falou alto para que ela ouvisse bem: “D. Justina, vou dar-lhe a comunhão. Deve se arrepender de todos seus pecados, pense em Nossa Senhora e São José”. Prima Justina não parecia ouvir. “Está ouvindo, D. Justina? Vai tomar a Santa Comunhão, pense em São José”. Prima Justina, olhos fechados, bocejou ruidosamente e não respondeu. Depois da comunhão e das rezas, quando o padre deixou o quarto, sua mão procurou vagarosamente o pescoço; o colar não estava ali. Abriu os olhos e moveu os lábios para perguntar: “Meu colar?” Só isso tinha importância para prima Justina, mesmo na hora suprema. Colocaram o colar no pescoço emagrecido e assim prima Justina fechou os olhos para sempre, apalpando o precioso colar que a matara. D. Isidro ainda viveu por algum tempo; foi o que viveu mais. Rezava muito, tomava bons vinhos e comia bem; quando encontrava os parentes, queixava-se do custo da vida, de tudo tão caro e tão difícil; seu rosto mostrava uma expressão de pesar: “Não podia comer o que desejava, por causa do preço”. Mas comia o que queria; levantava-se de madrugada, ia ao mercado, pechinchava, pesava, escolhia, apalpava e comprava peixes e frangos. Um dia morreu de tanto comer e beber; foi como se tivesse arrebentado, nem teve tempo de tomar, entre as mãos, o grande rosário de contas negras. Dos Rodríguez que haviam vindo da Espanha há muitos, muitos anos, assim morreu o último, num estouro. Dora resolveu procurar uma das cunhadas, raramente a procurava, mas agora precisava do auxílio de todos. Foi à casa de Jane e contou “o caso de Dorita”, depois pediu um favor. - Que poderei fazer? perguntou a cunhada. Jane, que havia sido muito viva e muito inquieta na mocidade, era agora uma senhora calma, de aspecto sereno; tinha um rosto repousante. Criara os filhos e acompanhava com carinho a vida dos netos. Fazia parte de comissões para obras de caridade, jogava bridge nas horas de folga, dirigia a família com energia e amor. Estava àquela tarde fazendo tricô para o último netinho, quando viu a cunhada entrar, afobada e nervosa. Tirou os óculos, fitou-a: - É bem difícil o que você está me pedindo; não sei se poderei fazer, Dora. - Pode falar com a consciência tranqüila porque é verdade; dizem que ele viveu alguns anos com uma moça e depois a abandonou, parece até que tem um filho, não sei bem, só sei que não o quero para genro. - Tem certeza que é verdade? Jane encarou Dora firmemente. - Absoluta. Você sabe que eu poderia contar tudo isso a Dorita; mas se eu falar, não acreditará. Poderá pensar que inventei; você contando é diferente, tenho certeza de que trará bons resultados. - Mas é horrível falar mal de uma pessoa que não se conhece. - Não acredita em mim? Estou falando a verdade. - Acredito em você, mesmo assim é horrível, não sei se terei coragem. Sabe de uma coisa? Você é que devia falar, você ou Lilian. - Como não tem coragem? Prefere vê-la casada com um ordinário? Além de tudo de família de cor? Eu conheço Dorita e sei que ela está disposta a casar; devemos fazer tudo para evitar essa loucura. Se eu ou Lilian falarmos, ela não acreditará, tenho certeza. - O que você me pede é bem difícil. - É por amor dela mesma que você vai falar, é para livrá-la desse casamento infeliz. Tudo que falei é verdade, não precisa ter remorsos depois, pode contar com a consciência tranqüila. Jane hesitava, as mãos ocupadas com as agulhas. - Você é que deve falar, Dora. Não terei coragem para isso. Quero muito bem a Dorita, talvez por isso não possa fazer uma coisa dessas. Dora exaltou-se; seus olhos brilharam de cólera: - Como? Pensei que fosse minha amiga e pudesse contar com seu auxílio. Já disse que só você falando, Dorita acredita. Ela é muito desconfiada, mas quer bem a você e acredita em tudo que você fala. Se você não falar, a quem hei de pedir? Quando a gente pensa contar com uma pessoa, essa pessoa falha. Oh! Meu Deus! Jane refletiu um pouquinho, depois prometeu chamar Dorita e fazer o possível para explicar-lhe a verdade. Dora deixou a cunhada, dando-lhe um tapinha amigo nas costas: - Tinha certeza de que podia contar com você. Obrigada. Jane pensou muitos dias antes de chamar a sobrinha, mas Dora era imperiosa, autoritária, voltaria para saber o resultado da entrevista. A moça chegou de manhã em casa de Jane; beijou-a e tirou-a do embaraço perguntando de súbito: - A senhora mandou me chamar? Será para falar de meu casamento com Eduardo? Toda gente agora só me fala disso. - Sente-se aqui ao meu lado e vamos conversar. Vejo que você pressente os fatos de longe, é uma menina inteligente. Ela riu-se, um pouco constrangida; Jane percebeu receio nos olhos dela. - Que há, tia Jane? - Dias atrás, seu tio ouviu umas conversas referentes a Eduardo. Muita gente já sabe do seu quase noivado, de modo que o fato é bastante comentado. Mas creia, Dorita, fiquei bem triste, o que seu tio ouviu não é nada lisonjeiro para seu noivo… Jane não sabia como continuar; os olhos de Dorita estavam fixos com ansiedade em seu rosto. - Ele… parece que houve um caso qualquer na vida dele, não sei bem como foi, parece que teve uma complicação com uma moça, qualquer coisa assim. Resolvi contar tudo e assim você fará como entender, é melhor você saber essas coisas. Não sei, falam tanto, pode ser que nem seja verdade; o melhor é indagar o mais possível, não acha? Jane olhava para a frente, seguindo o movimento de uma mosca a debater-se contra a cortina da janela; evitava o olhar observador da sobrinha. Houve um minuto de silêncio; quando a tia olhou para Dorita, ela estava com uma ruga funda entre os olhos, os lábios brancos e um ar pensativo. A tia acariciou-lhe as mãos num gesto bondoso. - Oh! Dorita, é horrível o que estou fazendo, bem sei, mas precisava falar. Disseram que é verdade, apenas transmito a você, mas duvido. Francamente duvido muito. Nem conheço Eduardo, como posso saber? Os lábios da moça estavam fortemente cerrados; descerrou-os para falar: - Não se aflija, tia Jane. Não estou aborrecida, pode crer. Estou pensando quem inventou toda esta história, pois acho que é mentira. Não acredito. Jane respirou profundamente aliviada e sorriu: - Você deve conhecê-lo melhor que ninguém; há quanto tempo se namoram? - Há oito anos nos conhecemos e durante os estudos convivemos intimamente. Conheço bem Eduardo, é incapaz disso que falaram. É calúnia, tia Jane. É calúnia. Inventaram tudo para eu não me casar com ele, são capazes de inventar até coisas piores… Mas nada acredito. Eu o conheço bem. Sei de pessoas que são capazes de pagar, dar dinheiro a gente sem escrúpulo para falar mal de Eduardo nas praças públicas. Conheço bem essas pessoas. Tudo mentira. Só há uma coisa que me perturba, me deixa às vezes triste, inquieta, sem saber que fazer. - Que é? perguntou a tia. - Meu dinheiro. Receio que ele saiba que sou muito rica e só queira casar por interesse. Ouvi uma vez mamãe dizer a Lilian que se alguém casasse comigo, seria por interesse. - Oh! Sua mãe disse isso? Quem poderia acreditar, Dorita? Nem pense uma coisa dessas. Se fosse por dinheiro, ele teria casado há muito tempo com você; não esperaria formar-se e ganhar, para casar. Tenho certeza disso, pode ficar sossegada. - Mas de qualquer jeito, eu me caso com Eduardo, mamãe queira ou não. Havia tal força de vontade no olhar, nas palavras decisivas de Dorita que Jane ficou olhando, admirada. Pensou consigo que Dora nunca venceria a vontade férrea da filha; encontrara alguém mais forte que ela. Jane começou a fazer tricô apressadamente, contente consigo mesma. Falou sobre assuntos diferentes, depois, convidou a sobrinha para almoçar. - Fique para o almoço, estou sozinha hoje. Vicente viajou, os meninos estão em Santos. Mais tarde, não pôde deixar de lembrar: - Desde que você era pequena, diziam que você era fraquinha; sofria de anemia e tantas outras coisas. Hoje penso que foi um engano, todos se enganaram. Você é fortíssima, Dorita. É a mais forte da família e sua força está aqui, olhe. Com o dedo, apontou a testa da sobrinha. À tarde, Dorita voltou para casa, teria uma conversa decisiva com a mãe. Foi encontrá-la no salão verde, tomando chá, sozinha. A amiga que ficara de vir, telefonara à última hora, desculpando-se. Quando Dora viu a filha entrar, percebera que alguma coisa ia ocorrer; não sabia se pela atitude enérgica da filha ou pelo olhar que ambas trocaram. ofereceu-lhe chá com voz terna: - Quer um pouquinho? Ainda está quente. Dorita aceitou a xícara com dedos trêmulos. - Um bolinho? Um sanduíche? Tanta coisa gostosa e Adélia não veio. Disse que o marido resolveu ir para o Rio de repente e ela ficou toda atrapalhada, tinha muita coisa para preparar. - Não quero nada, obrigada. A voz era seca, firme, parecia cortante. - Esteve dando umas voltas? Esse não é aquele vestido do ano passado? Ainda está na moda, sabe disso? Dorita confirmou com a cabeça. Lá fora, a tarde desmaiava em cores outonais; tudo tinha o tom da folha seca; o solo, o ar, o jardim, as árvores, os arbustos. A casa estava em silêncio. Os filhos ainda não haviam chegado, as filhas de Lilian que visitavam a avó todos os dias depois das aulas, ainda não haviam aparecido. Tudo era paz dentro de casa e no espaçoso jardim que a rodeava com gramados, canteiros e dois velhos carvalhos cobertos de hera. Dorita colocou a xícara sobre a mesinha. Encarou a mãe resolutamente: - A senhora está fazendo o possível para me separar de Eduardo e eu digo que tudo é inútil. Dora voltou-se na cadeira; procurou dar calma à voz: - Eu? Eu não faço nada. Os fatos é que se sucedem impedindo que vá por diante sua idéia; eu nada faço senão ouvir o que me contam. Tenho meu serviço de informações bem organizado, só isso. - Seu serviço de informações é uma sucessão de mentiras, ou é sua própria imaginação que trabalha contra mim. Mas uma coisa pode acreditar: nada fará mudar minha atitude. A voz calma de Dora transformou-se na voz metálica que a filha conhecia tão bem: - Tem coragem de me dizer que tudo é mentira ou produto da minha imaginação? Eu esperava muita coisa de você menos que me chamasse de mentirosa. A xícara que ela colocou sobre a mesinha, tilintou sobre o pires. - Mas a senhora mentiu. - Cale-se, Dorita. Cale-se. - Agora não me calo mais; tenho que falar tudo que guardei durante muitos anos. Tenho que desabafar meu sofrimento, minha mágoa, minhas tristezas, todas as injustiças que sofri. Sou uma recalcada, isso é que sou. E por sua causa. Respirou forte e continuou: - A senhora nunca se importou comigo, a senhora tinha vergonha de mim porque eu era feia, fraca, doente… A mãe escondeu o rosto entre as mãos, horrorizada. - O único que me compreendeu nesta casa foi papai. Papai teve pena de mim, papai me compreendeu, papai percebeu minha situação desde que eu era pequenina, desde meus três anos. Eu pareceria uma enjeitada nesta casa, se não fosse papai. Aos dez anos, ficava pensando muitas vezes, se seria de fato sua filha, pois era diferente dos outros e era tratada de um modo também diferente. Não podia compreender como Lilian, Alexandre, Paulo eram bonitos, fortes e eu feia, fraca. Percebi logo que a senhora tinha raiva quando era obrigada a me mostrar às suas amigas. Dizia: “Esta é minha segunda filha”, até sua voz era diferente quando falava de mim. Quando íamos para o Rio ou Guarujá, toda a gente que passava queria saber quem era Lilian e pedia licença para tirar o retrato dela, nem olhavam para mim. A senhora ficava orgulhosa por causa disso e quando me via ali de lado, meio desprezada, a senhora também me desprezava. A senhora negaria, se pudesse, que eu era sua filha também. Uma vez ouvi a senhora dizer no Rio para uma sua antiga amiga que não via há muitos anos: “Esta é a segunda geração dos Rodríguez brasileiros”. Mostrou os três filhos bonitos; eu estava brincando num canto do jardim, a senhora fingiu que não me viu e não me chamou. Percebi tudo isso e muito mais. Ficava desesperada quando tinha que me mostrar, me apresentar aos outros. Desde cinco, menos até, quatro anos, sinto inferioridade em tudo. Até as governantes me tratavam com desprezo porque viam a senhora me tratar assim. Só papai teve sempre carinho por mim, papai sempre foi bom e compreendeu, por isso morreu cedo. Coitado! Até elo não suportou este ambiente, por isso criou outro lar fora daqui. A mãe levantou a cabeça violentamente; perguntou, a voz embargada: - Que está falando? Enlouqueceu? - A verdade. Durante muitos anos, papai teve outra casa, onde ia todos os dias. Soube um dia, por acaso…. Ele dizia que tinha negócios e mais negócios, ele não era feliz aqui, essa é a verdade. - Mentira. Não calunie seu pai, não manche a memória dele. Fale dos vivos que podem se defender, fale de mim quanto quiser, mas dele não, é sagrada a memória dele. Não fale. Dorita continuou como uma sonâmbula, sem ouvir a mãe. - Eu soube por acaso e dei razão a ele. Nesta casa ninguém poderia ser feliz, tudo tinha que ser abafado pela senhora. Parece que só a senhora tinha direito à felicidade. Tudo que papai gostava, a senhora aboliu; o cachimbo ele só podia fumar no escritório; aqui e na sala de jantar não, por causa do cheiro… Dei razão a ele… A mãe levantou-se e aproximou-se da filha como se fosse bater-lhe: - O que está falando? Está inventando calúnias, mentiras. Alec seria incapaz disso… Não insulte seu pai. - Tenho pena de ter contado um fato que a senhora ignorava, pensei até que a senhora soubesse. Muita gente sabia disso; Alexandre também. - Você está louca, Dorita? Ou você é miserável? Está me contando para me fazer sofrer? Você faz de propósito, sabe que eu ignorava e agora diz que tem pena de mim. Você é má e egoísta, não parece minha filha. Apoiava-se na mesa ao lado, nervosa e aflita. - Não sei se sou má, só sei que sou sua filha; se sou assim egoísta, é porque sou sua filha. Depois, apareceram vários casamentos para Lilian; a senhora fez tudo para ela se casar com Francisco porque Francisco era rico, apesar de ela gostar de outro naquele tempo. E se a senhora diz que a família de Eduardo não é branca, tenho certeza de que a de Francisco também não é. Mas é rica… - Cale-se, mentirosa. Isso é calúnia… - A senhora dizia: Lilian, minha filha, quem se casar com Francisco terá tudo; jóias, automóvel, dinheiro, casas. E no mundo em que vivemos, os bens materiais são os mais importantes, são os que têm valor. Apesar de dizerem que o dinheiro não traz felicidade, eu sei que traz porque comigo foi assim. Disse frases como essas durante meses, até Lilian decidir por Francisco; ela gostava do outro, a senhora sabe. Aceitou Francisco de tanto a senhora falar na riqueza dele e na vida feliz que ela iria ter. “Ele é riquíssimo, você terá tudo que imaginar”. Qual a moça que não ficaria tentada? Papai via tudo isso com reprovação, mas nada podia fazer, só a senhora queria mandar em todos nesta casa, queria dominar, ordenar. Ele foi ficando cada vez mais desgostoso e foi se sentindo infeliz. Muitas noites ficamos nós dois, ele e eu nesta sala ou então no escritório, sozinhos. Ele dizia: “Dorita, parece que a gente não tem lar, está sempre abandonado”. Eu tinha pena dele; a senhora vivia nas festas e nas reuniões, com Lilian, não se importava com ele. Ele começou a sair, a não ficar em casa; a senhora só queria o dinheiro que ele dava, olhava papai como uma máquina de fazer dinheiro. Ele sentiu isso, por isso fugiu. - Tudo isso é mentira. Você é egoísta e má, fala tudo isto para me magoar, me fazer sofrer. Não abandonei seu pai; fiz tudo para ele sair comigo, ele é que não queria; fiz tudo por você também: tratamento, ginástica, banhos de mar, massagens. Chamei os melhores médicos, fiz o que pude por sua saúde. E agora… A mãe começou a soluçar, sentada na poltrona verde; seus ombros tremiam sob o vestido preto. - Mas a senhora não me deu o que eu mais precisava: carinho. A senhora nunca foi minha mãe em toda a extensão da palavra. A senhora fez o que fez por mim, apenas de longe, pela mão das governantes e criadas. Nunca me acompanhou ao médico, nunca se interessou, nunca me acariciou, nunca me quis. Sabe por quê? Porque eu não parecia sua filha, era tão diferente dos outros. Era feia e fraca. Tinha vergonha de minha fealdade… Dorita parecia não ouvir os soluços abafados da mãe; continuou, implacável, como um martelo a bater: - Fez Lilian casar-se com Francisco; o outro era pobre, sem nome. Lilian aceitou porque era fraca e todo o mundo sabe que ela não é feliz, ela não disfarça. As poucas vezes em que vou à casa deles, ouço discussões, mal-entendidos, vozes desgostosas. Francisco é bom, mas sofre. Lilian exige demais porque não tem amor por ele, por isso quer mil coisas para substituir o afeto que nunca existiu entre os dois. Quem tem afeto verdadeiro, tem quase tudo. Foi isso que a senhora conseguiu, mas sou capaz de apostar que eles acabam se separando; ela já me falou nisso mais de uma vez… A mãe permanecia sentada na poltrona em atitude de aniquilamento; alguns cabelos brancos estavam esparsos na testa. Levantou o rosto umedecido pelas lágrimas e fitou a filha: - Não fale assim, pelo amor de Deus, não me atormente mais. - Agora Paulo anda bebendo. Ele me disse que o único amor que teve na vida, abandonou-o e ele não sabe por quê. Eu também não sei, mas talvez a senhora saiba… A senhora quer construir um mundo melhor, conforme seus princípios: um mundo de riquezas, de grandezas. A senhora se esquece que acima do dinheiro que tanto aprecia, há outras coisas de mais valor, muito mais valor; o dinheiro é como fumaça, um dia pode-se perder, mas um afeto puro, um amor verdadeiro, uma amizade sincera, um lar sólido são bens inestimáveis e não há dinheiro no mundo que pague esses bens. Esses são os bens que Paulo e eu queremos, mas a senhora não quis compreender, por isso não nos entendemos, por isso Paulo bebe e Lilian disse que vai se separar. A senhora é culpada, a senhora não sabe que o verdadeiro afeto entre duas criaturas, entre um homem e uma mulher, um afeto sincero, sem interesses, sem preconceitos, sem preocupações, que paire acima do dinheiro e outras coisas, é o melhor bem do mundo, a maior riqueza. Isso a senhora desconhece e eu tenho pena da senhora. A mãe teve um impulso de revolta: - Você fala tolices, você está louca de raiva, por isso não sabe o que diz. Eu adorei Alec, adorei seu pai, até hoje adoro a memória dele. Vivemos felizes anos e anos, na mais perfeita harmonia. Sempre nos entendemos muito bem, sempre fomos fiéis um ao outro. É melhor não falar o que não sabe, espere voltar a razão ao seu cérebro. - Se papai fosse tão feliz assim, não deixaria o lar… Ele não deixou o lar. Que loucura está dizendo? - Sinto muito dizer que é verdade, tenho certeza. A senhora decerto casou com ele por amor, não sei. Depois não se importou mais, só quis saber do dinheiro e dos filhos bonitos; abandonou papai por completo. Não digo que me abandonou porque nunca se importou comigo, nunca me quis. Papai sentiu profundamente, eu sei; ele sofreu, deu a entender muitas vezes. A mãe fez um gesto para que a filha se calasse; ela fingiu não perceber: - Estou falando tudo isso porque vou deixar esta casa, não podemos continuar sob o mesmo teto… A mãe continuou a chorar, curvada, a cabeça entre as mãos. - Não pense que conseguiu me separar de Eduardo; nem suas intrigas, nem suas invenções a respeito da família dele me demoveram da idéia de me casar. Se Eduardo fosse riquíssimo e tivesse um nome, nem precisaria nome, a senhora aprovaria nosso casamento imediatamente, mesmo que ele fosse um negro. A mãe de Francisco é mulata, a senhora não vê porque ela tem uma auréola de ouro e pedras preciosas. A senhora não gosta de Eduardo porque ele é pobre, não tem nada, é simples engenheiro químico, mas foi a única pessoa que me quis depois de papai. E vou me casar com ele, quer a senhora queira quer não. Seremos felizes porque entre nós não haverá sombra do ouro a nos atormentar, a roubar a luz do nosso afeto. Houve breve silêncio. Dorita olhou a cabeça da mãe curvada para a frente. A noite havia caído e a sala, estava quase às escuras. Dirigiu-se para a porta e acendeu a luz; voltou a passos lentos para perto de Dora e disse: - Então adeus, mamãe. A mãe não respondeu. Ela deixou a sala e subiu as escadas lentamente. Em seu quarto, tudo parecia em desordem; sobre uma cadeira, a valise de couro estava pronta. Dorita tomou a valise entre as mãos, relanceou o olhar à volta do quarto, um olhar quase indiferente, depois desceu outra vez lentamente as escadas Chamou a copeira e disse que no dia seguinte um carregador viria buscar a mala grande com roupas e livros. - A senhora vai viajar? - Não. Vou para casa de tia Jane. Saiu para o jardim. Pisou as folhas’ amarelas do outono, passou ao lado dos velhos carvalhos que conhecia desde a infância e foi tomar o bonde na esquina da Rua Maranhão. Capítulo 8 Os tios receberam Dorita muito afavelmente; quando Dora soube, sentiu-se como que ludibriada. Jane procurou-a para dar explicações, mas não foi recebida na Rua Maranhão; as relações, que entre ambas nunca haviam sido amistosas, quebraram-se por completo. Lilian procurou intervir: - Mas, mamãe, que esperava que tia Jane e tio Vicente fizessem? Deixar Dorita na rua? - Não. Mostrar que o lugar dela é aqui nesta casa, dizer que ela não podia, não devia abandonar a casa dos pais. Isso é que eles deviam fazer, tinham obrigação, os hipócritas, e não recebê-la de braços abertos como receberam. Um mês depois, chegou uma carta da filha; delicada, mas fria, convidava a mãe para assistir à cerimônia do casamento a realizar-se em casa dos tios. Dora, sentada perto da janela, olhava as folhas amarelas dos carvalhos que cobriam o solo; releu a carta, depois rasgou-a em pedacinhos, ficou com eles fechados no côncavo da mão, sem saber como fazê-los desaparecer. Pensou, entristecida, que fora vencida; pela primeira vez, perdera no jogo da vida, pois costumava considerar os fatos principais que tinha de enfrentar uma espécie de jogo; aquele que fosse mais frio nos cálculos ou mais firme no raciocínio, ganharia sempre. Encontrara agora um parceiro mais forte, a filha a vencera. Continuou a olhar as árvores, encolerizada consigo mesma; não calculara bem, devia ter enviado a filha de volta à Europa depois da morte do pai, ou para o Rio, por tempo indeterminado; devia ter feito qualquer coisa, tomado alguma providência. Agora era tarde. Levantou-se, tocou a campainha e entregando o papel picado à empregada, ordenou que o atirasse fora. Quando Lilian entrou, mais tarde, contou à filha que Dorita se atrevera a escrever convidando-a; sentia-se revoltada quando lembrava o quanto fizera por aquela filha, o quanto se sacrificara, levando-a a fazer tratamentos especiais, tudo, tudo. E agora o que recebia era isso: uma carta indiferente convidando-a para o casamento, união que ela odiava, que ela proibia, que impediria, se pudesse. Nunca. Andava pelo salão de um lado para outro, lembrando a Lilian todos os sacrifícios, todos os gastos que tivera com a filha que a abandonara friamente. - Gastei com ela o que podia comprar em jóias para mim. Você precisava saber que tratamentos caríssimos eram aqueles. Você era criança, não podia compreender. Eu e Alec fizemos tudo, tudo o que foi possível, gastamos fortunas. Se hoje ela tem saúde, deve a nós, a mim que fiz tudo, a mim que me sacrifiquei e no entanto veja o que recebo. Abandono, desprezo e um simples convite de casamento. Um simples convite: “Vou me casar dia 20 com Eduardo de tal. Quero convidar a senhora para assistir à cerimônia, que será em casa dos tios etc… etc…” Assim, Lilian. Isso é um absurdo, uma afronta para mim, uma Rodríguez! Deu uma pancadinha no peito. Parou diante de Lilian: - Decerto ela vai convidar você. Proíbo-a de comparecer; se você comparecer, me dará uma bofetada. - Não, mamãe, não irei. Em janeiro do ano seguinte, Lilian procurou um dia a mãe para contar que ela e o marido iam se separar. Dora lembrou-se das palavras de Dorita; ficou aterrorizada fitando a filha mais velha. - Pelo amor de Deus, filha, não faça isso. Reflita bem, lembre-se dos filhos, lembre-se das meninas que já estão mocinhas. Por que, Lilian Por quê? Eu irei falar com Francisco, mas não quero que vocês se separem. Sempre viveram tão felizes! - Quem lhe disse que vivíamos felizes? Dora ficou como que apalermada olhando a filha: - Eu mesma estou dizendo porque sempre vi vocês dois tão bem, tão amigos… - Qual o que, mamãe. Nossa vida tem sido um inferno. Agüentei, suportei tudo por causa das crianças, agora não suporto mais. Não posso. Já estamos separados há muito tempo. - Como? O que está dizendo? - Há meses que ele vai dormir todas as noites em casa dos pais. Não lhe contei antes porque você estava muito contrariada com o casamento de Dorita. Mas o caso é que estamos separados… Diante do rosto estupefato da mãe, ela continuou: - Começou por causa dos ciúmes dele. Quando nos casamos, ele tinha ciúmes de todos, até de você. Não podia me ver conversando a sós com você, vinha ouvir. Nunca percebeu? Era uma coisa horrível, abafante. Nunca freqüentamos lugar algum; ele queria que eu tivesse muitos filhos, dizia que adorava crianças. Mentira. Agora sei porque ele queria filhos e mais filhos; era para eu ficar feia, impedida de sair de casa, era para que ninguém olhasse sequer para mim. Agora eu sei; sei há muito tempo já. Cada vez que eu tinha um filho, perdia um ou dois dentes, era inevitável; percebi um dia que ele estava contente; queria disfarçar, mas estava contente, só depois percebi: ele se regozijava porque eu estava perdendo os dentes. - Por favor, Lilian… - Verdade, mamãe. Não estou exagerando, nem mentindo. Tudo é verdade. Eu era muito criança, não conhecia o mundo; você e papai me criaram uma inútil, o resultado foi esse. Era ingênua e tola, achava tudo muito natural, achava que tudo que acontecia, era assim mesmo, estava certo. O resultado foi esse. Não vê que eu não passaria hoje o que passei naquele tempo! Naquele tempo, eu tinha sonhos impossíveis, sonhos cor-de-rosa de menina romântica, esperava um príncipe encantado que me desse tudo, que me fizesse as vontades, que me adorasse. Meu Deus! Como fui tola. A senhora dizia: “Quem se casar com Francisco, terá tudo”. Foi o contrário, ele me tirou quase tudo. Perdi em vez de ganhar. A primeira coisa que ele me tirou foi a ilusão, uma por uma, depois a personalidade. Durante muitos anos, fui uma coisa nas mãos dele, um trapo que ele torcia à vontade; não tinha pensamento, nem vontade a não ser a dele mesmo. E como ele ficou contente! Vivia cantando nessa época. Ia conseguindo me anular, me reduzir ao mínimo, me matar os sonhos e os desejos, como quem mata formigas. De repente comecei a despertar, a perceber, a ver. Fui percebendo que ele não queria que eu tivesse amigas, fiquei quase sem amizades. Dizia: “Não creia em ninguém, só em mim. Amigas não prestam, são fingidas”. Ciúme doentio. Uma vez, íamos ao teatro; quando vesti um vestido azul decotado, ele entrou no quarto e fez uma cena: não queria que eu fosse com aquele vestido, queria que eu vestisse outro. Eu teimei um pouco dizendo que aquele era novo e queria ir com ele. Francisco então avançou para mim, rasgou o vestido desde o decote até a barra; comecei a chorar dizendo que não queria mais ir. Ele primeiro ficou contente porque eu não queria sair, depois pediu perdão pelo vestido, me carregou para a cama e começou a me beijar dizendo que tinha ciúmes da minha beleza e eu devia compreender e perdoar. Chorava e me beijava pedindo perdão; eu ficava orgulhosa de ser tão amada assim e perdoava tudo. Menti a você dizendo que não iria ao teatro porque Maria Lúcia estava com febre. Lembra-se? Perdi o vestido azul e ele me deu um broche de rubis, esse broche que uso sempre, você sabe. Outra vez, eu ia a um chá de crianças com as duas meninas; no momento em que eu estava passando bâton em frente ao espelho, ele entrou no quarto. Gritou: “Você já sabe que eu não gosto que use isso!” “Só um pouquinho”, respondi. Ele tomou o bâton da minha mão e atirou longe pela janela aberta. Comecei a chorar outra vez; e disse que todas as minhas amigas usavam e eu tinha vergonha de não usar. Ele disse: “Por isso eu digo que suas amigas não prestam, só servem para perturbar nossa vida”. E me prometeu uma pulseira de brilhantes se eu não usasse mais bâton. Prometi. Ganhei esta pulseira que você está vendo e na semana seguinte, comprei outro bâton e usei disfarçadamente; ele pensava que era cor natural dos meus lábios. O tolo. Sempre assim. Um inferno. Quando eu vinha aqui jantar ou almoçar, ele estava sempre ao lado, ouvindo minhas conversas. Não notava? Lilian começou a rir, um risinho irônico e leve: - Você pensando que era amor porque nos via sempre juntos. Não, não era. Era ciúme. Eu fazia tudo para me afastar, para fugir dele e ele sempre ao lado, escutando, olhando, como um emplastro. A ouvir minhas conversas, a querer saber porque dei risada, porque disse isto ou aquilo. Mamãe, você não sabe o que é o ciúme de um homem; é doença, pior que doença. É qualquer coisa monstruosa como uma sombra negra a perseguir a gente dia e noite. Falou muitas vezes em me matar; sabe o que lhe disse um dia? “Por que não me mata? O que está esperando? Que seja logo, não suporto mais.” Era assim nossa vida. Fiquei com os nervos de tal modo que não suportava mais a presença dele; quando ouvia os passos que vinham chegando para meu lado, eu tinha ímpetos de gritar, sair correndo, me esconder em qualquer lugar. Quando me beijava, eu sentia asco; quando me abraçava, eu fechava os olhos com vontade de morrer. Cheguei a esse ponto. Foi assim até ele perceber e percebeu. Um dia me disse: “Lilian, você me odeia, não é verdade?” Não respondi e o vi chorar essa noite. Nessa época, pensei seriamente em morrer porque tinha certeza de que ele me mataria; cheguei a escrever uma espécie de testamento sobre os meus filhos: “Esta fica com Fulano, este com Sicrano”. Assim. Sabia que ele me mataria porque eu o desprezava. Não sei o que foi, sei que aos poucos foi se conformando, foi fugindo e eu também fui me afastando cada vez mais. Graças a Deus. Um dia mandou Maria Antonieta me dizer que ia dormir em casa dos pais porque vovó Lula estava doente. Dormi sossegada desta data em diante. Faz mais de seis meses nossa separação… muito mais, quase um ano. Parou de falar, deu uma volta pela sala, acariciou as flores de uma jarra e voltou para junto da mãe: - Logo no princípio do nosso casamento, eu gostava do ciúme dele; gostava mesmo. Achava que era um amor diferente, um amor louco e sentia-me feliz por ser amada assim. Quando ele saía, telefonava da cidade duas ou três vezes: “Lilian, como vai? Está bem? Quem está aí com você? Então um beijo”. Outras vezes: “Lilian, está sozinha? Quem? O que está fazendo? Tomando chá?” Quando chegava em casa, perguntava: “O que conversou com sua amiga? O que ela disse?” E assim por diante. Eu pensava: Como ele gosta de mim! Quando tinha negócios em Santos, era a mesma coisa; telefonava, telefonava: “De Santos querem falar”. Quando telefonava duas ou mais vezes e não me encontrava, vinha de lá feito louco, entrava em casa com olhos esbugalhados, a voz rouca: “Onde esteve? Na costureira9 Por que demorou tanto? Telefonei várias vezes e fiquei aflito. Por que demorou?” Durante o jantar, olhava como que me vigiando, querendo penetrar meu pensamento, fazia mil perguntas seguidas umas das outras para ver se eu caía em contradição. Aquilo tudo foi me cansando, foi me deixando desesperada, farta. Aquela vigilância contínua, aquele amor que não era mais que um ciúme abafante, egoísta, foi fazendo da minha vida uma angústia sem fim. Ah! Ia me esquecendo. Um dia culminou porque o vi abraçando a governante das crianças; lembra-se daquela governante bonitinha que Maria Antonieta teve quando nasceu - Laia, como as crianças chamavam? Pois surpreendi Francisco e Laia em atitude duvidosa. Fiquei então com ódio dele. Como? Prendendo-me daquela maneira, fazendo de mim uma prisioneira coberta de jóias e ele se divertindo com a governante? Em nossa casa? Eu, tola, acreditando que aquilo era amor? Não era mais que egoísmo… Fui então me desprendendo daquele jugo, fui sacudindo aquelas cadeias que me amarravam até que dei a entender que preferia morrer a continuar aquela vida. Ele foi percebendo, foi sentindo meu ódio e se afastou; começou então a dizer que não poderia viver longe das crianças, não suportaria a ausência delas, chorava todos os dias quando as via… Tem uma facilidade para chorar como você nem imagina, chora por qualquer coisa. As crianças querem bem ao pai, isso não se discute; sempre foi carinhoso e bom para elas. Mas como marido, um fracasso. Dora ouvia a filha num mutismo absoluto; parecia impossível o que estava acontecendo. Como iam se separar assim? Não seria muito exagero? Perguntou: - Por que não contou antes? Por que não falou a seu pai? Por que guardou segredo todos esses anos? A filha respondeu com voz aguda: - A princípio, na esperança de que ele mudasse; depois, porque fui uma tola, porque fui criada erradamente, porque achava que a vida era assim e eu teria que suportar tudo. Compreende? A princípio tudo foi ilusão, beleza, amor. Depois a destruição completa de tudo. O desengano. O príncipe encantado não existia, nunca existiu e eu acreditando nele até essa idade como acreditava em Papai Noel até os doze anos. Tudo mentira. A vida - uma farsa. O amor - uma ilusão. Eu que era uma boba e uma ingênua, não sabia viver, mas também não foi tanto minha culpa. Ensinaram-me assim; taparam meus olhos para a realidade, para as coisas feias e disseram quando eu os abria: veja agora. E que via eu? Só beleza, riqueza, gente boa, maridos amáveis e solícitos, bondade por toda a parte, beleza por todo canto. Para mim era como se todo o mundo vivesse sempre vestido a rigor: os homens de casaca, as mulheres em trajes belíssimos. A vida era representada assim para mim: delicadezas, gentilezas, palavrinhas doces, olhares lânguidos, música, amor. Muitas flores também, as da ilusão. Depois foi a queda, o desmoronamento. Foi só então que comecei a viver. Foi terrível. Sentou-se pesadamente numa cadeira em frente à mãe, abriu a carteira e tirou um cigarro: - Estou fumando muito agora, mas isso distrai. Como eu disse, estamos praticamente separados; já falei com nosso advogado e está tudo combinado: as crianças vão passar com o pai uns dois meses por ano e pronto-Não quero vê-lo mais. Inclinou a cabeça para trás e olhou a fumaça que subia para o teto. A voz de Dora tinha um timbre de desconsolo: - Então eu não soube criar você? Criei erradamente, não é? - Os outros não sei, mas a mim… Criou-me uma boba, dessas que acreditam em tudo que contam, acham que o mundo é uma beleza e o homem que casa com a gente é o homem ideal… Dessas que confiam em toda gente. Enfim, acordei. Entrou uma empregada com a bandeja de café. Lilian fumava. Tomou a xícara que a mãe ofereceu, colocou-a sobre a mesinha ao lado, bebeu uns goles de café às pressas. Todos seus gestos eram nervosos e aflitos. Quando a empregada deixou a sala, ela acendeu outro cigarro no que estava se acabando e olhou a mãe: - Por que me criou assim? Tão boba? Por que não me disse: “Não se iluda, Lilian, no mundo há gente boa e má, não é só boa. O mundo é cheio de contrastes; há a inveja e a maldade, há gente que não gosta de você, quase odeia você e você não sabe. Por quê? Porque você é bonita, é rica, tem nome e lugar na sociedade. Porque você sabe vestir-se bem, é graciosa, é elegante; tem bonitos olhos e dentes muito brancos. Há gente que tem inveja de tudo. É isso”. Se a senhora tivesse me ensinado essas palavras, não confiaria em toda gente como confiei, não seria ingênua até os vinte anos… A mãe perguntou interrompendo: - E adiantaria alguma coisa para você? Seria mais feliz no casamento se conhecesse mais o mundo? Se não fosse tão confiante? Lilian levantou-se e amassou o cigarro no cinzeiro: - Nossa Senhora! Ainda pergunta? Em primeiro lugar não me teria casado com Francisco, se eu conhecesse melhor o mundo. Havia de perceber logo o gênio dele, os ciúmes, o egoísmo, etc. Veria que nem só o dinheiro dá felicidade; eu me casaria com um menos rico ou mesmo pobre, mas que eu amasse, que eu gostasse. E se apesar de tudo, me casasse mesmo com Francisco, não perderia tanto tempo como perdi; me separaria muitos anos atrás e não suportaria aquela vida de jugo que suportei até o ano passado. Minha mocidade quase se foi e eu ainda não vivi, essa é a verdade. Deu uns passos pela sala e parou diante da mãe: - Mamãe, eu não escolhi, fui escolhida. E eu queria escolher, eu queria saber e dizer: “Eu me caso com este homem porque eu quero, eu escolhi, eu o amo”. Com Francisco não foi assim. Eu tinha dezoito anos, era cega para o mundo e quando ele veio rodeado de ouro e de sorrisos, pensei: “Todos dizem que se eu casar com ele, terei tudo. Então vou aceitar”. Não procurei conhecê-lo melhor; nem poderia naquela época, era muito ignorante, esse foi o mal. Ah! Se eu soubesse, naquele tempo, o que sei hoje! Se eu conhecesse as pessoas como conheço! Tudo seria tão diferente. - Creio que errei mesmo, não soube criar vocês. Dorita me deixou para casar-se longe de casa com um homem que não conheço, casamento que não aprovo. Você, mãe de quatro filhos, vai se separar porque odeia o marido. Creio que errei. Baixou a cabeça, os olhos lacrimosos. Lilian aproximou-se da mãe e deu-lhe um leve tapinha no ombro: - Agora não adianta chorar, mamãe. Tudo está resolvido e eu vou me desquitar. Não sei se você é que errou, o mundo é que está errado. Também por que não consentiu no casamento de Dorita? Se tivesse consentido, seria muito melhor. - Não me venha com esse assunto, já lhe pedi… - Só por que o rapaz não é rico, nem conhecido? Estou convencida de que vão ser felizes, esse não é fator contra, é pró. A mãe fez um gesto para que ela não continuasse. - Está bem, está bem. Até logo. Amanhã voltarei para conversar e contar o que resolvemos, eu e o advogado. Beijou levemente a mãe e deixou a sala. Dora ficou pensativa, fitando o tapete. Pairava no ar um vago cheiro de cigarro misturado com perfumes caros. Suspirou. Lutara tanto para que os filhos fossem felizes, fossem ricos. Lutara para que o casamento de Lilian e Francisco se realizasse. Para que afinal? Um dia Dora chamou os filhos mais velhos e conversou longamente a respeito das fábricas; resolvera vendê-las. Nenhum deles se interessava pelos trabalhos a que o pai e o avô haviam dedicado os melhores anos de suas vidas. O melhor seria vendê-las. Há dois anos já, os lucros vinham diminuindo, baixando gradativamente, e isso a assustava. Já passara horas sem sono pensando de que modo empregaria a fortuna, mas não encontrava nada; também achava que aquela fortuna nunca poderia diminuir, tinha que ser imensa como o marido a deixara. Aproveitou a oportunidade de estarem juntos e admoestou Alexandre pela vida que estava levando; sabia que ele jogava todos os dias grandes somas. Perguntou gentilmente: É verdade que você joga muito, Alexandre? Contaram-me, mas não acreditei. Ele olhou-a um pouco surpreendido. Percebia-se que não se conformava com o princípio de calvície, passava a mão direita a todo instante na cabeça, como a apalpar os poucos fios de cabelos que ainda restavam na frente. Há muitos anos tinha vida irregular, não residia na Rua Maranhão. - Se jogo às vezes é para me divertir. Quem lhe disse isso? Quando não gostava de um assunto, dava a entender claramente. Não suportava que alguém, mesmo a mãe, perguntasse alguma coisa sobre sua vida particular. A mãe sorriu com meiguice: - Nem sei quem foi, alguém falou que você joga forte. Ê verdade? - Se você disse que não acreditou, por que vem me falar? Ela perturbou-se um pouco e tentou insistir mansamente: - Não, estou só querendo saber de você mesmo. Afinal o dinheiro é seu, pode gastar como quiser. Estou só aconselhando, o jogo é traiçoeiro, perigoso, tenho medo. As fábricas vão ser vendidas, teremos apenas a renda do dinheiro empregado em títulos e ações, não teremos mais lucros além desse, e precisamos gastar com parcimônia. O dinheiro já não entra como no tempo de seu pai; o negócio está meio parado. Por isso tenho medo, não devemos tocar no capital e quem joga, nem sempre pode se controlar… Tenha cuidado, meu filho… - Não se incomode, mamãe, sei o que estou fazendo. A voz de Alexandre era seca e breve, o sorriso frio. Acendeu um cigarro e afastou-se para perto da janela. Tomou depois o café que Leontina trouxe, contou “novidades” que a mãe gostava de ouvir e mais tarde, quando ela tornou a falar nas fábricas, ele riu-se e acariciou-lhe os cabelos: - Ora, mamãe, não se incomode. Tudo vai dar certo. Ela quis conversar mais, ele despediu-se dizendo que voltaria outra vez. Beijou-a na face. Dora passou sozinha o resto da tarde; sentou-se na poltrona predileta do salão verde e procurou ler. Nada a satisfazia, nada apaziguava aquele sentimento de abandono que sentia certos dias, principalmente depois que Dorita deixara a casa. Os filhos pareciam criaturas estranhas que chegavam e diziam: “Bom dia, mamãe. Como vai?” E iam embora misturados na fumaça dos seus cigarros. Tudo se confundia. Tinham sempre muitos compromissos, muitos afazeres, muitas coisas a fazer na cidade. O único elo que os unia a ela era o do sangue e diziam, quando a encontravam, a palavra: mamãe. Pareciam displicentes. Seriam assim todos os filhos? Seriam como os seus, os filhos das outras mulheres? Como seria sua velhice? Sempre sentada na poltrona verde? Dorita a deixaria, Lilian não tinha tempo para nada a não ser cuidar dela mesma, Alexandre e Paulo… Oh! Os filhos! Ah! Teria os netos, principalmente as netas. Maria Antonieta e Maria Lúcia, as filhas de Lilian estavam quase mocinhas, com doze e quatorze anos, quem sabe seriam suas companheiras? Não, não tinha ilusões. Quando eram pequenas, até os oito e dez anos, iam vê-la todas as tardes, depois do colégio; entravam na casa da Rua Maranhão e enchiam o silêncio de ecos e risos; era o som, a luz, a entrar com elas. “Vovó! Vovó! Onde está a vovozinha?” Beijos e abraços. “Deixa eu mostrar pra vovó o que ganhei hoje.” - “Veja que nota tirei por causa do meu bordado.” “Quero que vovó veja meu bordado.” Falavam depressa, contavam o que haviam feito no colégio. A avó sorria. Mandava vir refrescos, bolos, bolachas que elas iam comer na copa, tendo ao lado a avó e a governante. Quando saíam, depois de beijos e adeusinhos, uma delas voltava do jardim (quase sempre era Maria Antonieta) para dar um último beijo na vovozinha. A governante esperava, paciente. Mas o tempo passara, elas haviam crescido, o horário do colégio não era o mesmo e as duas meninas estavam mocinhas; já não passavam diariamente com aquele transbordar de beijos e exclamações de alegria. Vinham agora quase com cerimônia, faziam uma breve visita e iam embora; Maria Antonieta nunca mais voltou do portão para dar-lhe um último beijo. Um dia não demoravam porque tinham aula de inglês, outro dia, aulas de piano, outro dia, um chá com amigas. Eram ocupadíssimas. E a avó se sentia cada vez mais só com aquela velhice que já chegara; certos encantos da vida social, que tanto apreciara na mocidade, já não a seduziam mais. Gostara de jóias, de apresentar-se aprimoradamente bem vestida nas festas, gostara do luxo. Sentia agora grande desgosto em envelhecer; não queria ser velha, preferia não freqüentar mais nada, o menos possível. Por isso ia muito raramente a reuniões. Seria ainda aquele velho orgulho que a dominava? Não. Todas as mulheres envelhecem, todas as criaturas; não era orgulho, era desgosto. Desgosto por não parecer a mesma de trinta anos antes. Estava agora com sessenta e poucos anos; é muito para uma mulher que já foi moça, bonita e apreciada. Que foi encantadora. E não era só a velhice que a amedrontava, era o terror de perder a fortuna. Dora sorriu e estendeu o braço para acender a lâmpada da mesa ao lado; começava a anoitecer. Estava ficando tola; era um absurdo pensar naquilo. Perder a fortuna? Uma fortuna sólida não se perde facilmente. Franziu a testa. A questão é que ninguém trabalhava e gastavam loucamente. Alexandre jogava, Lilian vivia num turbilhão de luxo, devia dezenas de contos; estava sempre devendo. Comprava peles, jóias, vestidos, sem olhar preço. Desde que terminara o inventário pela morte do marido, e cada um recebera seu quinhão, era só esbanjar, gastar às soltas como se o dinheiro brotasse do chão. Paulo também bebia, jogava e se divertia. Nenhum trabalhava, nenhum pensava no dia de amanhã. E Dorita? Ela recebera também sua parte por ocasião do casamento, com certeza não gastara. Era econômica. Não gostava de pensar em Dorita, considerava-a ingrata e cruel. Continuou a pensar no dinheiro. Possuía bastante, mas tinha medo por causa dos filhos. Pensou em fazer economias; seria melhor vender aquela casa agora que vivia só com Paulo,’ ir para casa menor. O filho aceitaria a idéia? Dispensar criados não era possível, mas também era tolice gastar tanto. Tinha que resolver essa questão de qualquer forma. Tinha medo, um medo horrível. Ao menos se tivesse Alec ali ao lado para auxiliá-la, aconselhá-la, ampará-la. Se Alec estivesse ali, tudo seria diferente. Que tolice. Ouviu passos; era Leontina que vinha anunciar que o jantar estava pronto e que Paulo não jantaria em casa. - Ele mesmo telefonou? - Não, senhora, era uma voz diferente. Levantou-se e dirigiu-se vagarosamente para a sala de jantar; sentou-se só na mesa comprida. Pensou também em fazer economias quando o filho não viesse jantar; nesse dia tomaria apenas um prato de sopa e um chá. Mas os criados? Preocupada, mal tocou nos pratos. Subiu depois e foi ler jornais no hall de cima, mas ficou durante muito tempo pensativa, o jornal esquecido sobre o colo. Às dez e meia, tomou o copo de água que Leontina levou; tinha esse hábito há muitos anos e Leontina, a velha criada, sabia. Leontina entrara na casa quando Lilian era pequena e nunca mais a deixara; era pessoa de confiança e sabia tudo o que se passava, mesmo os segredos de família. Aconselhava algumas vezes, animando Dora, dando coragem. Estava com cinqüenta anos, mas parecia muito mais velha; cabelos brancos rodeavam-lhe o rosto magro e enrugado; tinha às vezes terríveis cólicas de fígado, e a pele escura, sem brilho. Andava sempre silenciosamente, sem fazer barulho; quando se lembravam de chamar Leontina para perguntar qualquer coisa, ela já estava ali ao lado, solícita e silenciosa. Dormia num quarto de cima desde que. Dorita deixara a casa; era uma mulher boa, quieta e humilde. Acompanhou Dora ao quarto e esperou-a deitar-se; perguntou se queria ainda alguma coisa, depois ficou de pé perto do leito, como se ainda quisesse conversar. - Tudo está bem fechado lá embaixo? - Está sim, senhora; olhei todas as janelas e portas. Não quer a pílula? Até ia me esquecendo. - Hoje não, creio que vou dormir bem. Depois de uma pausa, tornou a falar: - Alexandre está jogando muito e não se pode tocar nesse assunto, fica zangado. Leontina esperava isso; estava colocando as roupas dobradas sobre uma cadeira. Voltou-se: - Mas é seu filho, a senhora tem todo o direito de falar. Se a mãe não fala, quem vai falar? Se Seu Alec ainda vivesse… - Se você visse a cara dele quando falei… Mudou de feição, parecia furioso, não admite que se censure nada. Leontina endireitou o corpo batendo a mão direita sobre a esquerda. - Continue a censurar, D. Dora. É seu filho. Nem que ele se zangue, torne a falar; todas as vezes que ele vier visitar a senhora, toque no assunto, fale, pois a senhora é mãe. Dora sorriu amargamente: - É capaz de não me visitar mais por causa disso. - A senhora manda chamar; gente, está no seu direito. Fale e censure quanto quiser. Onde se viu um moço jogar desse jeito? O pai dele nunca jogou. - Saiu ao tio Fernando, tio de Alec. Era um velho gaiteiro e jogador. Você conheceu D. Fernando, Leontina, era irmão de tio Paulo. Fico com dor de cabeça todas as vezes que penso que meu filho joga. - Onde se viu uma coisa assim? Tem tanta coisa para fazer sem ser jogar. Eu, se fosse a senhora, falava mesmo, nem que ele se zangasse. Eu me lembro de D. Fernando; um velho magro, alto, com fama de mulherengo. Dora bocejou: - Vou falar sempre que puder. Creio que estou com sono hoje, também falamos tanto em negócios e fábricas, isso deu sono. - Então, boa noite. - Boa noite, Leontina. Apagaram-se as luzes e Dora ficou acordada durante algum tempo, pensando nos filhos. Talvez tivesse dormido uma hora quando acordou com o ruído de vozes no hall de baixo. Olhou as horas: uma e meia. Devia ser Paulo; durante muitas noites, acordara com aquele mesmo ruído de vozes e portas que batiam; era Paulo que voltava embriagado para casa. Quantas noites iguais a essa? Os amigos traziam-no, conversavam um pouco, saíam batendo a porta com força; ela ouvia os passos do filho que subia a escada e entrava no próprio quarto. Perdia o sono muitas vezes, então tomava a pílula. Nessa noite o ruído era mais forte. Ouvia a voz grossa do filho falando alto, protestando. Levantou-se, vestiu o roupão e saiu para o hall; viu Leontina já de pé, os cabelos presos por uma fitinha preta, na porta do quarto. - Que será isso, Leontina? - A senhora fica aí, eu vou ver. Ele me obedece um pouco. Leontina desceu e Dora ficou esperando, inclinada no corrimão da escada. Ouviu a voz calma de Leontina apaziguando, falando. Apoiou a face na palma da mão e ficou escutando, debruçada sobre a escada. Minutos depois, a porta da rua bateu, os amigos deixaram a casa; ela então desceu devagar, ouvindo o som de vozes que vinham da sala de jantar. Aproximou-se e passou a mão nos cabelos do filho; só então reparou que ele estava ferido na testa e Leontina passava-lhe água com sal no ferimento. Ficou aflita: - O que foi? Onde foi, Paulo? Você caiu? Paulo não respondeu; murmurou palavras que elas não entenderam. Leontina disse: - Os amigos contaram que ele teve uma briga; mas foi sem importância. Tinha um outro machucado na mão, ofereci para passar iodo, ele não quis. Agora vou buscar iodo para passar aqui, a senhora quer ficar segurando ele? A mãe inclinou-se sobre a cabeça do filho: - Está muito machucado, Paulo? Quer tomar um café? Meu Deus! Leontina terminou o curativo. - Agora vamos levar ele para cima; a senhora segura num braço e eu noutro. O rapaz resmungou qualquer coisa e inclinou a cabeça sobre a mesa. - Me deixem sossegado, estou bem. - Vamos, Paulo, vamos para cima, você precisa dormir, deve estar cansado. Ele não se movia debruçado sobre a mesa da sala de jantar. - Paulo! Paulo! Não está ouvindo sua mãe? Vamos para cima. - Já disse que estou bem aqui… Leontina tentou levantar o rapaz por um braço, mas não teve forças; o braço tornou a cair pesadamente. - Leontina, e se déssemos um café para ele? Vamos ver, deve fazer bem. Enquanto Leontina foi preparar o café, Dora começou a falar com o filho, encorajando-o: - Você toma um pouco de café e vai dormir. Você gosta tanto de um cafezinho… Não é mesmo? Para que dormir aqui na sala de jantar, sentado nesta cadeira incômoda? O ferimento está doendo? Não foi nada, um arranhão à-toa. Quando você era pequeno, gostava muito de café, precisava a gente estar proibindo. Lembra-se? Ela acariciava a cabeça do filho, sorria, inclinava-se para ele, falava como se ele estivesse bom. - Amanhã você estará completamente curado, vai dormir bem, um sono só, ainda mais depois do café que Leontina está fazendo… Eu sei que você não gosta de chá, mas chá seria bom também. Café é melhor, você tem razão. Aproximou-se da porta, escutou, voltou outra vez: - Ela não demora, vem logo. Não quer se levantar um pouquinho? Paulo! Vamos levantar a cabeça para tomar o café? Não quer experimentar? Tente um pouco, meu filho. Vamos, Paulo! Leontina entrou na sala com o café; deixou a bandeja em cima da mesa e as duas inclinaram-se para espiar o rosto do rapaz. Dormia profundamente. - E agora? Que vamos fazer? Ele não pode passar a noite aqui. Por que você não pediu para os amigos levarem-no lá para cima? - Porque ele nunca ficou assim; sempre sobe a escada, até sozinho. - Paulo! Não quer tomar um pouco de café? Está aqui perto. Sacudiu de leve o ombro do rapaz; ele resmungou umas palavras. Leontina tomou a xícara de café de sobre a mesa e aproximou-a do rosto de Paulo. - Veja como está cheiroso, fiz agora mesmo. Vamos, tome um pouco, vai fazer bem para o senhor. - Ah! Deus do céu, que podemos fazer? Olhe, Leontina, vamos levantá-lo da mesa, você de um lado, eu do outro. Temos que levá-lo para cima. Ás duas mulheres tentaram levantar o rapaz pelos braços; Leontina conseguiu passar um dos braços do rapaz sobre seu ombro. - Este está firme. Agora a senhora, D. Dora. Faça um pouco de força que consegue. Assim… Agora vamos levantar devagar, nem que ele resmungue. Onde se viu querer dormir aqui? Seu Paulo, não quer ajudar a gente? Com dificuldade, conseguiram levantar o rapaz que começou a resmungar, furioso, a cabeça pendida para o peito, a testa escura de iodo. - Vamos, D. Dora. Ele tem que nos acompanhar. Depois toma um cafezinho, até ia me esquecendo… Seu Paulo, fiz um café para o senhor. Vamos devagar, lá em cima toma o café. Vamos, D. Dora. Força! As duas suavam no esforço que faziam. Conseguiram obrigar o rapaz a dar uns passos trôpegos em direção da porta. Ele arrastava os pés, resmungando e maldizendo. A mãe falava, nervosa: - Vamos, Paulo. Com um pouco de coragem, chegaremos lá em cima. Nem podia falar direito, ficava sem fôlego. Devagar, deixaram a sala de jantar, arrastando o rapaz. Leontina, dobrada para a frente por causa do peso, arquejava e suava. - Nossa Senhora, será que não vamos cair na escada? Ele está pondo toda a força no meu ombro. Mais um pouco de coragem, D. Dora. Dora gemeu: - Eu preciso é de força, Leontina, não é coragem. Quase não posso com ele. Leontina alarmou-se: - Mas agora não podemos largar; se largarmos, ele cai e é pior. Chegaram ao princípio da escada. A mãe falou, carinhosa: - Paulo, quer nos ajudar? Levante o pé para esse primeiro degrau, assim nos ajuda bem. Ouviu, Paulo? Levante o pé. Arquejava também. Paulo ouviu; começou a levantar uma perna, a outra, assim começaram a subir a escada, muito devagar. Pararam um pouco no meio; as duas estavam exaustas; Paulo quase rolou escada abaixo. - D. Dora, pelo amor de Deus, não afrouxe; se afrouxar, eu rolo a escada com ele. Está ouvindo, seu Paulo? Mais um pouco, mais um pouco, levante outro pé, assim. Agora outro, outro; mais outro. Credo, não posso nem falar. Se continuar falando, morro sufocada. - Paulo, mal podemos com você, peço que nos ajude. Ouviu? Vamos subir mais um pouco. Assim chegaram ao hall de cima; levaram-no para o quarto, deitaram-no e Leontina desceu depressa para ir buscar o café. Pediram-lhe que tomasse um pouco, imploraram. De olhos fechados, muito pálido, os cabelos caídos em desordem sobre a testa manchada de iodo, Paulo respondia por monossílabos e elas nada entendiam; afinal Leontina começou a dar o café em colherinhas como se ele fosse uma criança. E perguntava: - Não está gostoso? Fiz agora mesmo. Tome mais esta colherinha, assim… outra ainda… mais um pouquinho. Dora passava uma toalha umedecida em água-de-colônia sobre o rosto sujo e suado do filho. Ele foi engolindo o café e chegou a abrir os olhos com uma careta de dor. - Está sentindo alguma coisa, Paulo? Leontina, vamos tirar os sapatos e as roupas, quem sabe estão incomodando. Começaram então as duas mulheres a desabotoar os sapatos, tirar as meias, a gravata, desapertar o colarinho. - E para tirar o paletó? Seu Paulo, não quer levantar um pouquinho para nos ajudar? Ele procurou levantar-se e auxiliado por elas, conseguiu ficar de pé um instante; tiraram-lhe o paletó com muita dificuldade; de vez em quando era preciso ampará-lo, ele cambaleava. Deitaram-no outra vez. - As calças é mais fácil. Vamos puxar, cada uma de um lado. Deixaram-no de cuecas e cobriram-no cuidadosamente. Leontina lembrou-se de dar mais um pouco de café. - Uma bebida quente sempre faz bem. - Vá buscar. Paulo murmurou: - Não estou bêbado. - Eu sei que não, meu filho. Quem disse isso? Eu sei, mas precisa tomar mais um pouco, só pode fazer bem. - Você quer que eu tome café porque pensa que estou bêbado; não bebi nada, estou doente, sinto mal-estar. Falava entrecortadamente, com certa dificuldade. - Quem disse que você bebeu? Justamente por causa desse mal-estar, Leontina foi buscar café quente. Depois passa tudo e você dorme bem. O rapaz continuou a falar, um pouco arrastadamente: - Tive um fecha num bar por causa de Lilian. Um sujeito falou mal dela e eu não admito que falem de minha irmã. A mãe sobressaltou-se: - Que poderiam falar de Lilian? Ela é boa e só pensa nos filhos, não é verdade? Que tolice! - Não é isso que falam por aí; dizem que tem amantes, já teve muitos. Esse sujeito disse que já foi amante dela, mas ele estava bêbado, por isso tomou uma sova. Falava e voltava a cabeça de um lado para outro, inquieto; tentava levantar-se; deitava-se de novo. Os olhos brilhavam com um brilho mortiço, a palidez era impressionante. Debruçadas ao lado da cama, as duas obrigaram-no a tomar outra xícara de café, ele tomava cuspindo, derramando sobre a cama, fazendo caretas. Depois ficaram ali acalmando-o, acalentando-o; mas ele queria falar, contar tudo de uma vez. - Ele disse que Lilian usa roupa de baixo da cor do vestido que está em cima; se ela está com vestido verde, toda a gente sabe que ela está com corpinho, calça, combinação verde também. Se ela está com vestido roxo, tudo é roxo por baixo. Foi isso que o sujeito falou e eu perdi a cabeça, fiquei louco de raiva. Dei nele. Dora e Leontina entreolharam-se; Dora desviou o olhar. Sabiam que Lilian era assim, preocupava-se muito com roupas de baixo, tudo finíssimo, sempre da mesma cor dos vestidos. A mãe falou: - O homem disse isso porque estava bêbado, Paulo. Você não deve dar importância a essas coisas. Ele resmungou qualquer coisa, depois disse: - Não. Ele falou porque sabia, ele conhece Lilian. Se ele não tivesse bebido, não falaria. Bebeu, soltou tudo. Eu não podia ficar quieto, todos começaram a me olhar e sorrir, perdi a cabeça. Avancei para o sujeito e parti a cara dele. Foi um fecha danado. - Agora tudo passou e você vai dormir sossegado. Não pense mais nisso. - Mas Lilian está ficando muito falada, você precisa dizer para ela que tenha mais vergonha na cara. - Está bem, falarei; pode dormir tranqüilo. Ficaram as duas mulheres no escuro, cada uma de um lado da cama, até o rapaz aquietar-se. Deixaram depois o quarto em silêncio e fecharam a porta. Dora queixou-se: - Isso tudo me deu dor de cabeça. Que coisa horrível. Será verdade o que dizem de Lilian? Que criatura, meu Deus! - Falam tanta coisa… Eu se fosse a senhora ia dormir e não pensava mais nisso. Quer um comprimido? Nesse instante ouviram um ruído no quarto do rapaz. Ficaram as duas quietas, escutando. “Será que ele está se levantando?” Leontina cochichou: - Será que ele quer sair para a rua? Era preciso impedir de qualquer forma. De repente a porta do quarto se abriu e Paulo apareceu completamente nu diante das duas. Gritaram e precipitaram-se, tentando esconder a nudez do rapaz, uma da outra. - Paulo, que é isso? Você está nu. - Seu Paulo, seu Paulo, contenha-se, entre no quarto. Procuraram empurrar o rapaz para dentro do quarto, enquanto ele se esforçava por sair; as mãos de ambas escorregavam nos braços lisos de Paulo e não podiam prendê-lo. Ele falava, resmungava, procurava desvencilhar-se; nenhuma delas compreendia o que ele queria; tinham medo que ele descesse as escadas, nu, e fosse para a rua aos gritos, aos pinotes, fazer escândalo, acordar toda a gente. Imagine no dia seguinte a vizinhança a comentar aos cochichos: “Ontem houve escândalo em casa dos Rodrigues, altas horas da noite. Que seria? Um rapaz nu saiu pela rua a gritar, que horror!” - Paulo, pelo amor de Deus, aonde você quer ir? E procuravam segurar-lhe os braços, as pernas, tentavam pegar-lhe o peito, tudo escorregava, deslizava pelas mãos das mulheres que estavam cada vez mais desesperadas. Ele continuava a esforçar-se por se livrar, saltando para um lado e outro, evitando-as. Foi uma luta. As duas estavam desgrenhadas, cansadíssimas. Leontina gritava: - Segura com força, D. Dora. Força. Ele quer sair pra rua. - Mas ele escapa das minhas mãos. Paulo, que vergonha! Ele conseguiu desvencilhar-se e dar um pulo para a frente; Leontina ainda tentou prendê-lo e segurou-lhe a nádega, mas a nádega escorregadia escapou-lhe das mãos. Deram gritos pensando que ele fosse descer a escada e assim, nu, sair gritando pelas ruas, mas ele dirigiu-se ao banheiro e fechou a porta com toda a força. Respiraram. Olharam-se, aliviadas. Ele queria simplesmente ir ao banheiro e elas não haviam compreendido. Ficaram escutando perto da porta; de súbito ouviram o ruído da água do chuveiro. Olharam-se de novo, calmas agora. Ele estava melhor, tomava banho de chuveiro. Sentaram-se no hall, vigiando atentamente a porta do banheiro. , Leontina enxugava o suor do rosto, ajeitava os cabelos revoltos; o rosto de Dora pendia sobre o peito, arquejante ainda. Foram depois ao quarto do rapaz e voltaram com o roupão dele entre as mãos; era para não o verem nu de novo. Esperaram. De súbito cessou o ruído da água; ficaram então de pé, atentas, Leontina segurando o roupão à altura do ombro para atirar-lhe às costas quando ele saísse. O rapaz abriu a porta de sopetão; empurrou Leontina e, nu outra vez atravessou o hall e entrou no quarto, batendo a porta. Suspiraram. Iria dormir agora? Iria sossegar e deixá-las sossegadas? Novamente ficaram escutando, vigiando. Eram cinco horas da manhã. Afinal ouviram-no deitar-se e tudo ficou em silêncio. Esperaram mais um pouco. Nada. Então cada uma disse boa noite e foi para seu quarto. Leontina resmungou: - Esses rapazes só servem para deixar a gente doente. Capítulo 9 Dora de Rodríguez começou a sentir como que o terreno mover-se sob seus pés; por onde caminhava, havia o vazio a ameaçá-la. Era como se procurasse pisar com cuidado em terreno movediço e qualquer passo em falso pudesse arrastá-la ao abismo. Procurou à sua volta um auxílio, um apoio, nada encontrou. Ninguém lhe ofereceu a mão; o gênio altivo e o egoísmo cego em querer tudo para si e os seus, afastaram-parentes e, amigos que poderiam socorrê-la nessa época. Lembrou-se de todas as vezes que fora procurada e negara sempre, sempre fugira. O marido chamara-lhe a atenção tantas vezes sobre isso; procurara fazê-la voltar atrás, censurara-a, mas ela fora intransigente. Negara sempre. Afastou essas recordações como fazia todas as vezes que não queria aborrecer-se; resolveu pedir conselhos aos filhos. Chamou-os uma tarde. Compareceram apenas Lilian e Paulo; Alexandre mandou dizer que iria mais tarde e não apareceu. De Dorita continuava a ignorar a existência. Explicou aos dois filhos a situação; os gastos eram cada vez mais altos, podiam contar apenas com os juros do dinheiro, não possuíam mais fábricas, não tinham mais quem trabalhasse para eles. Era preciso cuidado. Lilian mal ouvia o que a mãe falava; passando bâton nos lábios pela segunda vez, disse que iria a uma recepção aquela tarde e tinha pressa. Riu-se, alegre: - Você se assusta à toa e acaba assustando a gente também. - Não, não é à toa que me assusto; é porque eu vejo e vocês não querem ver. Lilian sacudiu o bôton no ar: - Ver o quê? Ver o quê? Fantasmas… no ar. A mãe inclinou, pensativa, a cabeça. “Meu querido Paulo”, como ela chamava o filho mais moço, ouvia-a com relativa atenção; quando ela disse que talvez fosse melhor vender a casa da Rua Maranhão e ir para uma casa menor, o filho protestou: não, era impossível, sempre tinham vivido ali e a casa era uma tradição dos Rodríguez, era os próprios Rodríguez e ele queria viver nela até morrer. A mãe concordou. Mas, - ouvissem bem! - era preciso ter cuidado, não podiam continuar assim. Alexandre jogava muito, um dia ficaria sem dinheiro. Lilian perguntou: - Que temos nós com Alexandre? Deixe ele que jogue. Não joga o que é dele? A mãe continuou a pedir restrições nos gastos; tinha arrepios só em pensar que um dia Alexandre poderia pedir-lhe mais dinheiro para o jogo quando não tivesse mais fortuna. - Não daremos, não daremos, disse Lilian um pouco revoltada. Paulo de repente falou: - Desde o ano passado, estou com uma idéia na cabeça; vou entrar na escola de aviação no Rio. Olhou a mãe como num desafio; Dora olhou-o quase sem compreender: - Escola de aviação? Aviação? Por quê? - Sempre foi minha idéia… Ela não o deixou continuar como se compreendesse, só naquele instante, o que aquilo significava. Implorou: - Oh! Paulo, isso não, por favor. Na escola de aviação é perigoso, tenho sabido de tantos casos… Nunca pensei que você quisesse. Isso não, eu ficaria desolada. - Mas por que esse pavor? Quantos rapazes não vão? Não seja atrasada, mamãe. Essa idéia de ter medo da aviação, é uma idéia retrógrada. Por favor, encare o futuro de outra forma, a aviação é o futuro do mundo. Por que não? Ela olhou-o quase suplicante: - Não quero que um filho meu vá. Isso não, Paulo. Tudo, menos isso; tenho verdadeiro horror à aviação. Os outros que vão. Ele riu-se zombeteiramente: - Ora, mamãe, os filhos das outras podem ir, o seu não. Deixe de ser egoísta, tem que deixar. Ela dirigiu-se à filha que estava pronta para sair: - Veja, Lilian, o que ele está dizendo. Quer ir para a aviação… A irmã levantou-se e ficou de pé diante de Paulo: - Deixe, mamãe. Será interessante ter um irmão aviador: (fez um gesto como se estivesse apresentando alguém) “Meu irmão Paulo Rodríguez, aviador. Já tem 200 horas de vôo”. Que tal? Riu-se e aproximou-se da mãe para despedir-se; deixou atrás de si o cheiro de cigarro confundido com perfume. Paulo murmurou: - Lilian sempre a mesma… não tem miolo na cabeça. - Escute, Paulo, não vá para a aviação; sou eu que peço. - Tolices, mamãe. Parece que vê fantasmas. - Não, não são tolices. Sempre tive uma idéia sobre as carreiras dos jovens. Penso assim, escute: a carreira militar ou as carreiras em que há perigo de vida, como por exemplo, a aviação, devem ser para esses moços… esses moços que não têm um nome a zelar, não têm um nome como você, compreende? Há tantos rapazes insignificantes, obscuros; esses devem seguir tais carreiras. Mas não o herdeiro dos Rodríguez. Qualquer pessoa sensata deve pensar assim. Você ou rapazes como você, devem seguir sempre carreiras úteis para o país, mas mais de acordo com sua posição: diplomacia, política, coisas assim. Preferia mil vezes um filho deputado do que aviador. Reflita. Ele riu-se de leve: - Você quer dizer que a carreira de aviador não é útil para um país? Ora, mamãe… - É útil, naturalmente. Um soldado também é útil, mas digo que se qualquer rapaz pode ser soldado ou aviador, nem todos podem ser deputados ou diplomatas. Eu queria fazer de você um digno descendente dos Rodríguez. - Lá vem você com a história do nome outra vez. Eu não ligo nem um pouquinho. O nome não faz o homem, o homem é que o faz. Imagine eu, aviador, fazendo maravilhas no ar, orgulho do Brasil… Creia que os velhos Rodríguez estremecerão de orgulho nas suas tumbas, mesmo aqueles que dormem seu último sono nos túmulos dos cemitérios de Sevilha e Salamanca. Isso é que seria bonito. A mãe mostrou-se escandalizada: - Não, não diga isso. Você é muito moço, por isso não dá valor ao nome. Um nome é muita coisa, depois do dinheiro, bem entendido. Um nome, às vezes, abre as portas de uma casa, é uma carta de recomendação para tudo que se deseja. Um nome é muito. Nome sem dinheiro não vale tanto, assim mesmo tem valor. Os dois, aliados, são quase tudo, para não dizer tudo, na vida. E você tem um nome a zelar, deve preservá-lo, deve procurar elevá-lo, se possível. Ele ficou de pé e riu-se alto, as mãos nos bolsos, interrompendo: - Pois vou elevar o nome até às alturas máximas, até o céu, mamãe. Lembre-se que vou voar e o nome que você tanto se orgulha de usar, irá pairar junto às nuvens. Quem o elevará mais do que eu? Qual dos velhos Rodríguez: os guerreiros que combateram os mouros, os diplomatas com peitos cheios de medalhas, os donos das terras da Espanha, os grandes, os ricos, os heróis, qual deles elevará mais do que eu? Diga. Quem? - Não brinque, Paulo, por favor. É um desgosto que você me dá, se for para a aviação. Ele inclinou a cabeça para a frente, ficou um instante pensativo, depois escolheu um cigarro com cuidado numa caixinha sobre a mesa e respondeu, impassível: - Sinto muito, mamãe, mas vou dar-lhe esse desgosto. Vou mesmo para a aviação. Durante muito tempo ainda, tentou convencer o filho; só quando ele se despediu dizendo que tinha de jantar com um amigo, foi que ela silenciou. À noite, contou a Leontina; a velha criada procurou consolá-la: - Duvido que a senhora convença seu Paulo de não ir. Quando ele diz uma coisa, faz. Mas a senhora não deve se incomodar, ele tem sorte, nada há de acontecer. Dos seus filhos, ele sempre teve mais sorte. E depois, lá, ao menos ele deixará de beber; aqui está bebendo toda a noite e pode fazer mal. - Mas é para aviador que ele quer estudar, Leontina. Não sabe o que quer dizer ser aviador? Está sempre em perigo. - Sei, como não? Mas ao menos lá ele não bebe, D. Dora. É uma grande coisa. - Pois eu preferia ele bêbado perto de mim, do que longe sem beber. - Olhe o amor de mãe até onde vai. Será possível? Leontina começou a andar depressa pelo quarto, como se estivesse impaciente. Era sempre assim quando discordava com a patroa; tornava-se apressada, fazia tudo a correr. Resmungava, toda nervosa. Alexandre passava às vezes mais de uma semana sem visitar a mãe; uma tarde telefonou dizendo que precisava falar com ela. Recebeu-o na mesma noite, satisfeita por ver o filho. Achou-o pálido e emagrecido, perguntou se estava doente. Alexandre sentou-se, tirou um cigarro, bateu-o na ponta da unha e começou a falar sem preâmbulos: - O que há é que estou num aperto danado. Joguei e perdi muito dinheiro, vim recorrer a você. Soprou a fumaça para cima e olhou a mãe através dela, como perscrutando-a; Dora moveu-se na cadeira: - Perdeu muito? Como foi? - Você sabe que eu jogo de vez em quando e quem joga não se controla, nem sempre tem força de vontade para se dominar. Ando com muito azar, venho perdendo há meses, fui me controlando, pagando aqui e acolá, assinando letras, pagando hoje esta, amanhã aquela. Não gosto de recorrer a agiotas, você sabe que praga é essa, mas desta vez não pude deixar. Fiz uma dívida de jogo e fiz um empréstimo para pagar essa dívida; não pude pagar esses primeiros sessenta contos, vendi uns títulos, fiquei devendo mais cem contos, assim fui me enterrando de uma maneira bárbara. Não quero recorrer a amigos, lembrei-me de que você pode me tirar desta entalada. Preciso de duzentos contos o mais breve possível; já, se puder. Amassou o cigarro quase inteiro no cinzeiro; levantou-se e passeou pela sala, as duas mãos nos bolsos. Dora sentiu o coração bater fortemente. Era muito dinheiro, mas como negar ao filho? - Alexandre! Será possível? É muita coisa! Tudo em jogo? - Que posso fazer? Estou dizendo que tenho tido azar, mas já tenho ganho muito. E não se incomode, não ficará sem receber essa quantia, tostão por tostão. Vou vender minha casa da Rua Traipus e pagarei o empréstimo. A quem mais havia de recorrer se não a você que é minha mãe? Eu não queria vir aqui aborrecê-la, mas os credores estão em cima de mim e não tive outro jeito. A mãe torceu as mãos, cada vez mais nervosa: - Mas, meu filho, como pode uma pessoa perder tanto dinheiro no jogo? Não compreendo. Lembre-se que D. Fernando, tio de seu pai, que se arruinou no jogo. Perdeu tudo, ficou pobre. Como é possível uma pessoa jogar tanto dinheiro assim? Que coisa horrível! Ele aproximou-se, colocou-lhe a mão sobre o ombro, num gesto de carinho: - Você não pode compreender e nem eu, mamãe. São impulsos que se sente, às vezes, verdadeiramente incompreensíveis, e levam a gente a fazer coisas erradas. Seu filho mais velho é um errado… - Não. Não diga isso, mas não compreendo. Seu pai odiava o jogo. - Papai era um bom. É como você diz, sou como o tio Fernando, D. Fernando Vidal de Rodríguez, o aristocrata de sangue azul. Que quer? Às vezes não quero, sei que não devo jogar, mas de repente, me sinto arrastado, levado, empurrado por uma força superior que não sei explicar de onde vem. É um impulso, uma força maior que eu que me impele ao jogo; quando percebo, estou sentado na mesa, cartas na mão. A senhora não pode mesmo compreender, nem eu sei o que é isso. Já tenho perdido algum dinheiro, mas nunca como este ano; este ano o prejuízo tem sido grande. Você pode me tirar deste apuro… Acendeu outro cigarro; a mãe teve pena: - Naturalmente que posso, Alexandre. Mas vou pedir-lhe um favor. Promete me atender? Ele olhou-a de lado, franzindo as sombrancelhas: - Se puder, atenderei. Qual é? - Promete não jogar mais, meu filho? Sempre tive horror ao jogo, um medo horrível, quase físico. Sei que o jogo arrasta as pessoas até o abismo, até a ruína. O jogo é uma perdição, uma das maiores perdições; a pior, talvez. Promete não jogar mais? A voz dela implorava num tom de quem reza. Ele andou pela sala uns instantes, sem responder. Ela tornou a falar: - Não sei o que diria seu pai, se vivesse. Ele sofreria vendo você assim. Às vezes penso que vocês seriam diferentes, se Alec estivesse aqui. Talvez seja um pensamento tonto este, mas creio que seria diferente. Como ele faz falta! Vendo que o filho nada dizia, tornou a perguntar: - Promete, Alexandre? - Como posso prometer uma coisa que eu mesmo não posso impedir, mamãe? Eu não acabei de explicar que é uma força superior a mim? Como posso prometer? - Meu Deus, Alexandre. Pense bem, então vai jogar sempre? Não pode impedir? Como? Então não tem força de vontade? É um fraco? Um dia seu dinheiro acaba, nosso dinheiro acaba. Que será de nós? Ele parou de andar junto à janela e ficou de costas para ela; a mãe ouviu-o murmurar: - Nesse dia meto uma bala na cabeça. O rosto de Dora contraiu-se como se ela sentisse uma dor física; levantou-se e pôs as mãos no ombro do filho: - Não diga isso nem por brincadeira. Nem por brincadeira. Não se deixe levar pelo jogo assim dessa maneira. Jogue, eu não digo que não jogue, mas jogue com calma, para distrair-se, para passar o tempo. Tenha força de vontade. Você é um homem, não é criança. É um Rodríguez, pertence a uma família de alta linhagem. Por que não se casa, Alexandre? Eu gostaria de vê-lo casado, bem casado; levaria uma vida mais sossegada, mais lógica. Vendo o rosto distraído do filho, perguntou: - Está me ouvindo, Alexandre? Cobriu os olhos com as duas mãos e sussurrou: - Oh! Vocês me deixam desesperada. desesperada. Ele voltou-se um pouco: - Mas também você vem dizer cada coisa: “Quando acabar seu dinheiro… Quando acabar nosso dinheiro”. O dinheiro não se acaba assim à toa, do dia para a noite. A mãe falou, a voz súplice: - Mas jogando dessa maneira, todo dinheiro pode se acabar. Duzentos contos são alguma coisa. De onde vou tirar essa quantia? - Venda alguns títulos. Preciso desse dinheiro por estes… três dias. - Oh! Meu Deus! Ele foi ficando irritado: - Mas eu pago, eu pago tudo. Já disse que pago até o último níquel; vou vender a casa da Rua Traipus, não se incomode, que receberá tudo. É um empréstimo, por algum tempo apenas. - Mas como não me incomodar? Não é tanto pelo dinheiro que você perde hoje, é pelo fato de você continuar a jogar e precisar vender casas para pagar dívidas de jogo. É por isso que me incomodo, é isso que me tortura. Amanhã pode tornar a jogar, tornar a perder. Até quando? Vai ficando sem suas casas, sem seu dinheiro. . . - Você parece que só pensa em dinheiro… Tem horror a perdê-lo? Ora, ganha-se outro! Ela sorriu com ironia: - Ganha-se outro? De que modo? Você nunca trabalhou e depois… as fábricas não são mais nossas. - Não trabalhei porque você não quis que eu trabalhasse. Eu me lembro que papai quis que eu dirigisse uma das fábricas e você disse: “Não. Basta que você trabalhe. Temos bastante dinheiro e esta geração é diferente, eles que se divirtam. A vida nem sempre é assim boa”. Coisas assim. Mas posso trabalhar agora. A mãe sentiu o rosto em fogo: - Eu não disse assim, Alexandre. Você não se lembra bem. Você disse que não queria dirigir fábricas, não nascera para isso e eu apoiei dizendo ao seu pai que nossa fortuna era grande e que não havia necessidade dos filhos dirigirem fábricas. Bastava ele. - Antes eu tivesse trabalhado naquela ocasião, meu futuro seria outro, minha mentalidade seria diferente também. Houve um breve silêncio. A voz da mãe elevou-se, uma voz quebrada, infeliz: - Quer dizer que seu futuro foi prejudicado por mim, não é? - Não é bem isso, mamãe. Não foi isso que eu quis dizer; em todo caso, sinto não ter feito a vontade de papai. Sinto não ter aprendido a trabalhar com ele, isso é que quis dizer. Aproximou-se dela e perguntou: - Posso contar com o dinheiro? - Pode. - Obrigado. Até logo; telefono amanhã. Leontina entregou o copo d’água e ficou andando pelo quarto, sem pressa de ir embora. Dora percebeu que ela estava curiosa por saber alguma coisa sobre a visita de Alexandre. De repente Leontina falou: - Seu Alexandre não demorou hoje. Ele está bom? - Está bom, sim. - Ele nunca visita a senhora nesta hora. Pensei: “Ele está querendo alguma coisa”. Dora ficou silenciosa, não queria falar. Passara toda a tarde com dor de cabeça, nem jantara. Era deprimente ouvir de um filho o que ouvira de Alexandre. E tinha que dar o dinheiro. Não sabia ainda como fazer, nem se o receberia algum dia de volta. Telefonaria ao advogado na manhã seguinte e diria que tinha necessidade urgente daquela quantia. Agora Leontina, essa velha empregada, só porque trabalhava em casa há mais de vinte anos, achava que precisava saber tudo que se passava, todos os segredos da família. Não, não diria nada. Ficou deitada, os olhos fechados, esperando a empregada deixar o quarto para apagar a luz da cabeceira. - Quer mais alguma coisa, D. Dora? - Não. Muito obrigada. Leontina saiu e fechou a porta. Dora ficou imóvel e procurou recapitular os últimos anos de sua vida. Não se sentia feliz: Lilian, a mais velha, estava separada do marido, levava uma vida livre, achava que podia fazer tudo que quisesse e falavam mal dela. Alexandre, o segundo, tinha dívidas de jogo. Dorita abandonara o lar para casar-se com um desconhecido. Paulo bebia e agora dizia que ia ser aviador. Não era feliz. Quisera ela própria formar a vida dos filhos, orientar cada um para o caminho da felicidade e não conseguira. Seriam felizes, eles? Não podia crer. Não havia firmeza, não havia solidez, nada definitivo. Veria os filhos felizes algum dia? Durante algum tempo ficou pensando nos filhos e no futuro de cada um. A noite era longa, cheia de pensamentos sombrios, de silêncios ameaçadores. Já sofrerá assim anos atrás quando esperava Alec dias e noites na cidade do interior. Horas pressagas, longo vazio nas noites longas. Lembrava-se tão bem. Colocava os braços sob a cabeça e ficava deitada de costas, contando os minutos que se escoavam na escuridão, olhando sem ver o teto do quarto. Mas, então, era moça e cheia de ilusões. Agora mais de trinta anos depois, ela sofria outra vez a mesma angústia, contava da mesma maneira os minutos que se escoavam na escuridão. Realizara o sonho de grandeza que tivera: casara-se com Alec, fora bela, rica e poderosa. Tivera tudo nas mãos; e agora não podia compreender por que, mas percebia que tudo começava a fugir, a se escoar dentre os seus dedos, como água. E ela não podia evitar. Não. Não era possível. Aquele mundo que levara anos a construir, o seu mundo, não podia desaparecer assim, como fumaça. Não podia ser destruído, faria tudo para evitá-lo. Vira o marido morrer, uma filha desertar o lar, outra separar-se do marido, um filho perder sua própria herança no jogo, outro beber. Não. Era como se levantasse os braços e dissesse: “Basta”. Lutaria, mas não se deixaria vencer. Chamava-se Dora Laura Vidal de Rodríguez, era forte e lutaria. Pertencia a uma família de lutadores, de guerreiros, não permitiria que o destino risse dela, como se ela fosse um fantoche. Não. Estava com mais de sessenta anos, mas que importava? Saberia evitar que seu mundo se desmoronasse. Seus filhos haviam de reconhecer seu domínio e sua força em conduzi-los. Acendeu a luz e viu as horas: duas e meia. A que horas dormiria? Por que sofria assim? Ah! o tempo em que esperara Alec na cidade do interior… Seu quartinho era pobre e havia, na única janela, uma cortina azul de chita. Passava às vezes a noite toda sem dormir e quando a madrugada ia chegando, toda colorida, ela fixava a cortina de chita e contava as flores azuis. Contava todas as madrugadas, enquanto esperava cartas de Alec. Cartas que não chegavam! Mas esse tempo estava longe. Agora também estava num quarto, sozinha, esperando. O quê? Este quarto era diferente, tinha cortinas de cetim e tapetes espessos, mas a espera era a mesma, a angústia era igual à outra. Que esperava? Sentiu um arrepio quando se lembrou do dinheiro que teria de dar ao filho. Três dias! Três dias apenas e teria de dar o dinheiro. Oh! Era horrível pensar que Alexandre dera para jogar. Jogaria sempre, sempre? Ficou aflita, a respiração ofegante, sem poder acalmar-se. Levantou-se, vestiu o roupão que estava aos pés do leito e saiu para o hall. Paulo ainda não chegara, a porta do quarto dele estava aberta. Aproximou-se do quarto de Leontina e escutou, tudo estava quieto; chamou em voz baixa: - Leontina! Quando a empregada abriu a porta, viu Dora sentada ao lado da mesa do hall, em atitude aflitiva, os braços cruzados sobre o peito. - Que foi, D. Dora? A senhora chamou? Ela levantou a cabeça, tinha o olhar humilde e vago: - Alexandre me pediu duzentos contos para pagar dívidas de jogo. Que hei de fazer? Tenho que dar nestes três dias! E inclinando o corpo para frente, começou a chorar, os braços caídos sobre a mesinha. Os dois anos, que se seguiram, foram longos e cruéis para Dora Laura Vidal de Rodríguez. O filho mais moço seguira para o Rio a fim de cursar a Escola de Aviação e o filho mais velho pedira dinheiro muitas vezes para pagar dívidas. Ela via com verdadeiro terror que o dinheiro ia e não voltava: Alexandre prometia pagar um dia, mas não cumpria o que prometia. Soubera depois, pelo próprio advogado, que o filho já perdera tudo que herdara do pai, não tinha mais nada. Dora levantou os braços, aterrorizada, como que querendo defender-se de um grande perigo. Recorreu a Leontina: - Ele perdeu a fortuna toda, agora vem buscar a minha. Não, não darei, não darei um níquel mais. Como viverei depois? E andava pelo quarto, sem cessar. Não tinha sossego, nem podia dormir; noite e dia, esperava a visita do filho e o pedido de dinheiro. Era uma eterna ameaça a pairar sobre sua vida, era como se a empurrassem para um precipício e ela oscilasse à beira dele, antes de rolar para o fundo. Não permitiria que seu dinheiro se perdesse no jogo, aquele dinheiro que era sua razão de ser, o dinheiro que ela adorava e negara sempre aos outros e economizara no que pudera, e juntara aos montes, e guardara em cofres, e empregara em jóias, e escondera dos outros a fim de que sobrassem para si e os seus. Agora o filho mais velho, aquele Alexandre que fora um dos seus orgulhos, aquele menino de cândidos olhos azuis, vinha tirar-lhe todo o dinheiro, arrancá-lo dos seus cofres para jogá-lo displicentemente sobre um pano verde, e vê-lo desaparecer nas mãos dos outros. Ah! Não. Preferia morrer a ficar pobre. Como havia de lutar assim sozinha? Onde estava Alec que não a socorria? Por que Alec morrera? Por que os filhos não trabalhavam? Se um ao menos tivesse dirigido as fábricas, o dinheiro não se acabaria. Tinha vontade de dar ordens absurdas; fechar a casa toda, mandar dizer ao filho que não estava em casa, fugir para uma ilha deserta e ficar quieta esperando a morte, esconder-se num lugar distante onde ninguém a descobrisse, ocultar-se no forro da casa, qualquer coisa ela queria fazer, mas não dar o dinheiro ao filho, não. Queria envelhecer e morrer com sua fortuna. Toda sua fortuna! E de repente Leontina entrava com a notícia: - Seu Alexandre está aí, veio visitar a senhora. E via o filho aproximar-se e beijar-lhe a mão; Dora cruzava os braços sobre o peito como se assim se defendesse melhor, cerrava os lábios e olhava Alexandre, desafiadoramente, como se dissesse: “Não. Você não tira meu dinheiro”. E ele estava ali diante dela, seu algoz. Aquele menino que fora o encanto do pai, o filho bom e bonito, com olhos azuis tão claros, tão inocentes. Ela esperava, coração trêmulo. O filho fazia perguntas breves e ia logo ao assunto: - Preciso de dinheiro, mamãe. Não é muito desta vez. - Outra vez, Alexandre? Oh! Não posso, desta vez não posso. Não tenho dinheiro para emprestar a você. (Nunca dizia dar, dizia emprestar). Andei fazendo umas transações e todo ele está empregado, não posso emprestar desta vez. Sinto muito. - Mas eu preciso mamãe. A quem vou recorrer? A quem? - Mas eu não tenho. Por que foi jogar outra vez? Ah! por quê? - Não posso dizer por quê; só sei que tenho necessidade desse dinheiro: oitenta contos. - Meu Deus! Eu não tenho, não posso. Peça a Lilian, talvez ela arranje. Peça a outra pessoa, eu não tenho. - Já falei com Lilian outro dia; não tem. Tem dívidas até o pescoço, não adianta pedir a ela. - Dívidas? Para quem ela deve? Lilian tem dívidas? - A tanta gente! Só numa casa de modas, deve mais de trinta contos. Você não sabe a vida que ela leva, mamãe. É vida de louca, de irresponsável! E nunca tem dinheiro, deve até a agiotas, qualquer dia pede a você também. A mãe apertava mais os braços contra o corpo, cerrava os lábios fortemente; sentia angústia, desejo de desaparecer, gemia. Alexandre fumava, passeava pela sala, levantava as cortinas e espiava através das janelas, voltava para junto da mãe, sentava-se, inclinava a cabeça, olhava o teto. De súbito, falava: - Se você não tem dinheiro, dê-me esse broche de safiras e eu o venderei. Ela colocava a mão sobre o broche: - Oh! Alexandre, um presente de Alec! Impossível, não posso dar. Isso não. Nunca! Ficou apertando o broche, a mão fechada sobre ele. - Eu preciso de oitenta contos. Você pode me passar um cheque, então dê outra jóia, você tem muitas. - Deus do Céu! Foram presentes de seu pai. Não posso. Não posso. Gotinhas de suor brilhavam em sua fronte, a angústia crescia. Sentia falta de ar, o coração palpitava forte. O filho tornava a passear pela sala: - Por que não vende esta casa? Por que mora numa casa tão grande, sozinha? - Para você pôr todo dinheiro no jogo? Ele aproximou-se, conciliador: - Escute, mamãe, já disse que esse dinheiro volta, voltará para você. Eu pagarei tudo. Nunca fui mentiroso, fui? Tenho em vista um bom negócio e tenho a certeza de ganhar muito dinheiro. Tenha confiança em seu filho. Se você não tem, quem terá? Preciso de capital para realizar esse negócio e você vai me arranjar esse capital. Não preciso de tudo de uma vez, aos poucos você vai me dando, um dia receberá tudo de volta, tenho absoluta certeza. Uma leve esperança voltava ao coração da mãe; tirava a mão do broche e ficava escutando. Seria verdade? - Não posso saber nada sobre o negócio? Qual é? Alguma empresa? - Ainda é cedo para eu falar, mais tarde você saberá. Mamãe, você não se arrependerá de me emprestar esses cobres. Ela transformava-se de repente numa criança a choramingar: - Alexandre, um dia você pede isso, outro dia pede outro, eu vou ficando sem nada. Como posso saber que é para negócio? Não será para jogo? Meu dinheiro vai se acabando, estou avançando no capital, os juros estão diminuindo. Como irei viver depois? Estou muito velha e doente… Ele sorria: - Ora, mamãe, não se aflija, você tem muito dinheiro para perder assim tão depressa. Você tem casas que não acabam mais, tem títulos, tem terras, tem este palacete, tem cofres cheios de jóias… Você tem muita coisa, tem fortuna, isso não acaba assim à toa… Ela baixava a cabeça e gemia: - Mas não posso dar tudo o que você me pede, não posso. Desta vez não posso dar. Você diz que é pra negócio, mas não é,, é para jogar. Torcia as mãos; de repente lembrava-se do broche e cobria-o com os dedos, tinha vontade de escondê-lo. O filho tirava outro cigarro, batia-o ligeiramente e tornava a insistir, cheio de convicção e gentileza: - Escute, mamãe, não pense que seu dinheiro se perderá, voltará todo para você. É cedo ainda para contar o negócio que tenho em vista, mas é bom. Não se arrependerá quando der resultado. Sua fortuna pode dobrar, triplicar e você será mais rica ainda; pode crer em mim. Que diabo! Sou seu filho e você me conhece bem. Algum dia fui mentiroso? Hein? Diga! - Não. - Então? Deixe de ser pessimista, mamãe. Arranje isso para mim. Deixe por minha conta e espere, depois verá o resultado. Levantava-se e perguntava numa voz breve, decisiva, cortante: - Como é? Arranja? - Arranjo. - Quando? Depois de amanhã? - Pode ser depois de amanhã. Ele ficava conversando mais um pouco, gentil, alegre, amável. Dizia que ela devia ir ao Rio visitar Paulo na Escola de Aviação. Seria uma surpresa para Paulo. Falava um pouco sobre política, dava opiniões, tomava café e elogiava-o dizendo que só naquela casa tomava um café tão bom. Ria-se, acariciava o rosto da mãe dizendo que ela ainda era bonita, nem Lilian era bonita como a mãe havia sido. Olhava o retrato do pai, e elogiava-o, lembrava-se do que o pai dissera tal dia, do que aconselhara em outra ocasião. Evocava as viagens ao Rio no tempo em que eram pequenos e dizia lembrar nitidamente a primeira vez que vira o mar. Fora em Santos, bem no fim da Avenida Ana Costa; o automóvel veio vindo, veio vindo e de súbito ele viu aquela imensidão azul a se perder de vista; lembrava-se tão bem do rosto risonho do pai a olhá-lo, a acariciá-lo, e ele com uma vontade enorme de chorar diante do mar, daquele mar tão grande que o empolgava, o encantava, o subjugava. Segurara então a mão da mãe e apertara com força, tinha vergonha de chorar, mas que impressão lhe ficara na alma, nunca pudera esquecer aquele dia. Passou horas inteiras fixando aquela grandeza, e como se achou pequenino então, comparou-se a um grãozinho de areia! A mãe também sorria ao impulso das recordações. Lembrava-se tão bem de tudo… Como não? Quando ele saía, depois de beijar-lhe levemente a mão, Leontina entrava; então a coragem de Dora desaparecia diante da lembrança da promessa. Gemia: - Mais dinheiro, Leontina. Ele quer mais dinheiro. Que posso fazer? De onde tirar? - Por que não disse que não podia dar? Diga que não pode e não dê, D. Dora. - Mas ele sabe que eu tenho. Falou até em vender jóias, em vender esta casa, em vender tudo. - Credo! Não atenda a esses pedidos. Não atenda seu Alexandre. - Ele disse que não é para jogar, é para negócio; precisa do dinheiro para realizar negócios. Como posso negar? - Então, paciência. Quem sabe é verdade? Quem sabe ele deixou de jogar? - Não acredito, é para perder no jogo… Não acredito. - Vai ver que desta vez não perde, vai ganhar. Alquebrada, envelhecida, sacudida pelo abalo terrível, ela subia a escada apoiada no braço da velha empregada. Suspirava e falava: - Este dinheiro que levei economizando a vida inteira… Esse dinheiro que guardei para meus filhos, mas não para o jogo… Para eles terem uma vida descansada, para serem felizes, para não terem a mocidade pobre e triste que eu tive. Esse dinheiro que juntei como se fosse uma avarenta… Não, não posso perder, perder assim desse jeito… no jogo. Oh! É muito duro, muito cruel! Capítulo 10 QUANDO recebia cartas do filho mais moço, seu coração de mãe ficava em festa; no íntimo, seu melhor filho era Paulo. Deixara de beber, tornara-se ajuizado e bom, e não lhe fazia pedidos de dinheiro. Seguia uma carreira. E que bela carreira! A princípio, não quisera, não podia imaginar seu querido Paulo dirigindo um monstro de aço, perdido naquele espaço imenso, podendo cair a qualquer momento. Não. A profissão de aviador devia ser para rapazes que não têm nome, esses sem futuro e sem passado. Sem tradição. Mas nunca para um Rodríguez. Ainda mais um filho seu, “meu querido Paulo”. Não concordara com a idéia e levara meses para compreender a teimosia do filho predileto; finalmente, quando Paulo começou a escrever-lhe cartões vibrantes de entusiasmo, contando seus primeiros treinos, Dora foi se acalmando, aceitando a idéia de ter um/filho aviador e, findo o primeiro ano, já se orgulhava dele: contava a toda a gente que seu filho estudava na Escola de Aviação. Essa separação entre mãe e filho fez com que o afeto entre ambos se tornasse mais cálido, mais íntimo. Dos quatro filhos de Dora, aquele fora sempre o mais carinhoso; retribuía o carinho materno, pois desde pequeno fora o mais amado. Nunca a mãe o chamava ou se referia a ele, sem usar uma palavra meiga; com os outros, não fora assim. Dizia sempre: “meu amor”, “meu bem”, “meu querido”. Quando rapazote, os irmãos gostavam de chamá-lo “meu querido Paulo”, quando queriam provocá-lo. A ausência aumentou o afeto entre ambos; o filho que, homem feito, nunca mais a chamara de “mãezinha”, colocava agora em todos os cartões essa doce palavra, o que fazia o coração de Dora enternecer-se. Quando os outros filhos a desiludiam fortemente, fechava-se no quarto e ficava durante horas, relendo cartas e cartões do filho. O último cartão que recebera trazia o próprio retrato de Paulo, fardado, olhando o céu e embaixo estas palavras: “Mãezinha, este mesmo céu há de me levar de volta para você”. Fora tão desagradável aquela manhã! Lilian passara quase duas horas queixando-se de tudo. O dinheiro estava mal empregado e os juros eram baixos; um negócio que ela tentara, fracassara; iria tentar outro, mas tinha receio. Estava devendo muito, talvez tivesse que vender algumas jóias; exatamente agora que tudo corria mal, as duas filhas mais velhas estavam moças, com dezoito e dezessete anos; e queriam vestidos, queriam festas, queriam tudo o que ela não podia dar com generosidade. Que fazer? Que lhe aconselhava a mãe? Procurava o que era mais barato para as filhas, vivia atrás de costureiras de bairros, mesmo assim tudo ficava num dinheirão. E as meninas reclamavam: “Fulana tem isto, Sicrana tem aquilo”. Um inferno. Um verdadeiro inferno. Dizia, indignada: - Querem até jóias, imagine! Porque a amiga de uma delas ganhou do pai uma pulseirinha, Maria Antonieta também disse que gostaria de ganhar uma igual. Até chorou. Eu disse: “Vai pedir a seu pai, ele que dê”. Mas o pai não dá muito, ouvi dizer que a família dele teve prejuízo enorme agora no café. Parece que eles estão mal. Claro que Francisco dá alguma coisa para as meninas, paga colégio para todos, mas não pense você que dá de sobra. Qual o quê! Preciso fazer as roupas deles com muita economia, preciso olhar tudo isso e tenho tido tanto trabalho. É muito pouco e as despesas são grandes. A mãe percebeu que a filha queria um auxílio; antes que ela pedisse francamente, falou que nada podia fazer porque Alexandre já pedira muito, estava devendo mais de oitocentos contos e ela nada podia dar à filha. Lilian levantou-se, revoltada; sua voz tornou-se estridente: - Que mentiroso! Ele me disse que você deu a ele até agora apenas duzentos contos! Que mentiroso! - Muito mais, tenho escrito tudo num papel lá em cima. Muito mais! Se quiser, mostro a você. Lilian estava de pé frente à mãe, o belo rosto transtornado pela cólera: - Mas isso não é justo, mamãe. Ele tira de você mais de oitocentos contos. E nós, os outros, ficamos prejudicados. Nós também temos direito a oitocentos contos cada um. Como é que você vai fazer? Tem que ser justa e dividir igualmente por todos. A mãe passou a mão pela testa, como que atordoada: - Não sei ainda, mas na partilha será descontado todo esse dinheiro que ele tirou antes. Vocês não serão prejudicados, não permitirei isso. Lilian passeou pela sala e voltou novamente; não se conformava com a idéia de estar sendo ludibriada, lesada pelo irmão mais velho. Era como se houvesse descoberto um roubo: - Mamãe, o melhor seria você dar a cada um de nós esse dinheiro que Alexandre tirou. Dora olhou a filha, sentiu o sangue fugir-lhe do rosto: - Não posso, Lilian. Esse dinheiro é meu, não posso dar. E depois Alexandre não tirou, ele apenas pediu emprestado. Quando eu morrer… Lilian riu-se, um riso perverso e irônico: - Pediu emprestado? Para pagar com quê? Quando? - Não sei, mas ele cumpre a palavra, tenho certeza. Quando eu morrer, vocês terão cada um seu quinhão, mas por enquanto não posso distribuir. Com que iria eu viver? - Você tem muito, pode dividir e ficar ainda com muito. A questão é que ele vai tirando assim aos poucos, hoje cinqüenta, amanhã cem, depois duzentos… e quando você fechar os olhos, não deixa nada para nós. Nós ficamos a ver navios… Não está certo. Dora cerrou os olhos como se uma nuvem passasse repentinamente diante deles; abriu-os novamente; sua voz era cansada: - Não. Não deixarei que Alexandre me tire tudo, como você diz. Vocês receberão o que é de justiça. Não tenha medo. Sentiu falta de ar e pediu à filha que abrisse uma das janelas; tinha o rosto pálido e um ar de desânimo na fisionomia. Olhou os velhos carvalhos na frente da casa; eram tão velhos, eram ainda do tempo em que os primeiros Rodríguez haviam chegado a S. Paulo. As gerações novas não davam importância àquelas árvores, no entanto eram tão bonitas, com tantas folhas e tanta sombra. Procurou esquecer o que ouvia na sala, mas ali estava Lilian para lembrar, para falar. - Engraçado, Alexandre. Pede seu dinheiro, joga tudo, perde, depois vem dizer que paga. Com quê? Ainda mentiu para mim, disse que era pouco, uns duzentos contos. Sem-vergonha! Preparou-se para sair: - Ele me paga. Tenho de ir, já estou atrasada. Ainda se ele fosse infeliz nos negócios, se justificava. Mas perder tudo no jogo? É o cúmulo! E minhas filhas precisando de tanta coisa; não digo os menores, mas Maria Antonieta e Maria Lúcia. Coitadas! Colocou o chapéu diante do espelho grande do salão verde; passou bâton nos lábios com cuidado, endireitou a gola do vestido, molhou a ponta do dedo com saliva e tirou uma mancha invisível da frente da saia; voltou-se e apontando o indicador para a mãe, falou: - Se eu souber que Alexandre veio pedir mais dinheiro a você, faço um escândalo. Faço barulho. E você terá que me arranjar um cheque com a mesma quantia. Amenizou a voz ao ver o rosto desolado da mãe: - Não seja boba, mamãe. Não dê. Seja forte, não dê. A mãe tentou sorrir, recebeu o beijo frio de Lilian na testa e olhou-a a partir, ainda tendo nos ouvidos as palavras de ameaça da filha: “Faço um escândalo”. Suspirou, ficou ainda uns instantes sozinha, depois subiu a escada e foi para seu quarto; abriu a gaveta da mesinha da cabeceira, tirou o retrato de Paulo e sorriu para ele, depois leu alto as palavras escritas: “Mãezinha, este mesmo céu há de me levar de volta para você”. Sentiu os olhos cheios de lágrimas e olhou o céu que Paulo certamente enfrentava àquela hora, um céu muito azul de cartão postal. Às cinco horas da tarde, as netas entraram na sala em que Dora estava sentada, lendo. Maria Antonieta e Maria Lúcia não eram bonitas; eram morenas, nenhuma delas herdara a beleza delicada e loira da mãe, aquela delicadeza de traços, aquele encanto todo pessoal que só Lilian possuíra. Tinham uma bonita cor toscada, traços regulares, sorrisos alegres e mocidade; mas não pareciam filhas de Lilian. Simplesmente vestidas, usavam os cabelos soltos sobre os ombros. Beijaram a avó, quiseram saber o que trazia nas mãos, leram alto o título da revista, folhearam algumas páginas, deram voltas pelo salão, observaram as flores das jarras, olharam os velhos quadros que conheciam desde crianças. - Como é mesmo o nome desta de gola dura? - Aquele eu sei quem é, é irmão do nosso avô. Não é, vovó? - E aquele do outro lado do salão é D. Rodrigo não sei o que Rodríguez, não é, vovó? Vovó contava uma porção de histórias deles, eu me lembro muito bem. - Eu também me lembro. Sei a história de Santo Inácio… - Que novidade! Eu também. Falaram sobre os estudos, sobre o tempo, as festas que haviam assistido na última semana. Só quando Leontina apareceu com uma bandeja com chá e bolos, Maria Antonieta piscou para a irmã e para Leontina, tomou um gole de chá que a avó lhe serviu e disse, risonha: - Vovó, viemos pedir um favor à senhora. A avó que começara a servir-se, ficou com o bule parado na mão e perguntou: - Pode me dizer que favor é esse? Poderei atendê-las? As duas responderam ao mesmo tempo: - Pode. Pode. Leontina sabe que pode. Maria Lúcia sentou-se na ponta da cadeira para ficar mais próxima da cadeira da avó e falou, resoluta: - Vovozinha, viemos pedir sua casa para darmos uma festa… A avó ficou imóvel, um pouco assustada com o imprevisto, depois falou: - Quando vocês eram pequenas ainda, eu dava festas aqui: reuniões, recepções, jantares. Leontina sabe disso. Mas naquele tempo, tudo era diferente, seu avô era vivo, sua tia Dorita morava aqui, sua mãe era moça e se divertia… Depois de tudo o que aconteceu na família, prometi a mim mesma nunca mais dar festas. Nunca mais. E se não fosse Paulo, já teria vendido esta casa, tornou-se grande demais para mim. Ele é que não quer que eu venda. As netas se olharam, receosas e decepcionadas; Maria Antonieta começou a explicar: - Escute, vovó, a senhora não terá trabalho de espécie alguma; não é a senhora quem vai dar a festa, somos nós. Não terá trabalho… - Nem despesas, interrompeu Maria Lúcia. Nós faremos tudo. Mandaremos tudo lá de casa, até a vitrola, doces, refrescos, tudo. A senhora só cede a casa. Empreste, vovó. - Não é pelas despesas, nem por nada disso, mas é que me sinto triste de um tempo para cá. Não tenho vontade de nada, nada. - Pois nessa noite a senhora ficará alegre, vovó. Ficará alegre com nosso divertimento. Tio Paulo não está para chegar de férias? Festejaremos também a chegada dele. Nossa idéia é esta: festejar o aniversário de Maria Lúcia e a chegada de tio Paulo. - Isso mesmo, apoiou Maria Lúcia. Vamos escrever e perguntar que dia ele vem. - O dia exato da chegada; marcaremos a festa para o dia seguinte. Você é que deve escrever, Maria Lúcia. - Escrevo. A avó falou, começando a ceder: - Ele deve chegar no fim do mês. Mas por que essa festa aqui em casa? Qual a razão? Maria Antonieta animou-se: - Todas nossas amigas dão festas ótimas; nós queremos dar uma também. Ora, o aniversário de Maria Lúcia está próximo, será um pretexto para festejarmos os anos dela e a chegada de titio. Maria Lúcia deu um pulinho na cadeira e quase entornou o chá; - Imagine tio Paulo fardado, deve estar tão bonito! A avó tentou recusar: - Mas a casa de sua mãe é uma boa casa. Por que a festa não pode ser lá? - Ora, vovó, então a gente pode comparar com a sua? Com esta casa linda? A sua é grande, ampla, bonita. A nossa é acanhada, não dá para muita gente. Maria Lúcia, podemos convidar umas cem pessoas. - Deus me livre! disse a avó. Pensei que fosse uma festinha pequena, umas trinta pessoas. As duas começaram a rir, já convencidas da aquiescência da avó. - Mas vovozinha, se dermos aqui, aproveitaremos para fazer uma festa grande mesmo. Uma festa bonita. Tiraram mais bolo do prato e comeram com as mãos, deixando cair migalhas no tapete. Leontina que ouvira tudo, de pé ali do lado, censurou-as: - Olhem o tapete. Se no dia da festa vocês não vão ter cuidado, não sei não. Como é que esta casa vai ficar? Tenho até dó. - Ih! Já vem Leontina… Maria Antonieta protestou: - Teremos todo cuidado possível, não precisa falar. Deixa, vovó? Em vez de responder, a avó continuou a tomar chá vagarosamente. Tomava um gole, depois outro, comia um pedaço de bolo sem pressa. As netas mal suportavam aquele silêncio; acabaram de comer o bolo, limparam as mãos nos guardanapos, piscaram para Leontina como se pedissem auxílio, olharam para todos os lados, sem saber que fazer. Maria Antonieta tornou a perguntar: - Deixa, vovó? - Não sei, vamos ver. Já era uma promessa; Maria Lúcia bateu palmas e ficou de pé, olhando para Leontina e piscando. Ria-se e torcia as pétalas das flores na jarra ao seu alcance. Maria Antonieta perguntou, séria: - Então deixa, vovó? Podemos contar com a casa? - Podem. A resposta saiu rápida, quase sem querer; as duas ficaram de pé, beijaram a avó e começaram a discutir e a falar ao mesmo tempo. A velha criada ria-se enquanto arrumava as xícaras na bandeja para levar para a copa. A avó ficou quieta, observando as netas; ali mesmo, no meio do salão, determinaram onde poriam a vitrola, onde seria o buffet, quais as luzes que ficariam acesas. Para que tanta luz? Quais os discos que tocariam; os tapetes seriam enrolados e levados para cima… A avó interrompeu: - Tudo está muito bem. Apenas dançarão no hall e nesta sala, nada na sala de jantar, nem no salão de retratos. Ficaram decepcionadas: - Por que, vovó? - Ora, por quê? - Porque não precisa, não há necessidade de usar a casa inteira. Ela é muito grande e empresto com esta condição; não entrar no salão de retratos. - Está bem, vovó. - Está ótimo, mas eu acho que na sala de jantar precisamos entrar. Não acha, Leontina? A avó acabou concordando mais uma vez. Maria Antonieta deu uns passinhos de dança, beijou novamente a avó e saiu da sala, arrastando a irmã pela mão: - Vamos combinar tudo direito com Leontina. Paulo havia escrito que viria dia 10; as meninas marcaram a festa para dia 11 de dezembro. E Paulo ainda escreveu: “Dia nove farei aqui meu último vôo”. Dia nove, Maria Antonieta e Maria Lúcia estavam na casa da avó, à Rua Maranhão; de lá telefonaram para uma porção de amigas, convidando-as: “Fazemos questão de que vocês venham. Vamos dançar. Tio Paulo, o aviador estará aqui”. Tudo estava encomendado; a vitrola já estava colocada no lugar escolhido, haviam distribuído mesas em ’alguns cantos do terraço, os tapetes estavam sendo enrolados. Por toda a casa, reinava um ar festivo, alegre, movimento e satisfação nos semblantes. A avó, sentada ao lado do telefone, assistia a todos os preparativos, tendo no colo a lista dos últimos a serem convidados. “Agora quem é, vovó? Deixa ver!’ - Que letra horrível. Foi Maria Lúcia quem escreveu? Telefonavam: “Não falte, teremos muito prazer que você venha, vamos dançar. É para festejar também a volta de tio Paulo, o aviador. Não lembra dele?” A avó sorria ao ver o entusiasmo das netas. Num breve intervalo, Leontina veio perguntar onde colocaria a mesa dos refrescos e todos foram à copa, determinar o lugar exato. - Acho que devia ficar deste lado. - Penso que aqui ficará melhor, perto da porta. O telefone tocou de leve, como se tivesse medo. Maria Antonieta correu e atendeu. E de repente seu rostinho moreno e alegre sofreu uma grande alteração; os olhos se agrandaram, a palidez cobriu sua testa e seus lábios, a respiração tornou-se opressa. Maria Lúcia que veio atrás dela, perguntou: - Que é? Quem foi? Ela não falou. Levou o indicador aos lábios pedindo silêncio, a avó vinha vindo. Deixou o hall quase correndo, atravessou o terraço e o jardim e saiu pela Rua Maranhão, acompanhada pela irmã: - Ele morreu hoje, custaram a achar o corpo. Não tenho coragem de contar para vovó, vamos chamar mamãe. - Quem? Quem? - Tio Paulo. - Mas como foi que ele morreu? Estava voando? - Estava voando, quem telefonou foi a irmã de Milton; ela recebeu a telefonada agora mesmo de Milton contando tudo. Ele caiu numa floresta e custaram a encontrar. Deve chegar amanhã aqui. - Misericórdia! E vovó! - Não sei, vamos falar com mamãe. Não posso nem falar de tão nervosa, nunca levei susto tão grande. Que coisa horrível. - E a festa, Maria Antonieta? - Temos que telefonar para todos, um por um. A irmã de Milton diz que nem tinha coragem de falar, de tão horrível. Coitado! Oh! Meu Deus! - E o corpo vem de avião? - Nem perguntei, decerto vem. Vamos chamar mamãe. Coitado de tio Paulo! - Ele que adorava aviação! Chegaram quase sem fôlego e contaram tudo a Lilian, aterrorizadas. Lilian levantou-se e começou a chorar baixinho, impressionada. - Temos que contar a mamãe. Vamos voltar. Dora de Rodríguez estava sentada na poltrona predileta do salão verde; perguntou pelas netas e Leontina respondeu que haviam saído de repente, quase a correr, com certeza haviam esquecido alguma coisa. Começou a folhear revistas, indiferente ao movimento que havia na outra parte da casa. Ouviu passos silenciosos entrarem na sala de jantar, pensou que fossem as meninas, mas estavam tão quietas, não podia ser elas. Ficara tudo tão silencioso de repente, nem parecia que dois dias depois a casa estaria em festa. Estranhou aquela quietude que caía de súbito e fazia tudo parar e emudecer como se um ser invisível houvesse dado repentinamente uma ordem absurda: “Ninguém se mova. Silêncio”. Onde estaria Leontina? Quis chamar. Quem teria entrado na sala de jantar? Pareciam andar nas pontas dos pés. Ouvira passos no terraço também. Quem seria? Ouviu sussurros de vozes como se alguém estivesse cochichando, depois alguém chorou. Aquilo era inexplicável, estava enganada. As netas queriam fazer-lhe uma surpresa, entrariam de súbito fazendo novamente grande algazarra. Escutou, sorrindo. Eram elas. Ouviu uma voz dizer: Meu Deus! num tom magoado, de quem está sofrendo. Quem seria? teriam levado alguma queda? Devia ser Leontina. - Leontina! Levantou-se, mas não chegou a dar um passo; Lilian vinha entrando no salão, rodeada pelas duas filhas, atrás vinha Leontina, os olhos cheios de lágrimas. Dora olhou, sem compreender a princípio; a alegria das duas meninas desaparecera como se uma nuvem inesperada e densa tivesse apagado o sol; o olhar de Lilian era nublado, havia chorado. O grupo parou a alguns passos de Dora e ficou imóvel, trágico. Ela apoiou a mão na mesinha onde estavam as revistas e uma jarra com goivos. Perguntou, querendo sorrir: - Que há? Por que estão tristes? Que aconteceu, Lilian? Não pode mais haver festa? Em vez de responder, a filha escondeu o rosto nas mãos e começou a chorar alto, as meninas baixaram as cabeças e ela viu uma lágrima correr pela face de Maria Antonieta. O coração de Dora adivinhou imediatamente; devia ser alguma coisa cruel. Devia ser Paulo, mas foi tão doloroso esse pensamento que ela procurou afastá-lo, varrê-lo da mente. Deu um passo à frente, sentindo voltar-lhe a autoridade: - Que foi, Lilian? Fale, fale logo. Que foi Leontina? Leontina soluçou sem responder; ouviu Lilian murmurar; sua voz saía por entre os lábios em tom de grande dor: - Foi Paulo, mamãe. - Paulo? Que aconteceu a Paulo? Fale de uma vez. Sentia coragem agora, uma coragem imensa, uma coragem como nunca sentira antes, coragem de arrostar todos os perigos, desafiar a própria morte. Compreendeu tudo, como se alguém já tivesse dito: “Paulo morreu”. Inútil seria enganá-la, tinha certeza agora. Certeza. Era como se ele estivesse morto, ali, diante dela. Sentiu o frio do mármore sob a mão que apoiava na mesa; sua voz era rouca, mas firme: - Conte tudo. - Sofreu um desastre horrível. O avião que ele estava pilotando caiu no meio de árvores e ele… ele… ele está muito ferido. Muito mesmo. Oh! Mamãe, que coisa incrível. - Não é incrível, parece que sempre esperei isto… Apertou fortemente os lábios, depois murmurou: - Fale a verdade. Quero saber a verdade. Sei que ele morreu… As duas meninas choravam abraçadas à velha criada; Lilian caiu sentada numa cadeira e cobriu o rosto. Houve um silêncio de morte no salão verde; tudo estava quieto no jardim e na casa: as árvores imensas faziam sombra à volta dos gramados, aquelas mesmas árvores que haviam visto Paulo brincar. Paulo! O filho bem-amado. Silenciosa como uma sombra, ela caminhou, passou pela filha e pelas netas; Leontina quis auxiliá-la; recusou com um gesto. Atravessou o hall e começou a subir a escada; queria ir para o quarto. Entrou e não acendeu a luz; abriu a veneziana e uma ténue claridade invadiu tudo. Era a hora do crepúsculo. Ouviu passos da filha e de Leontina que a seguiam escada acima. Olhou os galhos das velhas árvores, olhou o jardim entre sombras. Com gestos lentos, abriu a gaveta da mesa da cabeceira e tirou de lá o último cartão do filho; no escuro mesmo procurou ler. Por que ler? Sabia-o de cor. Abriu muito os olhos para ver o retrato, mas não conseguiu. Murmurou para si mesma como se rezasse: “Mãezinha, este mesmo céu há de me levar de volta para você”. Então um grito se elevou daquela casa sombria, um grito de desespero, de aflição, de renúncia; um grito que ecoou pela casa, pelo jardim silencioso e fez as próprias árvores tremerem. Um grito que não parecia humano, um grito que era um apelo, um pedido, um chamado, uma prece; um grito desesperado no crepúsculo silencioso: - Paulo! Meu filho. E durante muitas horas, chorou a morte do filho. Preparou-se mais tarde para descer e sentou-se na poltrona do salão. Já não chorava mais; conservava-se firme, quase erecta, os olhos enxutos; quando alguma pessoa amiga a abraçava, dizia baixinho: - Foi horrível, tudo tão horrível. Paulo se foi… E assim passou a noite e assim passou o dia. O pensamento parecia martelar seu cérebro: “Os dias parecem todos iguais na vida da gente; o que os distingue uns dos outros são o frio, o calor, o sol e a chuva, mas as doze horas de um dia correm da mesma maneira que as doze horas do dia seguinte, e uma noite é igual à outra noite. E à outra também. E no entanto Paulo morreu. Morreu num desses dias iguais aos outros. Alguns dias são diferentes… Oh! Tão diferentes. São longos, infinitamente longos, não se acabam. As horas não passam, os minutos não andam. Tudo está parado, quieto. Esses dias ficam marcados; os anos podem correr com eles os dias iguais, um fica gravado na vida da gente. Num dia assim Paulo morreu. Que dia cruel; tão cruel como o látego que cai na carne e corta, castiga, fere, atormenta, queima, arde. E no entanto ele morreu”. Assim Dora Laura Vidal de Rodríguez viveu seu dia mais triste. A casa da Rua Maranhão ficou cheia de gente; o salão verde ficou todo negro, ali seria recebido o filho dileto. As plantas do jardim deixavam pender os galhos tristes na desolação da tarde. Ela recebeu parentes que não via há muitos anos, amigos que já esquecera; viu Dorita, a filha que desertara e a abraçava agora chorando. Nada dizia, apenas correspondia aos abraços. Nada mais importava agora, nada. Só quando o crepúsculo começou a arroxar o jardim, um crepúsculo tranqüilo de dezembro, houve certo movimento nas pessoas que aguardavam, e a mãe viu doze rapazes da Escola de Aviação entrarem carregando o corpo do seu querido Paulo. Levantou-se, ficou de pé, olhando; sobre o caixão uma bandeira brasileira caía em dobras. Depositaram-no no meio da sala, ali naquela mesma sala onde ela pedira a ele que não seguisse a carreira de aviador. Seu coração foi ficando pequeno, pequeno, como se a fosse sufocar: “Meu querido, meu querido filho, por que não me ouviu? Por quê?” Aproximou-se do caixão, ficou ali, debruçada; durante toda a noite, conversou com Paulo. Disseram-lhe que não abrisse o caixão; ela ouviu cochichos: “Ele está irreconhecível. Carbonizado”. Mais de uma vez durante a noite, levantou um pouquinho a tampa, somente para que passasse a mão e aquela pobre mão procurava os restos do filho querido para acariciá-lo. Tornava a descer a tampa e mais tarde levantava um pouquinho… oh! só um pouquinho para que a mão materna pudesse dar um adeus pois os olhos já não podiam ver. Era Paulo que estava ali, seu filho Paulo. Pela madrugada, novamente a mão dolorida procurou acariciar pela última vez os restos do filho; e o dia surgiu e os doze rapazes da Escola de Aviação que haviam passado toda a noite a fazer companhia a Paulo Vidal de Rodríguez, carregaram-no e deixaram a sala, a casa, o jardim e lá se foram levando-o para sempre. A mãe subiu novamente a escada e ficou parada no meio do hall, olhando as malas, os objetos que haviam pertencido ao filho; ali estavam o capote, a mala maior e a mala menor. Sentiu-se então cansada, quase sem forças, exausta. Entrou no quarto, sentou-se numa cadeira perto da janela e disse a Leontina: - Diga a todos que vou descansar, não quero ninguém aqui, só você. As duas ficaram então sozinhas, falando sobre Paulo; podiam falar longamente, ninguém entraria no quarto. Era uma necessidade de desabafo que elas ansiavam e só falando nele, recordando, poderiam desabafar. Era como quando alguém tem uma ferida e não deixa ninguém tocá-la porque dói; depois a própria pessoa a toca e vê que a dor é grande,, mas pode suportá-la melhor. A mãe perguntou: - Lembra a última vez que ele veio nos visitar? Foi em dezembro? - Foi sim, senhora. Faz um ano agora, passou parte das férias aqui, depois disso não voltou. Eu me lembro o dia que ele foi, estava tão bonito com aquela farda. - Ele ficava muito bem de uniforme; nem todos ficam bem assim. Você ouviu dizer que ele estava todo queimado? - Os colegas contaram; eu ouvi lá na copa quando foram tomar café. Quando o avião caiu, incendiou-se e ele ficou queimado, quase não se conhecia. - Coitado do meu filhinho! Mas ele não sofreu. Você acha que ele sofreu? - Não sofreu nada, dizem que deve ter morrido na hora. Quanta gente veio no enterro! A senhora não viu o jardim, estava cheio que não cabia mais ninguém. A sala de jantar também; quem chorou muito foi seu Alexandre, mais do que os outros. - Apesar da diferença de idade, foram sempre muito amigos. Leontina, traga aquele retrato de Paulo quando ele fez vinte anos, está no quarto dele. Leontina trouxe o retrato. A mãe beijou-o e disse: - Vou colocá-lo agora no meu quarto; vou rezar todas as noites olhando para ele. - Que beleza ele era. Neste retrato a senhora pode ver bem: era um rapagão. - E depois tão bom, tão amigo da gente. Suspiravam. A mãe dizia: - Lembra como ele gostava de chocolate? Todas as manhãs você trazia a xícara de chocolate quente para ele. - E queria bem quente; se não estivesse como ele queria, reclamava: “Leontina, o chocolate esfriou”. Eu respondia: “Que tempão estou aqui com a xícara e o senhor dormindo”. Ele ria e bebia tudo. - Gostava também de morango com creme… Comia com gosto. Era a sobremesa predileta. - E da torta de amêndoas? Nossa Senhora! Quando eu fazia, comia dois, três pedaços, mas também dizia que só eu sabia fazer assim. - De manhã ele só gostava de frutas e chocolate… Leontina enxugava os olhos: - De laranja ele gostava muito, queria todos os dias. Ficavam quietas, pensando. De repente a mãe lembrava: - Lembra como ele gostava de banho de mar quando era pequeno? - Ficava o dia inteiro de calçãozinho na praia; se a gente não chamasse, não saía de lá. Dizia: “Titina, a onda pega eu?” E ria com as mãozinhas cheias de areia. Naquele tempo, só me chamava de Titina. A mãe enxugava os olhos e falava: - Aqui mesmo nesta cadeira pedi a ele que desistisse; foi na primeira visita que me fez. Lembra-se? Eu estava deitada e ele ficou um tempo enorme nessa cadeira, conversando … - Se lembro! Pois eu trouxe café para ele e ele bateu no meu ombro e disse: “Leontina cada vez mais bonita, hein, Leontina?” Era tão alegre! As duas começavam a chorar de repente, em soluços fortes, porque era muito triste lembrar de um rapaz bom, bonito e alegre que se fora deste mundo. Mergulhavam as faces nos lenços, inclinadas para frente, os ombros sacudidos pelo pranto. A voz da mãe se elevava de novo: - Às vezes me arrependo de haver atrapalhado o casamento dele, lembra-se? Antes tivesse deixado, quem sabe ele não seria aviador e não… Quem sabe seria mais feliz. - Mas a senhora o que fez, fez para o bem dele. Não deve se arrepender. Não deixou ele fazer um casamento ruim. - Quem sabe não era ruim, Leontina? Quem sabe se ele tivesse se casado com ela, não seria aviador, ficaria aqui… - Quem pode saber? Se ele gostava tanto de avião! Quando era menino, fazia avião de papel, de lata, de papelão, de tudo que podia. Depois ia me mostrar. - Que adianta o dinheiro, Leontina? Nem que eu tivesse todo o dinheiro do mundo, não salvaria a vida dele. Daria tudo agora para tê-lo aqui comigo. Deus me castigou. - Não, Deus não castigou a senhora. Por quê? A vida é assim mesmo, cheia de mistérios. Foi bom a senhora não ter vendido a casa como pretendia; ele passou aqui a última noite e ele gostava tanto desta casa! Um soluço dolorido saiu do peito de Leontina; tornou a baixar a cabeça e a chorar; a mãe mergulhou o rosto no lenço e soluçou também: - Paulo! Filhinho do meu coração! Havia um silêncio no quarto, somente o pranto das duas mulheres quebrava aquela quietude. A mãe se levantou e se aproximou da janela; o céu havia escurecido e ameaçava chuva; as árvores enormes eram sacudidas pelo vento. - Está ventando… Eu me lembro quando ele era pequeno … Como ele gostava de pôr um balanço debaixo destas árvores, eu tinha tanto medo que ele caísse. Não caiu quando era pequeno, foi cair agora depois de grande, de uma altura que não posso calcular… - Ele gostava tanto de voar. Era o sonho dele. Dizia: “Leontina, quando estou lá em cima, esqueço a vida, esqueço tudo. Um dia eu levo você”. Eu respondia: “Não tenho coragem, Deus me livre!” Ele ria e dava uma palmadinha no meu ombro. De súbito as duas ficavam em silêncio lembrando o morto. Só o vento lá fora passava zunindo e sacudindo as plantas. Os galhos farfalhavam, as roseiras se inclinavam para o solo e pétalas de flores rodopiavam com o vento. E todo o jardim, de repente, começou a se agitar no bailado das folhas mortas; era uma inquietação, um desassossego, e todas as plantas redemoinhavam juntas, umas batiam nas outras, galhos de algumas se emaranhavam nos galhos das que estavam próximas; outras estalavam, outras vergavam até o chão. As folhas eram arrancadas e arrastadas para longe num rodopio e o vento passava gargalhando, dando chicotadas em tudo, feliz por ver o jardim nessa ronda primaveril. O assobio cortante atravessava as paredes da casa e chegava até o quarto onde as duas mulheres choravam o morto; o céu ficou mais escuro, o dia mais triste. A mãe, sentada perto da janela, olhava através da vidraça, sua voz era como um gemido. - Oh! Meu Jesus, meu Jesus, tenha piedade do meu filhinho. Leontina procurava repetir as mesmas palavras: - Oh! Meu Jesus, meu Jesus, tenha piedade de D. Dora e de seu Paulo, coitadinho. - Oh! Cristo que tanto sofreu, tenha piedade da minha dor. - Senhor Jesus Cristo, tenha dó de D. Dora. - Eu tinha tanto medo que ele caísse do balanço e ele caiu lá de cima… de tão alto… Você acha que ele sofreu? - Não, não sofreu. Deus não havia de permitir. Ela olhou o cartão que estava no seu colo: - Ele diz aqui: “Este mesmo céu há de me levar de volta para você”. E não veio pelo céu, veio pela terra. - Mas está no céu agora… Ficaram novamente quietas, pensando nele. E de súbito, Leontina começou a chorar e a falar entre soluços: - Quando era pequeno, eu vestia nele uma roupinha de marinheiro com gola branca. Como ficava bonito! Toda a gente perguntava quem ele era. Pobrezinho! - Meu filho! Eu queria tanto vê-lo, mesmo queimado, mas não deixaram. Ultimamente só me chamava de mãezinha. Leontina, você acha que ele sofreu? - Não, senhora. Deus não havia de permitir, ele era tão bom. - Eu punha a mão dentro do caixão, ao menos queria sentir que ele estava próximo de mim, pela última vez. Oh! Leontina, foi a última vez! E a onãe chorou desesperadamente ao lado de Leontina que também chorou; enquanto o céu escurecia, o dia ia ficando mais triste e o vento sibilava, dando chicotadas por todo o jardim, no bailado das folhas mortas. - Paulo! Filhinho do meu coração! Rugiam tormentas lá fora e tormentas lá dentro, no coração da mãe; a de fora sibilava, rugia, cantava, assobiava, bramia, mas a de dentro era mais terrível porque era silenciosa, uma tempestade num coração. Capítulo 11 A vida de Dora Laura Vidal de Rodríguez foi se alterando. Envelheceu de repente; seu corpo inclinou-se para a frente, cansado e enfermo; os cabelos embranqueceram, a pele se enrugou. De todas as paixões que a haviam empolgado, restou apenas uma: a do dinheiro. Seu coração tornou-se ressequido e indiferente. Os defeitos e as qualidades acentuaram-se com a idade; à medida que se tornava mais velha, ficava mais avara; agora que não tinha o filho querido para amar, só amava o dinheiro. Vendeu a casa da Rua Maranhão e foi residir no Rio de Janeiro, na casa que pertencia aos Rodríguez desde a primeira geração; era um palacete em Copacabana, próximo à praia. Foi para lá com Leontina; pensou que, assim, ficaria mais longe de tudo que a atormentava. A casa era ampla, possuía vários quartos e grandes terraços; era rodeada de jardim com canteiros plantados de gerânios e roseiras. Alexandre chegou certa manhã com uma pequena mala, beijou a mão da mãe e Leontina levou-o para o andar de cima, onde se instalou confortavelmente. Essa parte da casa comportava quatro quartos e dois banheiros; Dora e a velha empregada residiam no andar térreo. Mais tarde ele desceu e ficou conversando com a mãe no terraço, olhando a paisagem admirável do mar contornando as montanhas. Tirou o charuto da boca e falou. - Você está bem instalada aqui, mamãe. É uma bela casa e muito bem situada! Nem me lembrava mais dela; há quanto tempo não vinha ao Rio! - E quando você era pequeno, gostava tanto daqui. Vínhamos muitas vezes. - Disso me lembro muito bem. Quando você ou papai anunciava que as férias seriam aqui, era um alegrão. Ficávamos doidos de contentamento. Mas certas coisas mudam depois que a gente cresce; quando eu era pequeno, comi uma vez fruta-de-conde e nunca mais me esqueci; vivia pensando em comer outra vez fruta-de-conde, achava que era a melhor fruta do mundo. Depois de grande, comi e tive uma desilusão. Fiquei pensando: “Será que a fruta mudou ou fui eu que mudei?” - Penso que a gente é que muda. Mas a casa é a mesma; houve pequenas modificações, feitas ainda no tempo de seu pai. Esteve alugada durante anos, agora resolvi vir definitivamente para cá, sempre gostei muito do Rio. Sempre que podia, vinha passar uma temporada aqui. Houve uma pequena pausa, depois ela falou, a voz magoada: - Daqui deste lugar olho estas montanhas à volta e fico pensando em qual delas Paulo caiu com o avião. Ele fez um gesto para interrompê-la, ela continuou: - E isso me toma um tempo enorme. Parece incrível, mas estou resignada. Hoje sou uma resignada. O filho observou-a um momento: - Você em vez de procurar esquecer, fica pensando, lembrando. Isso deixa a pessoa doente, nervosa. Esqueça, mamãe. - Esquecer? Há coisas que não se esquecem, por mais que a gente viva. - Eu sei que não se pode esquecer, mas você deve procurar não lembrar. Que adianta lembrar? Ninguém sentiu mais do que eu a morte de Paulo, mas procuro não lembrar. Faço tudo para não pensar. Você não, fica olhando as montanhas, fica pensando e sofrendo propositalmente. Isso está errado. É como essas pessoas que deixam o retrato do morto pela casa toda, o lugar da mesa intacto, o quarto do jeito que o morto deixou, a roupa, o livro aberto em tal página, a lâmpada acesa, o relógio parado… na hora exata. Ele riu-se, ela continuou silenciosa. - Isso é que se chama o culto da dor, a volúpia de sofrer, vontade de se mortificar. Está errado, mamãe. Se a gente pudesse também deixar de viver naquela hora de sofrimento, está certo; mas a gente continua a viver, continua do mesmo jeito, tendo vontade de comer, dormir, andar, falar… Que diabo! Vamos viver, não adianta sofrer, entregar-se à dor, morrer aos pouquinhos. Vá dar seus passeios, tome um automóvel e corra as praias, aproveite esses bonitos passeios que há por aqui, faça visitas, convide amigas para um chá. Viva, mamãe. Ela sorriu de leve mas permanecia em silêncio; no íntimo, pensava: “Será que ele veio pedir dinheiro outra vez? Não darei. Não”. Resolveu fazer a vontade do filho; durante três dias, passearam de automóvel pelas estradas que circundam o Rio. Almoçaram em lugares diferentes, diante do mar a perder de vista; ria-se quando Alexandre contava piadas, lembrava fatos do passado já remoto. Sentada ao lado do filho, na frente do carro, sentia novamente a alegria de viver. Quando voltava para casa e via o filho se preparando para jantar fora, pensava: “Não dou. Não dou”. Sentia-se como em perigo; espreitava o rosto de Alexandre querendo adivinhar o que havia naqueles olhos que ela não conseguia, não podia saber. Dizia a Leontina: - Se ele pedir dinheiro desta vez, não darei. lá dei uma fortuna, não darei mais. Uma noite, Alexandre ficou para jantar; durante toda a refeição a mãe esperou, trêmula, o pedido. Foram depois para o terraço; a noite estava quente e o vento que vinha da praia agitava as palmeiras do jardim. Alexandre sentou-se na cadeira preguiçosa, acendeu um charuto e ficou em silêncio, olhando as plantas, cujas folhas bafejadas pelo vento quente, agitavam-se de manso. De repente, falou: - Mamãe, preciso falar com você… Dora sentiu como se o coração fosse parar de bater; ficou imóvel esperando; as mãos começaram a tremer sobre o colo, era um tremor quase imperceptível, muito leve. Mas ele, em vez de falar de dinheiro, falou sobre o pai, morto há tantos anos. Dora escutava: - Ainda não vi homem como ele. Bondoso para todo o mundo, para os pequeninos, para os humildes, para os infelizes. Tinha horror à mentira; era justo, desinteressado, incapaz de vingança, de ódio. Era impossível conhecê-lo sem o estimar. Ficou quieto, o charuto na mão; Dora olhava a brasa do charuto, fixamente. O filho continuou: - Eu me lembro aqui mesmo nesta casa; uma vez, quando eu era pequenino, disse uma mentira qualquer, papai me chamou. Olhou bem para mim e observou: “Alexandre, você mentiu hoje e não gostei de vê-lo mentir. Não se faz isso, meu filho. Escute bem, nem por brincadeira. Nem por brincadeira deve-se mentir porque a mentira é traição”. Como o mundo seria diferente se houvesse muitos homens honestos e bons como papai. A mãe confirmou com a cabeça. - Nunca vi em minha vida quem inspirasse mais confiança, nunca vi fisionomia mais franca e mais serena do que papai. Carinhoso para todos, uma palavra boa para o jardineiro, para a cozinheira, para o menino que vinha trazer o jornal. Lembra-se? - Lembro-me. - Ele perdoava tudo, as faltas e os erros de toda a gente. Achava sempre que devia ter havido um motivo para tal erro, para tal falta. E não concebia que houvesse algum mérito no que fazia. Não. Tudo era natural em suas atitudes, em sua maneira de viver. Papai era um justo. Um silêncio caiu sobre o terraço. O coração da mãe foi se acalmando: “Alexandre não vai pedir dinheiro desta vez. Se quisesse, já teria falado”. Suspirou profundamente e preparou-se para se levantar e ir para o quarto. Ouviu a voz do filho: - Vou para S. Paulo amanhã e tenho uma dívida a pagar, mamãe. Preciso que você me ajude. O negócio de que falei a você está quase realizado, penso que vamos ter lucros muito grandes. Ela ficou imóvel, quase sem respirar, depois disse: - Desta vez não posso dar, Alexandre. Sinto muito, mas não posso. Tenho auxiliado Lilian também e não tenho dinheiro para dar. E o que seu irmão deixou? Já acabou? - Empreguei tudo. Tenho confiança nesse negócio, você vai ver. Por que não há de dar certo? - Ficarei muito contente se você for feliz e sinto não poder dar mais dinheiro. Sinto muito. - Não é dar, é emprestar. Devolverei tudo com juros. Tenho certeza de que se papai fosse vivo, ele daria. A mãe ficou com a respiração opressa, como se lhe faltasse o ar. Agitou-se na cadeira e olhou a brasa do charuto. Sua voz enfraqueceu: - A questão é que não tenho… - E o dinheiro da Rua Maranhão? Eu soube que você tirou bom lucro dali. Ela respondeu, nervosa: - Entreguei ao meu advogado e ele já me avisou várias vezes: “Cuidado, D. Dora. Dinheiro se acaba”. Disse que tenho gasto muito ultimamente e não quer dar mais nada. Afinal não sou eu que gasto. - Mas diga que é para auxiliar um filho, isso não é gastar. Qual é a mãe que não auxilia um filho em apuros? Que diabo! Não peço muito, duzentos contos. - Alexandre! Meu Deus! É muito dinheiro, além disso, sua dívida para comigo já está enorme, não posso. Não posso! A voz dela era agora chorosa, angustiada. Ele tirou uma baforada de fumaça e falou: - Que importa que a dívida seja grande? Eu a pagarei totalmente. Mamãe, acredite em mim. Não sou nenhum idiota, sei que o negócio dará um lucro enorme. Jogou no jardim o resto do charuto e tirou outro do bolso; cortou a ponta com a tesourinha que Leontina trouxera pouco antes. Levou minutos preparando o charuto. - Não nasci ontem, mamãe. Sei que nosso lucro será bom, não tenho dúvida. Você pode confiar em mim, eu seria incapaz de arrancar seu dinheiro assim à toa. Pôs o charuto na boca e preparou-se para acendê-lo; a voz da mãe era suplicante: - Vai ver que é para jogar, Alexandre. Você continua a jogar… Oh! Se seu pai fosse vivo… - Jogo como toda a gente joga, para me distrair. Mas que estou realizando um negócio, estou. Como não? Eu não mentiria a você. Eu me lembro tão bem das palavras de papai sobre a mentira… Ela levantou-se e foi mancando para a cadeira do canto; era o lugar onde passava a maior parte do tempo. Sentava-se ali e ficava quieta, imóvel, as mãos caídas sobre o colo, pensando. Sempre gostara de pensar, desde o tempo em que era menina, na fazenda Boa Vista, lá na beira do riozinho. Uma pequena lâmpada iluminava o terraço. E de repente, o filho começou a falar sobre o negócio que estava realizando; tinha que colocar dinheiro, muito dinheiro a princípio, depois viriam os lucros. Os lucros seriam enormes, ele pagaria o dinheiro dela com todos os juros. A fortuna dos Rodríguez, que estava bastante abalada nos últimos tempos, se restauraria brilhantemente. Podia crer. As mãos no colo, os olhos perdidos nas luzes da rua, Dora escutava, duvidando ainda. Seria possível? Sabia que o filho era um jogador, por isso tinha medo, um medo horrível de perder aquela fortuna que já estava fortemente abalada. Mas quem sabe agora era verdade? Quem sabe ele não estava mentindo e o dinheiro viria outra vez aos montes para os cofres dos Rodríguez? Sua voz estava cada vez mais enfraquecida quando respondeu à pergunta do filho: - Mas já dei muito, já ajudei muito seu negócio, agora não posso dar mais, meu advogado não quer que eu dê. - Por que não pode dar? Por causa do advogado? Que absurdo! - Em primeiro lugar porque não tenho, em segundo lugar meu advogado vai negar. Não posso, Alexandre. Você e Lilian têm gasto muito, já não possuo quase bens. Ele ficou de pé e aproximou-se dela; falou, persuasivo: - Mas mamãe, o que você gasta aqui? Por mais que gaste, isso não é nada. Seu capital vai ajuntando dia a dia. E para que quer tanto dinheiro? Pretende fazer algum negócio, alguma viagem? É melhor que auxilie o filho a se firmar na vida. É mais justo, mais humano. A voz dela era magoada: - Você joga, Alexandre. E agora meu capital está muito menor, já não é o que era antes. Por causa de vocês mesmos; eu não gasto comigo. Ele impacientou-se: - Mas não estou pedindo dinheiro para jogar, mamãe. Não acredita? Que mania você tem de falar que eu jogo. Algum dia menti para você? Ela não respondeu, ele insistiu: - Diga: algum dia menti para você? Quando eu disse que precisava de dinheiro para pagar dívidas de jogo, era verdade. Mas agora não é para isso, trata-se do negócio que falei antes. Não é jogo, é negócio. - Se eu tivesse, daria. - Mas você tem. - Não tenho. Tenho pouco e o que tenho, está nas mãos do advogado. - Vem você falar em advogado outra vez. Então nega-se a auxiliar um filho? Talvez do resultado desse negócio, dependa meu futuro. Ela ficou imóvel, apenas as mãos tremiam-lhe no colo. - Já dei muito, mais de oitocentos contos. - Pois que seja muito mais, que sejam dois mil. É para auxiliar seu filho, você tem muito mais do que isso. Para que quer tanto? - Para viver, Alexandre. - Isso tudo será nosso um dia; dê alguma coisa já, eu preciso. E depois você vive com pouco e eu seria incapaz de pedir um dinheiro que você não pudesse dar. Peço porque sei que você pode. - Não posso… - Ora, mamãe, lembre-se do lucro que você vai ter. Vai ser grande, juro. Os olhos da mãe tiveram um leve brilho. E se ele estivesse falando a verdade? Perguntou: - Qual seria o lucro? - Eu não posso afirmar com certeza, mas teremos um lucro bom, talvez mais de quinze por cento. - Por que não explica que negócio é esse? Ele pigarreou e passeou pelo terraço: - Ainda não posso falar, prometi reserva. Mais tarde falarei. - Quando poderei saber? - Talvez o ano que vem, aí terá certeza do sucesso. Novo silêncio. Ela falou com voz fria, autoritária: - Sinto, mas desta vez não posso mesmo. - Mas, mamãe, dou minha palavra de que o negócio -é bom. - Mas não tenho. - Como não? Fale com seu advogado, eu preciso desse dinheiro. É meu futuro que está em jogo. Se eu não entrar com o dinheiro, nada poderei fazer e não terei chance de melhorar na vida. Serei um fracassado. - Então diga qual é o negócio; fale alguma coisa. - Eu disse a você que ainda não posso, dei minha palavra. - Nem à sua mãe pode falar? Não tem confiança em mim? Então não acredito em você; você não está falando a verdade. Ele ficou um tempo silencioso, depois começou a explicar: - Eu e uns amigos temos grandes planos… Pretendemos comprar uma grande fábrica de tecidos e cada um de nós deve entrar com certa quantia, depois temos que entrar com mais. Mas isso será mais tarde. Ele colocou a cadeira perto de Dora, inclinou-se para a frente e falou durante algum tempo. Ela franziu as sobrancelhas e escutou com atenção; de repente, perguntou animada: - Será que são as fábricas que foram de seu pai? - Por enquanto é outra, pretendemos mais tarde comprar essas também. Quando ampliarmos o negócio. - Para que tanto segredo, Alexandre? Devia me contar logo no princípio, seria muito melhor. - Há outra firma querendo realizar o mesmo negócio, por isso estamos guardando segredo… - Não falarei a ninguém. De súbito, lembrou-se: - E o dinheiro que dei a você nas outras vezes? Para que foi? - Eu disse que falaria a verdade. Aquele foi para jogar… - Oh! Alexandre! Ela passou a noite fazendo cálculos sobre sua fortuna; somou várias vezes, calculou, dividiu. Já de madrugada, resolveu dar o cheque ao filho. Dormiu pouco e de manhã, quando Alexandre saiu do quarto para o café, deu-lhe o cheque de duzentos contos. Ele agradeceu e despediu-se depois de conversar ligeiramente com ela; tinha de seguir viagem. Disse-lhe, no último instante, que confiasse, o negócio seria bom. Ela então foi para o terraço, sentou-se na cadeira do canto e ficou olhando o mar, as mãos caídas sobre o colo, imaginando o lucro que teria no ano próximo. Se as fábricas voltassem para as mãos dos Rodríguez, eles seriam novamente riquíssimos. Fabulosamente ricos. O dinheiro viria em quantias enormes, todos os meses os lucros cresceriam, os gerentes das fábricas diriam em cartas: “Faço ciente a V. S.a que este ano os lucros aumentaram quinze por cento…” Sim. Seria uma verdadeira Rodríguez outra vez. Mandaria construir um palácio em S. Paulo e diria aos netos: “Dêem festas. Divirtam-se”. Falaria ao filho mais velho: “Não quero que você gaste em jogo, mas lhe darei todo ano uns trezentos contos para fazer o que quiser”. Seria muito? Seria pouco? Sorriu. Diria a Lilian: “Gaste, compre os vestidos que desejar. Terá todos QS anos trezentos contos para seus trapos”. Sim. Tinha que ser justa, equitativa. Chamaria Dorita e diria o mesmo: “Quer dinheiro? Seu marido gosta de dinheiro? Tem aqui um presente para você”. Entregaria um cheque que faria Dorita empalidecer. Queria observar o rosto da filha nesse momento. Como iria Dorita? Vira-a várias vezes depois da morte de Paulo; fora visitá-la, levara o filho mais velho para conhecer a avó. Que coisa esquisita! Dorita era-lhe indiferente, não parecia sua filha. Francamente, não se sentia à vontade com Dorita, era como se fosse uma estranha para ela. Nunca lhe perguntara pelo marido, não queria sequer conhecê-lo. Era-lhe desagradável pensar naquele homem. O filho, um menino de três anos, então, era forte e corado. Era seu neto! E não sentira carinho por ele. Havia outras criaturas assim? Resolveu pensar no dinheiro outra vez. Era tão agradável! Havia duas formas de pensamento, deveríamos sempre procurar aqueles que nos agradam, que nos deliciam, que nos fazem sorrir. Alexandre não se enganaria? O dinheiro seria mesmo para comprar fábricas? Então seria novamente feliz. Não completamente porque perdera aqueles que mais amara, mas sorriria outra vez para o mundo, acharia tudo bom, bonito e alegre. Seria bom viver! Mentalmente começou a somar as propriedades que ainda possuía; eram poucas agora; que diferença do tempo em que o marido vivera! Como ia longe esse tempo, até se esquecia às vezes do marido, pensava mais nas dificuldades que tinha com os negócios. Tinha tanto que pensar! E o dinheiro que Paulo deixara? A parte que lhe coubera por morte do pai, já não estava intacta; e os outros filhos receberam o que lhes cabia. Por isso Lilian estava sossegada e não a importunava com pedidos de dinheiro. Mas Alexandre já jogara tudo e perdera, agora viera pedir mais para a fábrica que ia comprar. O mundo parecia uma bola que ia girando… Tantas coisas acontecem às vezes para as pessoas de uma família… Leontina viera contar um dia que Lilian ia casar outra vez, mas Lilian nunca dissera nada. Com quem iria casar? A neta mais velha escrevera que estava noiva, nem se lembrava mais do nome do noivo, iria reler a carta. Seria rico? Era preciso que aquelas meninas se casassem com rapazes ricos, estavam acostumadas a gastar muito, tal qual a mãe. Pensando nisso, era preciso fazer economias. Vivia sozinha naquela casa, tinha a cozinheira, a copeira, Leontina; lavadeira e jardineiro vinham uma vez por semana e almoçavam. Por que gastava tanto? Contou nos dedos as pessoas que trabalhavam lá: um, dois, três… Lavadeira e jardineiro apenas uma vez. Por que tanto pão? tanta carne? Precisava chamar Leontina e observar, falar: Quem comia tanto assim? Ela quase não comia, sempre comera pouco. Essa gente tinha mania de comer muito, estômago dilatado, com certeza. Ia chamar Leontina e perguntar: “Quem come tanto pão, tanta carne?” Ela, sozinha naquela casa e gastando tanto. Era um absurdo, podia gastar muito menos. Não compraria mais laranjas para os criados. Para que precisam comer laranjas? E mandaria distribuir bananas apenas uma vez por semana, laranjas também uma vez. E só no almoço. Por que todos os dias e nas duas refeições? Eles não agradecem esse trato. Chamaria Leontina e falaria sobre isso, falaria também sobre o pão e a carne que estavam comendo demais. Não visitava pessoa alguma, recebia uma ou outra visita; quem tem muita vida social, gasta muito, deve oferecer chás, dar reuniões. Vive-se tão bem sem receber visitas. Quando a gente é muito rica, tem dinheiro de sobra e muitos criados, é agradável receber gente em casa, conversar muito, saber novidades, trocar idéias… Mas quando precisa fazer economias, para que visitas? Vive-se muito bem assim, gasta-se menos. E quando a gente vai ficando velha, é melhor ficar só, pensando. Pensando nos mortos que fazem tanta falta, e esquecer os vivos que estão sempre pedindo dinheiro. Dinheiro! Teria bastante outra vez; só se ela não fosse econômica. Haviam de ver! Teria as mãos cheias e distribuiria aos filhos: “Gastem, gastem…” Aos netos também, até se esquecia que tinha netas moças que precisavam gastar, divertir-se. Sim, daria, mas depois que seus cofres estivessem bem cheios e sua conta no banco fosse imensa… grandemente imensa. Levantou-se e foi dar umas voltas pelo jardim; passeou até a hora do jantar, quando Leontina foi chamá-la. Jantou pouco, preocupada com as fábricas que Alexandre ia comprar; depois do jantar, foi ver as contas no escritório. Sentou-se diante da escrivaninha e ficou durante horas relendo as contas e somando o que tinha. Somou depois as cadernetas do armazém, do açougueiro, do padeiro. Somou, calculou quanto pão e carne cada pessoa da casa poderia comer; releu o que haviam pedido no empório na última semana. Seria possível? Dois quilos de café numa semana? Devia haver engano. Tocou a campainha e Leontina apareceu. Tornou a ler para não haver engano: - Leontina, estou muito admirada. Vejo aqui na segunda-feira um quilo de café. Bem. Na sexta-feira um quilo de café. Dois na mesma semana? Acho impossível! Deve haver engano. Quem toma tanto café? Leontina colocou os óculos, aproximou-se e leu; sabia que havia pedido dois quilos de café, mas enquanto lia, pensava na resposta: - É isso mesmo, D. Dora. Esta semana teve mais movimento em casa. Seu Alexandre… - Mas Alexandre não parava em casa, saía depois do almoço e voltava de madrugada. - Mas de manhã, tomava dois, três cafés antes do almoço, e cada vez, tinha que ser café fresco. - Mas ele levantava tão tarde… A que horas isso? E mesmo assim acho impossível. Ele saía do quarto depois de onze horas… - Mas tomava, D. Dora. Eu mesma fazia e levava para ele. Ela tornava-se impaciente, empurrava a caderneta, franzia as sobrancelhas: - Parece incrível! Uma pessoa de fora faz diferença na casa… - Ah! Isso faz, D. Dora. Tudo tem que aumentar, tudo fica diferente. Olhe, o pão teve que aumentar só porque seu Alexandre almoçava aqui, a sobremesa do almoço, a carne. A cozinheira fez várias sobremesas para seu Alexandre. - Falar em carne e pão, estou aborrecida. Acho que gastamos muito, eu quase não como… - Mas a copeira e a cozinheira comem muito pão na comida; o jardineiro quando vem nas quartas-feiras, come pão e toma café três vezes: de manhã, no almoço e de tarde. Dora franziu mais as sobrancelhas: - De manhã? Você não devia dar café para ele a essa hora. De manhã ele toma café em casa dele. - Mas a gente oferece e ele aceita. - Não ofereça mais, Leontina. Não ofereça mais. Que coisa! Leontina calou-se. Há mais de trinta anos conhecia D. Dora; quando mais moça, não era tanto assim, agora com a idade, estava cada vez pior… Bem seu Alec dissera um dia: “Com a idade, os defeitos e as boas qualidades aperfeiçoam-se”. D. Dorita lhe pedira que tivesse paciência, muita paciência; separadamente, sem a mãe saber, dava-lhe cento e cinqüenta mil-réis todos os meses. Por isso ela ia ficando… Se D. Dora soubesse… “Tenha paciência, Leontina, você já conhece mamãe. Tenha paciência.” D. Dorita falara assim… - Precisa ver isso, Leontina. Está demais. Pão, carne, agora café também. Não posso com as despesas, assim não agüento. - Vou ver, D. Dora. Pode ficar sossegada. Às dez horas ambas iam para o apartamento. Leontina preparava o banho, auxiliava Dora a deitar-se. Ela queixava-se: - Esta perna não me deixa em paz. Cada dia dói mais. De repente, lembrava-se e recomendava: - Não jogue fora a água do banho, pode servir para a criada lavar o banheiro amanhã. Para que gastar tanta água? Capítulo 12 Trinta dias depois da partida de Alexandre, Dora recebeu uma carta de Lilian dizendo que iria com as duas filhas passar uns dias no Rio. Não ficou alegre nem triste com a chegada da filha e das netas; ficou apenas apreensiva com as despesas, que iriam aumentar. Mandou preparar um jantar melhor para o dia da chegada; era tempo de morangos, Leontina perguntou se compraria creme para acompanhar os morangos. Quase se zangou: - Não. Basta açúcar para pôr nos morangos. Lembre-se que tudo está muito caro e precisamos fazer economia. Os tempos estão ruins, muito ruins. Andava com algumas chaves dependuradas na cintura; eram as chaves da despensa e dos quartos de cima. Ia todas as manhãs à despensa e determinava o que a cozinheira devia fazer cada dia: pesava o arroz, o açúcar, contava as batatas e tudo que fosse necessário para as refeições. Dizia baixinho como quem resmungava: - Eu, Leontina, a copeira, a cozinheira. Quatro pessoas - oito batatas. Não podia imaginar que cada pessoa comesse mais de duas batatas; no dia em que a lavadeira e o jardineiro almoçavam, contava mais algumas batatas e dava mais quatro colheradas de açúcar para o café extraordinário. Recebeu Lilian e as duas meninas com certa reserva. Viriam pedir dinheiro? Não daria, jurara a si mesma que não daria. No mesmo dia da chegada, as duas netas foram à praia; ela e Lilian ficaram conversando no terraço. Notou que a filha estava envelhecida e tinha um ar cansado; notou o costume preto muito usado, a blusa de seda branca, já bem velha. Decerto não tinha mais dinheiro, havia gasto tudo e vinha pedir mais. Não, não daria. Mais tarde, Maria Antonieta falou no noivo; contou que o casamento seria em abril do ano próximo, e ficariam residindo em S. Paulo, num apartamento. Tirou da bolsa o retrato do noivo e mostrou à avó. Foram dormir tarde, aquela noite. Na manhã seguinte, viu quando as duas meninas passaram para ir à praia; usavam maios tão curtos que ela se sentiu envergonhada; se censurasse, diriam que era uma velha antiquada. Sabia que a chamavam de velha, já ouvira mais de uma vez. Quando, um dia, disse a Lilian que não educava bem os filhos, ela riu-se e respondeu que a mocidade de hoje era assim mesmo, todos eram iguais, ela é que estava fora da moda. Lembrou-se do seu tempo, da sua mocidade, quando todos eram educados e cada pai ou cada mãe procurava dar educação aprimorada aos filhos. Hoje, não. Os jovens não atendiam aos conselhos, respondiam mal, ou não respondiam, iam embora. Diziam: - a velha - quando se referiam a ela. Pobre mocidade! Nunca estava satisfeita; observara isso nos filhos de Lilian. Pareciam sempre à procura de alguma coisa, no ar, na terra, ela não sabia onde; estavam sempre se debatendo como afogados. Os netos e os amigos dos netos eram a mesma coisa; se iam a uma festa, aborreciam-se logo e saíam à procura de outra, de nada gostavam, nada apreciavam. Eles mesmos contavam no dia seguinte que haviam andado em tais e tais lugares. “E gostaram?” Não, não haviam gostado de nada. Um lugar era “chato”, outro estava desanimado, isto e aquilo. Percorriam os lugares onde se dança à noite e iam para cá e para lá sempre insatisfeitos. Pobre mocidade! Era conseqüência da época, da educação livre, da independência demasiada. Seriam felizes? Sua neta, Maria Antonieta, estava noiva; mostrara o retrato do noivo, dissera que ia casar-se em abril. Está certo; mas já correra para a praia num maio exageradamente curto. Aquilo nem era roupa, era um calção indecente. E só falara nos casinos que iria ver, em dançar, e queria ir aqui e ali. Como? Uma noiva? Lembrava-se do seu tempo, quando ficara noiva; ficara sentada numa cadeira bordando seu enxoval e pensando em Alec. Assim a vida deveria ser compreendida; com lógica. E agora? Agora era uma correria atrás do prazer, do divertimento como se a vida fosse terminar amanhã e tivessem medo de chegar atrasados. Cada qual queria antecipar-se ao outro, era um correr sem fim, atrás do quê? Da felicidade? Não, isso não era felicidade. Pobre mocidade! No seu tempo, as noivas ficavam quietas em casa, bordando. Hoje… quem sabe bordar? Quem estuda música? Não bordam, não estudam música, lêem coisas que não deviam ler, não costuram, têm liberdade demasiada. Que fazem? Rua. Vão para a rua; saem o dia todo. Vão à casa das amigas, vão aos cinemas, vão aos chás, ficam andando pelas ruas… “Oh! Como é bom ter liberdade!” Mas não são felizes, andam sempre à procura de alguma coisa, do prazer, com certeza. Depois de casadas, ainda estão procurando. E trocam de marido, esperando encontrar no segundo o que não encontraram no primeiro; e às vezes não encontram nem no terceiro. Assim eram todas. Suas netas também. Seriam felizes? Agora Lilian ia casar-se. Que absurdo! Já velha, com filhos moços, casar-se. Não entendia mais o mundo, com mulheres que envelhecem sem haver encontrado o que desejavam. Pobre mocidade! Assim era Lilian, assim seriam as filhas de Lilian. Umas incompreendidas. Contou as batatas para o almoço e para o jantar; viu com horror que o suprimento se esgotaria antes do fim do mês e seria preciso pedir mais. Suspirou. Sairia do orçamento esse mês, não tinha dúvidas. Pensou que poderia fazer mais economia nos meses seguintes, assim recuperaria os gastos extraordinários. Fechou a despensa e guardou a chave na cintura. Percorreu a casa para ver se tudo estava em ordem, como fazia todos os dias, apesar da perna doente. Foi depois para o terraço e sentou-se na cadeira do canto. Viu a copeira passar e perguntou por Lilian; ainda estava dormindo. A que horas iria tomar café? Perturbaria todo o serviço da casa. Olhou as montanhas e pensou em Paulo. Seu passatempo predileto era esse: sentar-se na cadeira, olhar as montanhas, as mãos cruzadas sobre o colo, pensar no filho que se fora. Na manhã do terceiro dia, quando as meninas estavam na praia, e ela se achava ainda no quarto, ouviu uma leve batida na porta e a voz um pouco rouca de Lilian, como se tivesse acordado àquele instante; - Posso entrar, mamãe? A filha, com um roupão de seda azul ordinária, chinelos também azuis muito velhos, tinha os cabelos desgrenhados soltos nos ombros; uma palidez esverdeada estendia-se-lhe pela testa e pelo rosto. Disse “bom dia, mamãe” com voz cansada e sentou-se numa cadeira baixa que havia ao lado da cama. Com a mão direita tirou num gesto nervoso os cabelos que ameaçavam cair-lhe sobre os olhos. A mãe baixou o jornal sobre o colo, retirou os óculos e olhou atentamente a filha. Como estava envelhecida! Cabelos pintados, olhos empapuçados, rugas pelo rosto, não parecia a Lilian rosada e bela de vinte anos antes. A flor havia empalidecido e murchado. Tempo implacável que mata tudo que é belo e destrói tudo que brilha. Sorriu e perguntou: - Gostou do casino ontem? - Mais ou menos. Fiquei muito cansada; as meninas encontraram uns rapazes conhecidos e começaram a dançar, não queriam mais sair. Chegamos aqui às três e meia. Você ouviu? Disfarçou um bocejo e olhou à volta: - Bom quarto, o seu. - É espaçoso; não é muito grande. - Eu acho grande; os de cima são bons, um pouco menores. Boa casa. Coçou a cabeça e mudou o tom da voz: - Olhe, mamãe, eu não queria aborrecer você, mas penso que você se esqueceu… do que prometeu. As mãos da mãe tremeram de leve. - Que foi que prometi? - Quando as meninas eram pequenas, deixa ver… penso que teriam uns dez ou doze anos, você disse que quando elas ficassem noivas, você daria todo o enxoval. Lilian sorriu e inclinou a cabeça num gesto de meiguice: - Esqueceu, não é? A mãe sentiu o coração bater fortemente e um suor frio correu-lhe nas costas; seu cérebro começou a girar: “Quando havia prometido? Prometera mesmo? Quando? Não, não prometera nada. Lilian estava mentindo, Lilian sempre gostara de mentir”. Olhou à volta como à procura de socorro; sua voz tentava ser firme, mas estava trêmula: - Não me lembro, Lilian. Não me lembro disso. - Ora, mamãe, foi lá em casa, uma tarde. Em conversa, você disse que quando elas ficassem noivas, você daria o enxoval de cada uma. Você sempre gostou muito delas. Não se lembra que elas iam visitá-la todas as tardes depois do colégio? Não podiam deixar de passar em casa da vovó. - Disso eu me lembro, mas de haver prometido os enxovais, não. - Bem, Maria Antonieta ficou noiva, o casamento está marcado para o ano que vem, mas já é tempo de começar a preparar tudo. Não tenho dinheiro, a vida está cada vez mais difícil para mim. Tive prejuízo o ano passado naquele negócio de algodão. Um prejuizão. Arrependo-me de ter posto meu dinheiro limpo naquele negócio. Agora tenho de fazer o casamento dessa menina, felizmente estou tranqüila quanto ao enxoval. Não sei o que seria, se não fosse sua promessa… Tirou uma mecha de cabelo da testa, arrumou as dobras do roupão sobre as pernas, esperou. A mãe olhou pela janela e viu a trepadeira do terraço; as flores vermelhas balançavam ao vento. Quando prometera o enxoval para as netas? Nunca. Era mentira de Lilian. A filha mentia; mentira sempre, desde pequena. Lembrou-se de quando a filha tinha oito ou dez anos, não sabia bem, mas ouvira o marido dizer mais de uma vez. “Precisamos tirar esse vício de Lilian, está ficando mentirosa”. Viu abelhas pousando nas flores vermelhas. Faziam um ruído delicioso quando sugavam as corolas. A trepadeira quase entrava pelo quarto adentro. Pensou: “Muito bonitas. Dizem que há amarelas também, vou mandar o jardineiro comprar. Não. Preciso fazer economia, devem ser caras”. - Já estive indagando preços de linho para o enxoval. Você sabe, está tudo caríssimo. As bordadeiras também cobram um dinheirão. A voz da filha ressoava diferente; Lilian sabia que a mãe não prometera enxoval algum, por isso estava com voz diferente, procurando enganá-la. Resolveu ser firme e negar: - Não me lembro de haver prometido, mas agora não posso dar o enxoval, Lilian. Posso ajudar em alguma coisa, comprar umas peças de linho, pagar alguma bordadeira, mas o enxoval todo é impossível. Tenho perdido muito dinheiro… A filha sorriu com maldade: - Tem perdido porque quer. Por que dá a Alexandre? Não é para jogar, botar fora? Aliás tudo está valorizado, suas propriedades devem estar valendo mais. Tirou os cabelos da testa; a mãe balançou-se na cadeira, uma velha cadeira de balanço que tinha muitos anos. O tremor das mãos começara de novo: - Perdi muito dinheiro, estou falando sério. - Não perdeu, deu. Por que Alexandre é melhor do que eu? Para Alexandre você tem dado m - uito, eu sei. Por que não dá o que me prometeu? A ele você não prometeu, mas a mim, sim, tenho certeza. Você disse que daria o enxoval das meninas. Você disse. Não tenho culpa de não se lembrar agora. Lilian começou a falar agudamente: acusando, atacando. Com a mão direita puxou os cabelos para trás; ainda não se penteara, estava pálida e desgrenhada. A cadeira de balanço rangeu de novo. - Lilian, eu teria muito gosto em auxiliar você. Qual é a mãe que não ajuda um filho quando pode? Mas agora não posso; tenho dado algum dinheiro a Alexandre, é verdade, para auxiliá-lo nos negócios. - Você não tem dado algum dinheiro, você tem dado contos e contos de réis. Sabe para quê? Para ele jogar. Vive nos clubes jogando, é um dos maiores jogadores de S. Paulo e você alimenta o vício dele. Não faz mais do que ajudar um jogador, é isso que você faz. - Está enganada; agora não tenho dado para jogar. Estou auxiliando-o num negócio que ele está realizando. Está comprando… Não devo dizer ainda, ele não me autorizou a falar. - Mentira. É mentira dele. Você acredita em tudo que ele fala. Está fazendo negócio nenhum, está no jogo. Dia e noite. Agora para uma coisa justa como o enxoval da neta você nega, diz que não tem dinheiro. Não tem? Quanto não vale esta casa? E as casas que você tem em S. Paulo? E o dinheiro que tem nos bancos? Para que está guardando? Ajuntando? Economizando para quem? Dê o que é nosso enquanto podemos aproveitar, depois não interessa. Falava bruscamente, a voz cada vez mais aguda; os olhos brilhavam de cólera. A mãe viu-lhe as mãos trêmulas ajeitando o roupão sobre os joelhos. - Quer dizer que depois da minha morte, nada mais interessa? É isso que você quer dizer? - Não quis dizer isso. Mas por que não dá o que é nosso? Enquanto podemos aproveitar? - E com que vou viver? - Você não precisa de muito para viver, não gasta quase nada e ainda tem muita renda. Eu sei. O breve silêncio que baixou entre as duas fez com que o rangido da cadeira de balanço se acentuasse. - Eu não tenho tanto dinheiro assim… - Como não? E se não desse tanto a Alexandre, nós teríamos mais. Alexandre vai arruiná-la, ouça o que estou dizendo. Procurava controlar-se, mas estava cada vez mais nervosa. Continuou: - Com que vou fazer o enxoval de Maria Antonieta? Com que dinheiro? A mãe olhou-a fixamente: - Você quer dizer que não tem dinheiro nenhum? - Não tenho nada. Tenho o dinheiro que meu ex-marido dá para a educação dos filhos, mas não chega. - E por que ele não dá o enxoval? - Ele disse que dará um pouco, mas tudo não pode dar. - Por quê? - Você deve saber que ele não está bem de fortuna, andou tendo uns prejuízos grandes. - Pois eu também tive prejuízos e não posso dar. Lilian levantou-se tão bruscamente que a cadeira baixa rodou para trás; falou alto, os olhos coléricos fixos no rosto da mãe: - Por que não dá? Por quê? Por quê? Tem-se tudo e não se tem nada. O que adianta ser uma Rodríguez? Tenho nome, não é? Nome que devia significar alguma coisa e não significa nada. Antes fosse ninguém, mil vezes não ter nome, não ser ninguém… - Lilian! - Por que você ajuda Alexandre e não pode me ajudar? Por quê? O enxoval da neta mais velha que você prometeu dar, agora diz que não dá. Por quê? O que adianta ser de família importante? Ah! Ah! Ah! Uma Rodríguez! Que vale? - Lilian! Não grite assim. - Grito porque é uma injustiça o que você está me fazendo. É uma injustiça da qual há de se arrepender mais tarde. Um dia você há de se arrepender. Caiu sentada no leito, o rosto escondido entre as mãos; a cadeira de balanço havia cessado de ranger. A mãe levantou-se e aproximou-se da filha; pôs-lhe a mão no ombro: - Não chore assim, você está nervosa. Vamos conversar com calma. Quem sabe poderei auxiliá-la? De quanto você precisa? Se não for muito, eu dou. Lilian enxugou o rosto na manga do roupão, a mãe emprestou-lhe o lenço. Aquela mania de Lilian falar nos Rodríguez, deixava-a doente. Por que a filha falava na família com desprezo? Uma família como aquela que pertencia à nobreza da Europa? Ah! Não podia ouvir isso, era como se a esbofeteassem. Daria alguma coisa para Lilian não falar dos Rodríguez com aquele desprezo. Não. Não permitiria que a filha ofendesse a honra da família, a honra dos antepassados de Alec. Sentou-se novamente na cadeira de balanço e começou a conversar com Lilian; durante mais de uma hora a filha falou, explicou a situação embaraçosa, chorou mais de uma vez, disse que era uma infeliz, e o pior era a pobreza. Meu Deus! Como era pobre! Mais tarde, deixou o quarto dizendo: “Muito obrigada por tudo”. A mãe ficou só e a cadeira de balanço não rangeu mais; durante muito tempo ela ficou ali silenciosa, pensando na enorme quantia que teria de despender com o enxoval. Viu as abelhas sugando as flores, mas não lhes deu atenção. Viu as flores que iam para lá e para cá ao sabor do vento; os cachos eram de um vermelho brilhante, mas naquele instante ela nada via. De repente, levantou-se, fechou a porta, dirigiu-se para uma escrivaninha onde estavam as cadernetas do banco. Pôs os óculos, começou a somar depressa, depressa, sentada diante de uma pequena mesa. “Quanto? Quanto! Oh! Meu Deus! ficarei desfalcada de dinheiro, ficarei quase pobre. Isto é um roubo de Lilian. Como poderei viver? Por que prometi? Não deveria ter prometido coisa alguma”. Continuou a somar, a fazer cálculos, a contar nos dedos. Levou um susto quando ouviu baterem na porta; era Leontina perguntando se podia servir o almoço. - Sim. Pode. Guardou a caderneta, tirou a chave da gaveta e colocou-a junto à da despensa, na cintura. Abriu a porta. Leontina ainda estava ali, como que à espreita. Às vezes desconfiava daquela Leontina; parecia querer saber muita coisa. Perguntou ríspida: - Que é? - Mando vir um lombo para o jantar? A cozinheira diz que não sabe o que fazer… Ela franziu a testa: - Lombo? Não. Para quê? Não tem a carne de sempre? - Tem sim, senhora; mas a cozinheira diz que é para melhorar, para não fazer sempre a mesma coisa. - Não. Ela que faça carne assada. Lombo está muito caro e precisamos fazer economias. Não se esqueça disso, Leontina. Leontina sussurrou: - É por causa das meninas, de D. Lilian… Dirigindo-se para a sala de jantar, respondeu: - Não precisa, estão acostumadas com carne de vaca. Que tolice! Lilian e as filhas regressaram para S. Paulo; as contas foram chegando para a avó pagar. Contas de bordadeira, de costureira, de linhos, de roupas de cama, de mesa. Cada vez que chegava uma conta ela suspirava, quase angustiada. Depois tirava a chave da cintura e ia abrir a gaveta, onde estava a caderneta do banco; punha os óculos, pegava o lápis e começava a somar ou a diminuir. “Meu Deus! Como Lilian gasta. Sempre foi assim, nunca discutiu preço, nunca procurou coisas mais baratas, nada. Fecha os olhos e joga o dinheiro pela janela. Criatura sem juízo. Ela se esquece de que é pobre, que as filhas são pobres. Por que esse enxoval? Está fazendo um enxoval de moça rica. Para que tanta coisa? Diz que é uma Rodríguez; eu sei, eu sei, mas não posso dar tanto assim. Fico revoltada”. A testa cheia de rugas de preocupação, ia assinando os cheques. Depois escreveu uma carta à filha. “Se você continuar a gastar desse jeito, não mando mais dinheiro. É um abuso e não foi isso que combinamos”. Por toda uma semana não chegaram contas. Depois começaram a chegar outra vez e a avó pagava, pagava, resmungando, indignada com as loucuras da filha. Um dia chegou uma carta de Maria Antonieta convidando-a para madrinha. Como? Ainda isso? E ela que não pretendia ir… Chamou Leontina e mostrou a carta; passeou pelo quarto, resmungando: - Não. Não vou, mando dizer que estou doente. E estou mesmo, esta perna está cada vez pior. - Mas eu acho que a senhora deve ir. O que outros irão dizer? E sua neta então? Imagine a tristeza dela… - Que digam o que quiserem. E as despesas que terei de fazer? Não posso, não posso. Protestou durante alguns dias, depois seguiu para S. Paulo, assistiu o casamento da neta mais velha e deu um presente digno de uma Rodríguez. Voltou depois para “meu canto”, como dizia, e jurou nunca mais sair dali, só a morte a levaria. Tornou a somar tudo que sobrara, procurou economizar ainda mais; apesar da perna direita reumática e do andar arrastado, corria a casa todas as noites para verificar se tudo estava em ordem. Abria as gavetas dos armários da cozinha e olhava se havia sobras de pão ou outras coisas; tocava o gato que vinha miar todas as noites, como a pedir comida. - Vá comer na tua casa, deves ter alguma. Entrava no quarto, ofegante. Desde que Alexandre pedira dinheiro a primeira vez, sentia o coração cansado e ficava ofegante todas as vezes que andava ou falava. Leontina aconselhava-a a consultar um médico. Ela protestava: - Não. Não. Isso é a idade. Eu sei o que são os médicos, exploram a gente; começam a dizer que é preciso isto, mais aquilo, exame disto e exame daquilo, só para a gente gastar dinheiro. Não, não quero. Sentava-se na cadeira de balanço e ficava descansando. Desconfiava de todos, achava que a roubariam se pudessem. Trazia tudo muito bem fechado e dormia com as chaves sob o travesseiro. Depois tomava banho e deitava-se, auxiliada por Leontina. Recomendava sempre a água do banho: - Não jogue fora, serve para lavar o banheiro amanhã. - Mas nunca faltou água nas torneiras aqui de casa. - Mas para que gastar tanta água? À toa? Tudo se aproveita. Leontina deixava-a deitada, apagava a luz e voltava para a cozinha; abria cautelosamente a porta do quintal e chamava o gato que estava por ali, esperando-a. Dava-lhe então o prato de comida que escondera sob o fogão: - Come, Negro, corne sossegado que a velha está deitada. Acariciava o gato, depois mandava-o embora; tornava a fechar a porta e voltava para seu quarto, próximo ao de Dora. Ouviu-lhe a voz: - Leontina, que foi fazer na cozinha? - Beber água. No ano seguinte, a segunda neta ficou noiva; recebeu duas cartas, uma de Maria Lúcia contando o noivado, outra de Lilian, pedindo o enxoval. Revoltou-se e disse a Leontina que não daria, passou duas noites sem dormir pensando no dinheiro que queriam arrancar-lhe. Teve palpitações de coração e no terceiro dia quase não pôde falar, de tão cansada. Leontina aconselhou-a a não pensar tanto assim, ficaria com o coração cada vez mais fraco. - Mas estão pedindo outro enxoval, Leontina. Desta vez não posso dar, assim ficarei pobre, estão me tirando todo o dinheiro. Esquecia-se que Lilian era sua filha e dizia: “Estão me tirando, estão me arrancando o dinheiro”. Estava nessa situação quando Lilian apareceu para uma visita de três dias; viera ver a mãe, de quem sentia muitas saudades. Dora apertou os lábios de raiva, sabia o que ela queria, ainda vinha mentindo, enganando. No segundo dia, Lilian falou tudo que queria; os preços estavam mais altos agora, tudo ainda mais difícil. Não sabia como iria viver daí em diante, era uma infeliz. Chorou e levou horas contando todas as desgraças; o filho mais moço era um vadio, não queria estudar, nem trabalhar. Só a ela aconteciam desgraças assim, pois via outras mães tão felizes, com filhos tão bons. Todo o negócio que ela tentava, fracassava, não ia por diante. Já era falta de sorte. Não que fosse gastadeira, pelo contrário procurava até economizar, não esbanjar; assim mesmo o dinheiro fugia-lhe das mãos, desaparecia-lhe entre os dedos como água. Tinha inveja da cozinheira que levava uma vida despreocupada; da lavadeira que não tinha o que pensar, sem responsabilidades; do chofer de táxi que não unha o que gastar; preferia ser uma simples empregada, assim seria muito mais feliz. Não ter responsabilidades, nem filhas para casar, nem enxovais para comprar, nem filhos que não querem trabalhar. Não ter nada em que pensar, poder deitar-se na praia num dia de sol e ficar quieta, feliz, sem pensamentos, sem idéias, sem desejos, olhando para cima, vendo o céu. As preocupações eram tantas, os sofrimentos tão grandes que não sabia há quanto tempo não tinha um dia tranqüilo, uma noite calma, ou um passeio, um teatro bom, um divertimento agradável. Os credores batiam-lhe na porta todos os dias, todas as horas. A mãe olhou-a, surpreendida: - Como? Por que está devendo tanto? Não dei todo o enxoval de Maria Antonieta? Por que está devendo? Lilian respondeu com raiva: - Porque fui criada sem saber o valor das coisas; porque fui criada com luxo tão grande que não sei ser pobre. Não me conformo com a pobreza, acuo um absurdo a gente não poder comprar tudo que quer, tudo que deseja… Quando vejo, as contas estão chegando aos montes. E não gasto quase comigo. Veja. Levantou a barra da saia e mostrou as pernas finas: - Veja minhas roupas, meus vestidos. Este meu tailleur preto é o melhor, tenho apenas duas combinações, uma preta e uma branca e de seda ordinária. Mostrou as pernas até os joelhos: - Veja as meias que uso. Meias de trinta mil-réis, eu que usava só de cem para cima. Isto é vida? Vendi minhas jóias e meus casacos de pele um por um para pagar dívidas. Já tive letras protestadas; só dívidas que me aparecem e me deixam louca, louca. - Se você tivesse economizado como eu, desde o princípio, não estaria assim. - Economizado? Mas eu tenho economizado sempre. Mesmo quando podia gastar, pensava antes de gastar; nunca paguei por um chapéu mais de um conto de réis. Economizei mas fui infeliz. Já vendi até meus vestidos de baile e não deram muito por eles. Aquele branco, não sei se você se lembra, aquele que me custou nos bons tempos cinco contos, vendi por um e quinhentos. É um absurdo. E também não tenho sorte em negócios. Quando aquela minha amiga abria uma casa de meias e eu entrei com b dinheiro, ninguém mais usou meias, começando por minhas filhas. Tivemos um prejuízo grande e meu dinheiro rodou… - Com certeza foi falta de organização. - Você não deve dizer porque não sabe. Minha sócia ficava lá no período da manhã e eu ia quando podia, à tarde. Tínhamos uma empregada de confiança, mas não deu certo. As outras empregadas começaram a roubar meias e só descobrimos mais tarde. Eu não tenho mesmo sorte, sou uma infeliz. Olhe no que fiquei reduzida, eu, uma Rodríguez, quase a mendigar. Você que sempre teve tanto orgulho dos Rodríguez… Chorou, debruçada sobre a mesa, soluços longos e profundos. Havia tocado no ponto sensível da mãe; quando lembravam perto dela o nobre nome da família, ficava inteiramente à mercê dos acontecimentos. Seu velho orgulho subia à tona e tudo seria capaz de fazer para conservar o brilho do nome, aquele nome que ela conquistara à custa de lágrimas e sofrimentos. Ficou pensativa. Poderia deixar a filha naquela situação? Não. Enquanto tivesse meios, auxiliá-la-ia. E afinal de contas, a filha era uma Rodríguez e uma Rodríguez não podia nunca ser muito pobre. Tinha que auxiliar. Consolou a filha dizendo que daria um cheque; com esse dinheiro fizesse o enxoval de Maria Lúcia. No momento de assinar o cheque houve discussão entre elas; o enxoval de Maria Antonieta ficara em duzentos contos, mas o de Maria Lúcia ficaria em mais porque tudo havia encarecido. - Não, disse a mãe, nervosa, as mãos trêmulas. Não darei mais de duzentos não posso. - Mas as coisas encareceram, os preços subiram. Que posso fazer? - Faça o que puder com esse cheque; a questão é que não posso dar mais. - Então vestirei Maria Lúcia com farrapos? Coitada! Vai ficar inferior à irmã, vai sofrer. Ela não tem culpa, coitadinha! Isso é deprimente mamãe. Por causa de uns contos de réis? O que é isso para você? - Houve tempo que não era muito, hoje faz diferença. O dinheiro está se acabando, Lilian, e não tenho mais de onde tirar. - Não diga isso, você tem milhares. Por que não auxilia uma neta pobre? Ela é uma Rodríguez afinal de contas, não pode aparecer maltrapilha. Novamente tocara na corda sensível. A mãe ficou silenciosa uns instantes; sentiu que alguma coisa se desmoronava em seu peito. Não podia evitar. Suspirou, passou o lenço pela testa várias vezes; o suor borbulhava no seu rosto. Tomou depois o livro de cheques, olhou Lilian com um olhar estranho como se a desconhecesse, colocou os óculos vagarosamente, tomou a caneta e fez um cheque de duzentos e vinte contos para o enxoval da segunda neta. Tinha o rosto contraído de dor. Alexandre chegou de repente, antes da partida de Lilian; mal se encontraram durante os dois dias que passaram na casa. Dora percebeu que os filhos se evitavam; percebera isso há muito, desde a morte de Paulo. E todas as vezes que se encontravam, tinham discussões amargas acerca de dinheiro. Eram agora inimigos, um censurava a vida libertina do outro. . No terceiro dia, à tarde, Alexandre estava sentado no terraço ao lado da mãe, quando Lilian chegou da cidade. - Então como vai? Onde tem andado? - Por aí… respondeu ele, vagamente. - Há dois dias que você chegou e mal nos vimos. Estou comprando coisas para o enxoval da minha filha. E você tem estado muito ocupado? Falou num tom irônico, provocador. Vendo que o irmão não estava disposto a conversar, sentou-se numa cadeira, tirou o chapéu, colocou-o sobre a cadeira da frente e começou a passar o lenço pelo rosto. - Leontina bem podia trazer limonada para nós. Leontina! Quando a empregada trouxe a bandeja com os copos de limonada, todos se serviram e Lilian tomou a bebida de uma só vez; esperou a empregada sair e perguntou ao irmão, abruptamente: - Veio buscar mais dinheiro? Quanto quer agora? Alexandre continuou a fumar e não respondeu; Dora olhou a filha, assustada. Por que Lilian falava dessa maneira? - Alexandre! Estou falando com você. Não ouviu? Ele olhou-a, aborrecido. - Ouvi. Vim visitar mamãe. - Ah! Visitar mamãe? A mim você não engana. Algum dia você pensou em visitar mamãe? Tem graça. Riu-se. Dora procurou acalmar a filha: - Lilian, por que fala desse modo? - Por que ele nem liga para você. Agora, vem me dizer que veio fazer uma visita. Que amável, hein? O rosto do irmão ficou rubro. - Por que pergunta então? Não me aborreça. Não seja estúpida. Ela tirou um cigarro da bolsa; seus gestos eram apressados e nervosos. - Não adianta me chamar de estúpida. Sei perfeitamente que você está extorquindo o dinheiro de mamãe. por isso pergunto: “Quanto quer agora?” A mãe tornou a chamar-lhe a atenção: - Lilian, que é isso? Alexandre respondeu, mordaz: - Eu, extorquindo dinheiro de mamãe? E você? Que veio fazer aqui? Quanto já tirou1? Hein? Quanto já extorquiu? A mim é que você não engana. Não me provoque, sei coisas que você pensa que não sei. - Conte o que sabe. Pensa que tenho medo? Mamãe sabe que palavra de jogador não tem valor. Quem não sabe a vida dissipada que você leva? O sorriso do irmão era forçado: - Você falar de mim? Admiro muito. Se eu quiser falar de você, você nunca mais se atreverá a me provocar, tenho certeza. A mãe procurou levantar-se; fez um gesto conciliador para os dois: - Não vale a pena discutir. Não vale a pena, façam o favor. Lilian! A filha fez um gesto enérgico para que a mãe continuasse sentada. - Ele pensa que me intimida. Escute, Alexandre, não tenho medo de você, nem de suas palavras que são calúnias. Mamãe, não dê mais dinheiro para ele. Se eu peço, é para o enxoval de minhas filhas que mamãe prometeu. Haverá coisa mais justa? E você, para que quer? Ele joga e perde tudo. Está devendo fortunas… por isso vem aqui pedir mais. Não dê, mamãe. Não dê que você fica sem nada, ele não paga. Nunca pagará. O irmão levantou-se num ímpeto, como se fosse agredi-la; jogou o resto do charuto no jardim. - Mentira. Mentira. Voltou-se para Lilian: - E você? E a vida que você leva? E o que você disse um dia? Que só depois da morte de mamãe, vai ter sossego, vai levar boa vida. Mamãe, ela deseja sua morte… Ela me disse… Lilian também ficou de pé, o rosto em fúria: - Mentira. Não acredite, mamãe. Eu seria incapaz de uma coisa dessas. Mentira desse infame… - Agora me chama de infame. Você não pode negar uma verdade; você disse que deseja a morte dela, você vive pensando, desejando a morte de mamãe. Agora vem com sorrisos hipócritas: “Mamãe, não faça isso ou aquilo”. O rosto de Lilian parecia arrebentar de ódio; seus olhos despendiam faíscas e seus lábios tremiam; estava furiosa, rubra de furor. A mãe assistia, impotente, a discussão dos filhos; pedia que se acalmassem, fazia gestos com as mãos, que se calassem, que não gritassem dessa maneira, não fizessem escândalo. Cegos de raiva, procuravam investir um contra o outro; não se agrediam fisicamente, mas das bocas raivosas, saíam palavras de ódio que feriam como punhais. - Não minta. Você inventa calúnias contra mim para adular mamãe, para fingir, para ela dar mais dinheiro a você. Eu nunca poderia fazer uma coisa assim… Seria indigno de mim. Não minta para me caluniar. - Falei a verdade e você sabe disso. Se meu crime é jogar, seu crime é muito mais grave, é matar… Se você pudesse… Os dentes de Lilian rangeram: - Miserável. Dora inclinou a cabeça e tapou os olhos com as mãos trêmulas; falou, a voz de choro: - Por favor, Alexandre, por favor… Os dois irmãos estavam de pé, um na frente do outro; pareciam chacais, prestes a se morderem. - Talvez eu seja miserável, mas você é pior do que eu. Seu castigo será terrível. Por esse desejo que você tem, pagará caro. Você não gozará desse dinheiro que tanto espera e sua vida vai ser tão dolorosa que suas lágrimas serão de sangue… - Cale-se. Desapareça da minha vista. Nunca mais quero ver você, hipócrita miserável. Mamãe, mande Alexandre embora daqui… Você diz que está fazendo um negócio é mentira. Você joga e perde tudo no jogo… Vem mentir para mamãe… O rosto de Leontina apareceu, muito pálido, na porta do terraço; observou a cena com olhos dilatados de espanto e tornou a desaparecer. A porta foi cerrada cuidadosamente. A mãe levantou-se com dificuldade e aproximou-se da filha mancando; segurou-lhe um braço: - Lilian, acalme-se, por favor… Voltou-se para o filho: - Alexandre, não fale mais. Vocês estão me matando, vocês… - Não acredite no que ela está falando, mamãe. Ela mente. - Não minto. Você disse que eu quero o dinheiro de mamãe. Quem quer é você. Você me disse uma vez que a “velha” não quer morrer; e a “velha” precisa morrer para você ser feliz. Por isso. - Mentira. Calúnia. - Verdade, Você disse, você disse. - E quem vive pedindo dinheiro para gastar com os amantes? - Não seja ordinário. Quem vive extorquindo mamãe é você. Se pudesse, roubava. Para gastar no jogo… - Cale-se. - Cale-se você. Pensa que não sei de sua vida? Você é que quer que ela morra para poder jogar à vontade. - Mentira. Eu algum dia falei isso? - Falou. Até fez as contas para ver quanto ficava para cada um… Alexandre empalideceu. - Está louca? - Não estou louca; você disse que quando ela morrer… A velha autoridade de Dora veio à tona; era demasiado ouvir os dois filhos mais velhos discutirem sua morte; de pé levantou a mão direita num gesto enérgico como se fosse esbofetear. Gritou para ambos: - Calem-se! Agora eu mando calar. Ainda estou viva. Calem-se! Olharam para ela, admirados daquela atitude insólita. Alexandre deixou o terraço e bateu a porta com estrondo; ouviram os passos dele atravessarem a sala de jantar. Lilian, desesperada, atirou-se sobre uma cadeira de vime; com as mãos nervosas procurou um cigarro na bolsa; resmungou: - Miserável. Ele há de me pagar. A mãe sentou-se também, exausta; inclinou a cabeça e ficou em silêncio, o peito ofegante. Logo mais, viram Alexandre passar e atravessar o jardim; disse a Leontina que não ficaria na casa enquanto a “víbora” estivesse lá. Lilian embarcou para S. Paulo, na manhã seguinte. A sós com Leontina, Dora se lastimou e contou a cena horrível a que assistira; terminou suspirando. - Não posso compreender uma coisa, Leontina. Por que eles são assim ávidos por dinheiro? Só pensam nisso; parece que sem dinheiro, eles não podem nem respirar… Leontina não respondeu. Capítulo 13 Suspirou de alívio quando ficou só novamente. Podia pensar. Passou várias noites sem dormir, preocupada com a situação; os filhos arrancavam-lhe o dinheiro, era como se lhe arrancassem pedaços de carne. Sonhava que demônios furavam-lhe a perna direita, pulando e gritando numa sarabanda sinistra: “Arrancaremos seu dinheiro, velha miserável”. Quando acordava de manhã, banhada em suor, sentia que a perna estava pior, doía-lhe mais. Levantava-se dando gemidos de dor; chamava Leontina para saber quanto de verdura e de frutas haviam comprado aquela manhã; recomendava sempre: “Cuidado, precisamos economizar”. Ia à despensa e determinava o que a cozinheira devia fazer. Media o açúcar; um açucareiro bastava para o dia todo; vendo pouca quantidade, teriam cuidado em não gastar muito. Para que mais? Contava as batatas; resmungava: “Eu, Leontina, a cozinheira, a copeira. Quatro pessoas - oito batatas. Para que mais?” Media o arroz, depois fechava a despensa, dependurava a chave na cintura e ia para o terraço. Sentava-se no canto predileto, via os cachos vermelhos que caíam batidos de sol, via as abelhas à volta das flores num zunir ininterrupto, depois seu olhar ia mais longe e abrangia o mar e as montanhas. Pensava então no filho morto; era com uma prece silenciosa à memória dele. Lembrava-se de quando era pequenino, depois quando fora crescendo, bonito, carinhoso. Sua memória percorria cuidadosamente todos os recantos do passado, parando a cada instante para fixar melhor os momentos mais felizes. Era como percorrer uma longa estrada cheia de curvas e veredas alegres, até o instante em que vira diante de si um abismo. Fora naquela tarde de dezembro, na véspera da festa que as netas preparavam; viu Lilian entrar na sala, pálida e trôpega, como se tivesse encontrado um fantasma. E naquele mesmo instante, pensara em Paulo; chegara a vê-lo morto, ali, diante dela. Pensara consigo que teria coragem, muita coragem para enfrentar o pior. Como sofrerá! Os anos haviam passado, fugira de todos, refugiara-se naquela casa silenciosa porque dali podia ver as montanhas onde ele perdera a vida. Não queria ver pessoa alguma, não queria sair, não queria nada. Vivia de recordações. E agora os outros filhos vinham, um por um, roubar-lhe o único bem que lhe restava. Queriam vê-la pobre. As mãos sobre o colo tremeram de leve. Leontina apareceu na porta do terraço: - D. Dora, o figueiro está no portão. Quer figos? Ela parecia vir de” longe, como se tivesse que caminhar depressa para chegar perto de Leontina. - Quanto? - Oito mil-réis a dúzia. Hesitava. Era muito dinheiro para uma dúzia de figos, gostava tanto dessa fruta. Sempre tivera preferência por figos. Pensava. - Ele está esperando. A senhora quer? - Não, é muito caro. Quando Leontina estava na porta, chamava: - Espere, eu compro. Descia, trôpega, a escada do terraço, levava o dinheiro no bolso do casaco. Examinava os figos um por um; apertava-os, apalpava-os, cheirava-os. Gostava de discutir preços: - Estão muito caros, não posso pagar esse preço. O homem das frutas protestava; dizia que os figos estavam perfeitos, examinasse-os. Toda gente pagava tal preço, não era caro. Eram especiais e para chegarem até ali, tinham viajado muito. Ela tornava a apalpá-los; dizia que um estava maduro demais, outro como pedra. Não podia pagar oito mil-réis por figos ordinários. O homem ficava ofendido e protestava por sua vez; trocava os figos que ela havia achado muito maduros ou como pedra. Ela pedia para baixar o preço, ele hesitava. Discutiam mais. Ela tornava a escolher outros, tornava a cheirá-los, a apertá-los. Olhava-os de perto: - Ah! Este não, veja como está podre. O homem dizia que não, estava um pouco amassado por causa da viagem. Ela que escolhesse outro. Tornava a escolher; tornava a pedir para ele baixar o preço; ele levantava os braços: - Impossível, minha senhora. Impossível. Os preços são os mesmos para todo o mundo. Como posso baixar? E meu lucro? Ele se preparava para empurrar o carrinho; ela assustava-se e pedia que esperasse, queria ver outras frutas. Ele esperava. Ela examinava as peras, as maçãs, outras frutas; voltava aos figos. Dizia ao homem que era freguesa e ele precisava baixar ao menos quinhentos réis. Ele concordava, afinal impaciente: - Está bem, eu tiro os quinhentos réis. Está bem. Ela pagava, satisfeita, já era alguma coisa. Dava um figo para Leontina e, à hora do almoço, comia os outros. Às vezes guardava alguns para durante o dia; mas a fim de não ter que dar outro para Leontina que ficava ali perto, olhando, ia comê-los no quarto, escondida, depois atirava as cascas pela janela e elas desapareciam entre a hera que cobria o chão do jardim. Foi quando o advogado apareceu para conversar sobre negócios; falou durante uma hora, mostrando-lhe a situação. Não era boa. Para satisfazer o pedido de D. Lilian, havia vendido uma casa na Vila Mariana; vendera outras para satisfazer os pedidos do Sr. Alexandre; já não tinha casas em Vila Mariana. Não devia dar tanto dinheiro assim aos filhos, perderia tudo. Ela suspirou e tomou o papel que o advogado lhe apresentou; leu com atenção. As letras se baralhavam diante dos seus olhos; sua respiração tornou-se opressa. Sua voz elevou-se abafada pela cólera: - Mas eu não queria que vendesse as casas da Vila Mariana; se soubesse, não daria procuração. Eu não queria, eram as melhores casas. - O que a senhora queria que eu fizesse? - Fizesse outras coisas, mas não vendesse aquelas casas. Aquelas eram as melhores. O advogado tirou os óculos e fitou-a, admirado: - Mas eu escrevi contando que ia vender. Só agora a senhora vem me dizer isto? Ela esquecera. Lembrava-se vagamente da carta dele, não tinha certeza. Sua cabeça estava ficando fraca, parece que todos queriam seu dinheiro. E se o advogado também quisesse? Não a estaria roubando? Não. Não recebera carta nenhuma, aquilo era roubo. Todos eram ladrões, ladrões. Despediu o advogado e entregou os negócios a outro, indicado por Lilian. Tempos depois, recebeu uma carta de Alexandre pedindo mais quinhentos contos para finalizar a compra das fábricas. O negócio ia bem e daria resultado. Respondeu a carta do filho; infelizmente não podia mandar-lhe o dinheiro, sua situação era bem má, conforme dissera o novo advogado alguns meses atrás. “Sinto muito não poder atender seu pedido, Alexandre, mas creio que já o auxiliei várias vezes e você não pode queixar-se. Com a bênção de sua mãe.” Vários dias se passaram; fora tão fácil, já deveria ter negado outras vezes. Por que dava sempre? Uma madrugada, quando já estava acordada, vendo o sol que se infiltrava através das venezianas, o telefone tocou; era Dorita dizendo que Alexandre sofrerá um desastre, estava mal e pediu à mãe que fosse vê-lo. - Desastre de automóvel? perguntou, assustada. Dorita hesitou: - De automóvel? Sim, um desastre muito grave. Venha hoje mesmo. Trêmula e chorosa, perguntou a Leontina o que teria acontecido; ela era doente, não podia viajar; todos sabiam disso. E se a chamavam e diziam que ela precisava seguir é porque o caso era grave. Que seria? Arrastando a perna doente e apoiada no braço da velha empregada, dirigiu-se para a estação. Viajaram pelo rápido e à noite chegaram. Dirigiram-se para o apartamento de Alexandre; uma mulher muito pálida, com olhos vermelhos de tanto chorar, abriu-lhes a porta. Parada no meio do hall e segurando o braço de Leontina que levava a mala, viu Dorita aparecer numa das portas; o dedo indicador sobre os lábios, a filha levou-as para uma saleta deserta. - Que aconteceu? Está melhor? Com voz cansada, prendendo os cabelos que teimavam em cair sobre a nuca. Dorita murmurou: - Alexandre quase morreu, mamãe. Agora os médicos acham que ele vai se salvar, creio que está fora de perigo. Sente-se, a senhora está tão abatida! A viagem foi fatigante, não? - O que ele teve? Como foi o desastre? A filha olhou à volta para ver se ninguém a ouvia; tinha os lábios sem pintura, a fisionomia cansada, o ar envelhecido. - Cortou as veias dos pulsos, tentou suicidar-se. A mãe estremeceu e segurou com força o braço da filha: - Nossa Senhora, Dorita! Que horror, Maria Santíssima! Caiu sentada sobre uma poltrona e tapou os olhos com as duas mãos; cuidadosamente, Leontina tirou-lhe o chapéu. Houve um breve silêncio na saleta. A mãe gemia e chorava, a criada, de pé ao lado dela, segurava-lhe o chapéu; a maleta jazia no tapete perto da porta. Dorita, no meio da sala, suspirou e olhou a mãe, meio caída sobre a poltrona; aproximou-se dela e acariciou-lhe os cabelos. - Foi horrível. Quando me chamaram, encontrei uma sangueira no banheiro, só vendo. Chamamos um médico que mora aqui no prédio, felizmente ele estava em casa e salvou Alexandre. Depois veio a Assistência. Custou o sangue parar de correr. Foi um pânico aqui no prédio; quando cheguei estava um reboliço, toda gente aqui dentro… Acabou de pôr em ordem o penteado da mãe e parou de falar; Dora levantou os olhos e perguntou, tímida: - Por que ele fez isso? Por que, Dorita? - Dinheiro. Ele tinha umas dívidas grandes para pagar e não tinha dinheiro. Eduardo e eu achamos que foi isso… O olhar da filha era tristonho; a mãe baixou a cabeça, humilhada, como se fosse culpada de tudo. - Oh! Meu Deus! Novo silêncio. O olhar de Leontina, dilatado pelo susto, percorria a saleta e ia de Dorita para Dora, depois para a porta, para o tapete sem fixar nada. De repente, tirou um lenço do bolso do casaco e enxugou, rápida, os olhos. Dorita continuou ao lado da mãe, segurando-lhe as mãos. - Não posso vê-lo? Perguntou Dora. - Pode. Creio que pode; espere aí, vou saber se ele está acordado. Quando a filha dirigia-se para a porta, a mãe perguntou, ainda chorando, mordida de curiosidade: - Escute uma coisa, Dorita. Quem é essa moça que me abriu a porta? - Carmen, a moça que vive com Alexandre há mais de três anos. Ah! é verdade, a senhora não conhecia. Eu também fiquei conhecendo agora. A mãe deu os quinhentos contos que Alexandre precisava; novas casas foram vendidas. A partir de então, receando que o filho tentasse novamente contra a vida, não negou mais. Acabrunhada pelos acontecimentos, voltou para o Rio. Sentia o coração mais pesado e a perna mais dolorida; não tomava remédios. Para que gastar à toa? Era uma árvore velha e carunchosa, não havia cuca. Instalou-se de novo na sua casa de Copacabana e continuou a percorrê-la duas vezes por dia para verificar se não havia sobras de pão nas gavetas da mesa da cozinha ou para enxotar o gato faminto, sentava-se depois no canto do terraço e olhava as montanhas. Uma manhã, Leontina apareceu com a novidade: - Estão dizendo que arrebentou uma guerra na Europa. - Guerra? Quem disse isso? - Estão dizendo. O verdureiro ouviu falar na cidade, a vizinha do lado também falou. Todo o mundo está falando, parece que é contra a Alemanha. Mandou comprar um jornal; há muito tempo deixara de ler jornais porque nada a interessava e não queria gastar inutilmente. Agora precisava saber se aquela história de guerra era verdade. A Espanha entraria na guerra também? As letras dos jornais dançaram diante dos seus olhos. Leu as notícias todas para ver se compreendia o motivo, tudo ficou vagando levemente em seu cérebro, não compreendeu bem. Só sabia que havia guerra; estavam combatendo em algum lugar da Europa, devia ser o fim do mundo. Recordava-se da primeira grande guerra e do quanto a Europa sofrerá. Refugiou-se em seu canto e ficou com o jornal aberto sobre o colo, pensativa. Nos dias seguintes, quando Leontina veio perguntar se não queria que comprasse mais jornais para saber como ia a guerra, disse: - Para que saber, Leontina? Não adianta nada e não me interessa. Foi quando recebeu uma tarde, a visita de Dorita. Estivera com ela em S. Paulo por ocasião do desastre de Alexandre; haviam passado muito tempo conversando, lado a lado, na sala do apartamento. Naquele desespero em ver Alexandre tão mal, esquecera o ressentimento que alimentava contra a filha. Quando a viu entrar na casa de Copacabana, trazendo pela mão o filho mais moço, assustou-se; era a primeira vez que recebia a visita de Dorita. Observou-a bem; tinha o corpo cheio, parecia mais alta, com aspecto agradável; a gordura fizera quase desaparecer os ombros caídos e o corpo desajeitado; a pele do rosto era lisa e bem tratada. Acolheu a filha sem saber como tratá-la; temia recebê-la muito bem e ouvir pedido de dinheiro. Se não a tratasse bem, teria remorsos, ela era a única que nunca pedira nada. Acariciou a cabeça do neto, perguntou por toda a família; Dorita tinha mais dois filhos. Contou que os deixara em S. Paulo com a sogra; só trouxera o mais moço porque ainda era criança, os outros estudavam. Viera com o marido; ele tinha negócios a tratar no Rio e ela aproveitara para visitar a mãe. Conversou sobre fatos da família; as filhas de Lilian que haviam se casado, o filho que não queria trabalhar; falou sobre seus próprios filhos, abriu a bolsa, tirou um retrato e mostrou à mãe. Falava depressa, um pouco nervosa; não se sentia à vontade, todas as suas atitudes pareciam falsas; sempre se sentira assim diante do olhar perscrutador da mãe. E era a primeira vez que a visitava depois de tantos anos, não sabia como seria recebida. Mandou o filho passear no jardim, com Leontina; ficaram então a sós e silenciosas, uma diante da outra. A voz da mãe era seca e breve quando perguntou: - E seu marido como vai? Era a primeira vez que lhe perguntava pelo marido; Dorita reconheceu o tom de voz autoritário de anos atrás. - Vai bem. Sempre pergunta pela senhora. Olhe, mamãe, nunca tive ocasião de contar que não me arrependi, até hoje, de haver casado com Eduardo. A senhora não imagina como ele é bom pai e bom marido; somos felicíssimos. Falou as últimas palavras sorrindo, alegre. Parecia mais à vontade desde que a mãe tocara no assunto proibido entre ambas. A cortina que as separava durante tantos anos, fora corrida, agora tudo ficara mais claro, mais agradável também. Mais compreensivo. Via melhor os contornos de tudo que as rodeava, parecia ler os pensamentos, adivinhar os corações. Sentia-se de uma leveza serena, como se pairasse acima da terra. A mãe pensou que mesmo que fosse o contrário, Dorita nunca confessaria. Dorita era como uma rocha, nada a demoveria de uma resolução. Assim fora quando quisera estudar, depois quando quisera viajar e o pai acabara consentindo. E assim fora por ocasião do casamento. Era como ela, a mãe. Nesse ponto, eram iguais: tinham grande força moral. - Ele tem negócios aqui no Rio? Não sabia. Dorita suspirou: - Só nisso não temos sido felizes; os negócios não vão nada bem. Pelo contrário, vão mal. As mãos da mãe começaram a tremer, um tremor imperceptível. O que a filha iria pedir? Quanto? Não, não daria. Impossível. - Todo o dinheiro que herdei de papai foi empregado numa nova Companhia; convidaram Eduardo para tomar parte e comprar algumas ações; a senhora compreende, os diretores da Companhia eram gente boa, tudo parecia indicar bom futuro, parecia que ia dar certo, enfim. Eduardo pôs todo meu dinheiro nesse negócio e sabe o que aconteceu? A Companhia quebrou-se, tudo rodou por água abaixo… Agora ele veio até aqui para ver se consegue reaver alguma coisa, veio falar com algumas pessoas influentes na política. E eu aproveitei para visitar a senhora. Ele mesmo sugeriu: “Faz tanto tempo que não vamos ao Rio, aproveite para visitar sua mãe”. Houve um silêncio. O coração da mãe começou a bater depressa, depressa. Quanto ela iria pedir? A filha levantou-se e foi se debruçar no parapeito do terraço para ver onde o menino estava; viu-o no portão olhando melancolicamente a rua; sorriu para ele e voltou para junto da mãe. Sentou-se e observou-a. Dora estava na mesma atitude de indecisão; iria ouvir um pedido de dinheiro? Que faria? Recusaria? Começou a transpirar fortemente, a testa gotejando. Leontina entrou com uma bandeja e copos de limonada. A mãe respirou, aliviada com a interrupção. Tomaram limonada aos golinhos, fazia calor. Dorita sorria: - Lindo dia, não? Aqui no Rio os dias estão lindos. Em S. Paulo tem chovido muito, não há um dia assim há tempos já… Só chuva. Voltou-se para a mãe: - A senhora precisa tratar-se, mamãe. Eu já disse a Leontina quando entrei, é preciso chamar um médico. Leontina disse que a senhora se queixa sempre da perna direita, precisa ver o que é isso. E o coração? Parece que tem palpitações, não é? Ela resmungou: - Foi Leontina que andou dando com a língua nos dentes, não é? Não tenho nada, só velhice. Leontina tornou a contar, a falar que D. Dora perdia o sono, algumas vezes com dor na perna, outras vezes com palpitações. Não podia continuar assim… Dorita insistiu: - É preciso chamar um médico, mamãe. Tome uns remédios, deve melhorar. Parece que sua perna está inchada, não pode ficar desse jeito. A senhora não é velha para sofrer assim, deve ser alguma coisa… Quando Leontina saiu, Dora perguntou, receosa: - Mas seu marido tem colocação, não tem? A filha sorriu: - Claro que tem. Graças a Deus não deixou o emprego. Foi o que nos valeu. Quando arrebentou a guerra, ficamos com medo de alguma coisa, agora não, até há mais serviço. Hesitou um pouco e continuou: - E eu vou trabalhar também… - Você? Trabalhar? - Por que estudei tanto na mocidade, mamãe? Não se lembra? Ofereceram-me um lugar de professora num colégio e eu aceitei. A senhora sabe, temos três filhos para educar e perdemos nossas esperanças de riquezas. Acho que devo auxiliar meu marido. Depositou o copo vazio na mesa do terraço; a mãe olhou-a, perplexa. Teve vontade de perguntar: “Uma Rodríguez trabalhar?” Mas não disse nada, sabia que a filha nunca dera valor ao nome. - Professora de quê? - De História Universal. Foi bom ter aprendido a fundo, agora vai me auxiliar a ganhar a vida. Pagam bem. Riu satisfeita, despreocupada. A mãe observou-a; teve a impressão de firmeza, de felicidade; a filha parecia leve, sem peso algum a perturbar-lhe, dava a impressão de pairar acima das preocupações. Naquele momento teve certeza de que, dos quatro filhos, Dorita fora a única a possuir o segredo da felicidade. - Você fala em ganhar a vida como se seu marido não tivesse emprego. - Modo de falar, mamãe. Meu ordenado vai ser guardado intacto para nossa futura casa. Sorriu de novo. Como? A filha não viera pedir dinheiro? Nada? Perdera a herança do pai e ia trabalhar. Então? Sabia que a mãe ainda era rica, por que não pedia? Por quê? Quem sabe pediria no momento de sair? Muita gente deixa os pedidos para o fim da visita. - A senhora compreende, mamãe. Nunca tive medo de trabalhar, sempre gostei até. Os filhos já são grandes e não me dão trabalho. E quatro aulas por semana não vão me atrapalhar muito. Eu gosto… Temos idéia de construir uma casa, já compramos o terreno. Depois que construirmos a casa, ficaremos mais tranqüilos e então, talvez, eu deixe as aulas, conforme. Vamos economizar bastante para isso. Eu já disse para Eduardo que todo o dinheiro que eu ganhar vai para o Banco. Não tocaremos nele. Será para a casa… Essa guerra horrorosa, dizem, vai encarecer tudo. Não sei. E tudo já está tão caro, estou pagando oitocentos réis a dúzia de banana. Veja que horror; bananas! Voltou-se como se tivesse se lembrado de repente: - Outra coisa, mamãe: quando tivermos nossa casa, a senhora poderá passar temporadas conosco, as crianças vivem perguntando pela vovó Dora. Eu falo muito na senhora, não quero que elas esqueçam. A mãe olhou, admirada, para a filha. Não estaria enganada? Era a primeira vez que um filho a convidava para sua própria casa. Seria possível? Sentiu uma leve umidade nos olhos. Justamente Dorita… Se a senhora quiser, poderá morar conosco. Nossa casa vai ter um quarto para vovó Dora, todos já sabem. Eduardo diz sempre: “O que significa sua mãe morar sozinha no Rio? É uma vida muito triste, convide-a para passar temporadas conosco; o que ela devia fazer era acabar com a casa no Rio e vir morar conosco”. A mãe procurou compreender. Não. Aquela amabilidade, aquela generosidade, ocultavam alguma coisa; queriam-na lá para extorquir-lhe dinheiro, para explorá-la; queriam, decerto, que ela pagasse regiamente o quarto, a comida, assim seriam auxiliados. Não podia ser outra coisa; bondade e generosidade não existem no mundo. Acertara. A gentileza e o oferecimento de Dorita tinham outros fins. Bem que adivinhava. Agradeceu com frieza o oferecimento da filha. Dorita levantou-se para chamar o menino; tinham que ir, viera só um instante, o marido esperava-a na cidade para o almoço. Tornou a falar sobre o médico; a mãe não podia continuar assim, sem tratamento. Concluiu ao despedir-se: - Eu vou mandar um médico aqui, não se aflija. Vem por nossa conta. A mãe protestou: - Não é por isso que eu não chamei, não é pela despesa., . A filha pôs-lhe a mão no ombro, num gesto protetor: - Eu sei, mamãe, mas se eu não mandar, a senhora não chama. Deixa isso por nossa conta, viu? Então, até amanhã. No dia seguinte, depois que o médico saiu, a mãe contou para Leontina: - Dorita pagou tudo, médico e receitas. - A senhora devia convidar eles para jantar, assim acaba tudo de uma vez. Eu acho seu Eduardo uma pérola de marido. Ela ficou atarantada, sem saber se convidaria ou não. - Ele também? - Pois então. São casados há tantos anos, a senhora nem conhece o genro direito. - Vi Eduardo algumas vezes, quando as meninas se casaram e quando Alexandre esteve doente. - Convide os dois. D. Dorita é tão boa, nunca vi. Mandou médico, pagou as despesas.. . Ela telefonou para o hotel onde a filha e o genro estavam hospedados; Dorita respondeu que agradecia muito o convite, infelizmente tinham que seguir para S. Paulo naquela mesma noite, iriam um instante para as despedidas; levaria os remédios. Ela então foi para o quarto, abriu a gaveta fechada a chave, hesitou entre um nota de dez e outra de vinte mil-réis; depois pegou a de vinte, alisou-a entre as mãos uma porção de vezes e guardou-a no bolso do casaco. À tarde quando Dorita chegou com o marido e o filho, ela recebeu-os amavelmente, ofereceu refrescos e café; lamentou não poderem ficar para o jantar. No momento de se despedirem, deu ao neto a nota de vinte mil-réis: “Para você comprar qualquer coisa na viagem”. Durante os cinco anos de guerra que se seguiram, o coração de Dora de Rodríguez foi ficando tão mirrado e pequeno como seu próprio corpo. Tal qual a árvore velha, cujos galhos pendem para os lados, sem seiva, seu corpo curvou-se para a frente, também quase sem vida; quando andava, arrastava cada vez mais a perna doente. Seu coração foi como que se fechando para as coisas boas da vida. Afeto e carinho quase não existiam para ela. Nada a preocupava a não ser o dinheiro. Alegrou-se quando viu o racionamento de carne, de açúcar, de manteiga; as despesas seriam menores e os empregados não poderiam reclamar. Mas ficou apavorada com o custo da vida. Não se acabaria nunca aquela vida cara? Quando fez sessenta e cinco anos, Dorita e o marido mandaram-lhe, de presente um pequeno aparelho de rádio: “Para a senhora ter notícias do mundo. Vive tão isolada e não lê jornais, assim saberá o que se passa e ouvirá boas músicas”. Não gostou. Pensou logo nas despesas que o aparelho de rádio poderia trazer; quando lhe disseram que não haveria quase despesas, ela consentiu em mandar instalá-lo. Determinou a si mesma que ligaria o aparelho apenas duas horas por dia, de manhã e à noite. Assim fez. Quando ligava das onze ao meio-dia Leontina deixava o serviço e se aproximava humildemente para ouvir. Com o correr dos anos, era mais uma companheira do que empregada, apesar de trabalhar regularmente e fazer toda a espécie de serviço. Sentava-se perto do aparelho e ficava ouvindo, embevecida. No fim do mês, quis saber se as despesas haviam aumentado; consentiu mais tarde que ficasse ligado durante três horas, a pedido de Leontina. Falou várias vezes em mandar retirar o telefone, seria uma despesa a menos. Para que telefone, se ela não falava com ninguém? Leontina pediu que deixasse o telefone, os filhos gostavam de falar de vez em quando. Passou dois anos sem comer figos, não teve coragem de dar por eles o que os fruteiros pediam. “Para que gastar inutilmente?” Era seu lema. Vivia noite e dia em sobressalto, esperando cartas dos filhos mais velhos, pedindo dinheiro; e isso a deixava mais doente, o coração mais cansado. E durante esses cinco anos, Alexandre e Lilian pediram dinheiro: “Mamãe, é a título de empréstimo, depois pagarei”. Ela dava ordem ao advogado para que enviasse a quantia pedida, temendo que os filhos cometessem loucuras. Nunca podia esquecer o susto que experimentara ao ver Alexandre estendido no leito, pálido, quase morto. Depois que satisfazia os pedidos de dinheiro, ficava de cama, dois, três dias, impossibilitada de mover-se, cansada de sofrer, cheia de dores. Gemia, queixava-se a Leontina, debatia-se em pesadelos quando dormia. Achava que o advogado devia fazer alguma coisa, recusar, dizer que não, ela ficaria pobre. Pobre! preferia morrer. Recusava-se a tomar remédios, não se tratava, antes morrer do que ficar pobre. Mais de uma vez, entregou os negócios para outro advogado, na esperança de que fosse mais enérgico e negasse o dinheiro aos filhos, desde que ela não podia negar. Vinha um pedido de Lilian: “Mamãe, é para auxiliar os estudos de Ernesto, não tenho o suficiente. Meu ex-marido não deixou nada, quem mais me auxiliará a não ser você?” Era como se lhe arrancassem pedaços de carne; tornava-se mais taciturna, mais odiosa. Leontina perguntou-lhe um dia: - Por que não dá suas jóias, D. Dora? A senhora não usa mesmo, dê para suas netas, elas aproveitam. Desconfiou de Leontina; ela também lhe cobiçava as jóias, queria roubá-las; há muito tempo percebera isso. Mandou chamar o novo advogado e pediu-lhe que guardasse o cofre de jóias, tinha medo de tê-lo em casa, podiam roubar. Soube que Lilian estava casada outra vez; a própria filha escreveu-lhe contando. Antes do primeiro marido ter morrido, Lilian havia se casado de novo, mas nunca lhe apresentara esse segundo marido; desconfiava às vezes de que era mentira de Lilian, ela não estava casada, sempre fora mentirosa. Uma noite, estavam sentadas, ela e Leontina, ao lado do aparelho de rádio, quando ouviram uma voz dizer: “Brasileiros, de pé para ouvir os nomes dos primeiros soldados do Brasil mortos nos campos de luta da Itália”. Vagarosamente, Leontina levantou-se, os olhos lacrimosos. Ela revoltou-se: - Por que chora? Tem algum filho lá? Algum marido? Algum irmão? Não seja boba. Parece uma boba. - Tenho dó das mães, dos parentes, D. Dora. Tenho dó deles mesmos, desses que morreram lá tão longe. Coitados! Foi resmungando para o quarto, arrastando a perna, corpo e coração mirrados e cheios de ódio. Capítulo 14 A neta mais velha escreveu-lhe um dia que iria passar uma semana no Rio e levaria a filhinha, queria que a avó a batizasse. Leu alto a carta para Leontina ouvir; resmungou, tudo estava difícil, por que a neta ia visitá-la? Por quê? Ainda queriam que ela batizasse a criança, isso com certeza era para ela arcar com todas as despesas. Não deviam convidar velhas para madrinhas de recém-nascidos. Recebeu Maria Antonieta, a criança e uma empregada; mandou preparar a parte de cima da casa; sentiu-se mal com os hóspedes o dia todo a andarem em cima, a subirem e descerem escadas. Não tinha sossego, com medo das despesas; tratou a neta sem carinho, não procurou agradar a criança; queixava-se sempre de doente. Rezava todos os dias para que as visitas fossem logo embora; exagerava o racionamento para não ter nada extraordinário na mesa. Foi uma manhã à igreja para batizar a criança; desculpou-se com o marido da neta, chegado na véspera, por não oferecer um almoço especial naquele dia; estava muito doente e tudo racionado. Quando os viu embarcar, ficou aliviada. Não convidava os parentes. Por que vinham? Somente as cartas de Dorita davam-lhe um pouco de paz ao coração. Eram alegres, esperançosas, faziam-lhe bem. As últimas diziam que haviam começado a construir a casa; ela seguia com interesse as notícias. “Está nos alicerces.” Chamava Leontina e contava: “A casa já está nos alicerces”. Depois veio outra carta: “Mamãe, a casa está subindo; domingo estivemos lá, está da altura do Eduardinho”. Chamava: - Leontina, ela diz na carta que a casa está da altura do Eduardinho. - E a senhora vai mesmo morar lá? Hesitava: - Não sei bem, mas pelo menos vou passar uma temporada. Você vai comigo. Foi quando recebeu uma carta do advogado dizendo que iria procurá-la na próxima semana. Ficou aflita, esperando. Ele chegou uma tarde, um pouco embaraçado com o que tinha a dizer. Era um homem de quarenta e poucos anos, quase inteiramente calvo, usava óculos. Amigo de infância dos filhos mais velhos de Dora. Começou a explicar a situação muito delicadamente, dizendo palavras de animação e conforto. Perguntou por toda a família, elogiou o tempo agradável do Rio; tirou o lenço do bolso e passou-o pela testa mais de uma vez. Depois resolveu entrar no assunto resolutamente; tirou uns papéis de dentro da pasta e começou a falar, a explicar, a mostrar números e recibos. Ela, a princípio, ouviu com coragem, depois foi se sentindo deprimida; percebia nas entrelinhas e nas reticências que os negócios iam muito mal. Sua fortuna devia estar muito abalada. Quanto restaria ainda? Levantou-se e chamou Leontina; pediu café. Era preciso tomar café para compreender, sentia seu cérebro envolto numa névoa. Que se passaria com sua fortuna? Estaria mesmo abalada? Queria saber quanto ainda restava, precisava perguntar isso. Era o principal. Deixou a pergunta para depois do café; quando Leontina entrou com a bandeja, houve uma pausa e tomaram café muito lentamente, cada um com seus pensamentos. De repente o advogado conversou alegremente, elogiou a casa, o jardim, o bairro. Ela escutava sem ouvir o que ele dizia. “Preciso perguntar quanto me resta. Preciso saber.” Ficaram sós de novo. Ele mergulhou a cabeça na papelada aberta sobre a mesa; falou, explicou, rodeou o caso muitas vezes antes de chegar ao objetivo. “Quanto me restará? Quanto me restará?” - A senhora ficará com esta casa que é muito boa e vou lhe dar um conselho para melhorar sua situação: alugue a parte maior e fique residindo na outra. Deve alugar para uma senhora que deseje ter alguns pensionistas. É apenas um conselho que dou. Será uma espécie de pensão, mas a senhora nada terá com isso, ficará morando em seu cantinho, bem sossegada, como está acostumada. Deve ser uma senhora de respeito que procure só pessoas finas para residirem aqui, gente escolhida. Assim viverá do aluguel e creio que será um bom aluguel; para a senhora vai dar de sobra. Vida econômica, sem grandes gastos. Quantos quartos tem a casa? Gostaria de ver, principalmente lá em cima, mas não se incomode. Chamarei a empregada, não se levante. Mostrava-se protetor e bondoso, pondo-lhe a mão sobre o ombro e sorrindo. Tudo foi resolvido e feito rapidamente. Apareceu um dia uma senhora muito bem vestida dizendo que alugaria a casa, desejava ter pensionistas, mas só gente escolhida. Alugou a parte maior. Dora de Rodríguez, acompanhada da velha empregada, instalou-se na parte de trás, do lado esquerdo. Passou a ocupar uma sala pequena, um quarto e um banheiro; o quarto dava apenas para duas camas, uma em frente à outra. A sala servia também de sala de jantar; ali foram colocadas uma mesinha redonda, algumas cadeiras e um guarda-louça. A cadeira de balanço não cabia no quarto, ficou num canto da sala de jantar. Ela perdeu o terraço, a vista do mar e das montanhas; ficou desorientada. A dona da pensão muito gentil, ofereceu-lhe o terraço; quando quisesse, poderia sentar-se ali, gozar a vista admirável. Suas mãos gordas rescendiam a água-de-colônia: - A senhora aprecia a paisagem? É tão bonita com as montanhas e o mar; tudo tão azul, um pouco branco também. Eu adoro. Quando quiser o terraço, está às suas ordens. A empregada me disse que a senhora passava parte do dia lá. Pode continuar, à vontade, não quero modificar sua vidinha. Dora, que passara todos aqueles anos olhando aquela paisagem e evocando o filho, magoou-se; agradeceu, mas nunca mais voltou ao terraço. Um dia veio-lhe um pensamento: E as jóias? Como se esquecera das jóias? Valiam uma fortuna. Levantou-se, trôpega, dirigiu-se à mesa e escreveu ao advogado pedindo que lhe mandasse o cofre de jóias, precisava delas. Parece que Lilian adivinhou; ela, que não visitava a mãe há tanto tempo, chegou um dia antes do advogado mandar as jóias e foi entrando na salinha contando a novidade: - Eu e meu marido estamos separados, mamãe. Não suportei mais; bebia e jogava desbragadamente, no fim vivia implicando com Ernesto. Deus me livre! Posso suportar muita coisa, mas que brigue com meus filhos, não. Tudo tem limite. Deixou a bolsa e o chapéu sobre a mesa da salinha, riu-se e comentou: - Você está bem instalada aqui, pensei que estivesse pior. Dorita vive preocupada com você. Tem rádio, uma boa saleta, só perdeu o terraço, mas isso não tem importância, você não enxerga muito bem. Tirou um cigarro da bolsa, acendeu-o e continuou: - Olhe, separei-me de meu marido, mas não posso com a vida do filho. Estou desanimada e larguei mão dele. Impossível pensar que Ernesto venha a ser alguma coisa na vida. Nada. Está com dezoito anos e não faz nada; só quer namorar e andar na folia. Desconfio o pior, que está jogando. - Mas ele tem dinheiro para jogar? - Um pouco que eu dou, um pouco que a outra avó dá, assim vai indo. É uma lástima. Tem voltado tarde para casa e quando falo, esbraveja, faz um escarcéu. Tenho pena da minha caçula; Maria Clara conheceu a riqueza, viu as irmãs se casarem com luxo e agora sabe que não tem nem a metade do que as mais velhas tiveram. - Ela está noiva? - Não. Trabalha. Arranjou um empreguinho num escritório da cidade e vai todos os dias. Ganha para se vestir. Levantou-se, chegou até à porta que dava para o quintal e voltou-se para a mãe: - Sabe que vou me casar outra vez? E vamos morar numa chácara no caminho de Santo Amaro? Ele tem uma chacarinha lá. Riu-se: - Acha que sou velha demais para casar mais uma vez? Ele é pobre, tanto quanto eu, mas seremos companheiros um do outro na velhice. Olhe, mamãe, sinto a velhice chegar, vem com passos lentos, mas vem. Vamos criar galinhas e Maria Clara vai morar conosco em Santo Amaro. Que se há de fazer? Ela tem que ir e vir todos os dias, trabalhar, não há outra solução. Ela é muito ajuizada, felizmente. Enfim, vai se tocando a vida, não é, Leontina? Já vem o café gostoso que só Leontina sabe fazer, ela não se esquece. Fazem café aqui mesmo? E comem da pensão? Que tal? Vou pedir à mulher que me arranje uma cama, durmo aqui mesmo na sala. Só por urna noite… No dia seguinte levantou-se de mau humor porque não dormira bem; foi dar umas voltas pela praia e quando voltou, viu a caixa de jóias no colo da mãe; seus olhos brilharam de cobiça: - Ah! O advogado mandou? Sempre eu pensava: que mamãe terá feito das jóias? São lindas, hein, mamãe? E como você passou a noite? Dormiu bem? Leontina disse que às vezes você não dorme. Eu passei mal, estranhei a cama, estranhei tudo. Sentou-se ao lado da mãe: - Vamos ver essas belezas… A mãe não tivera tempo de ocultar a caixa; acabava de recebê-la quando Lilian entrou; procurou uma evasiva: - São jóias velhas, você conhece todas. - Mas quero ver, faz tempo que não vejo. E quem sabe vou ganhar alguma… Piscou para Leontina que estava de pé ao seu lado. A mãe abriu o cofre de má vontade; havia broches, pulseiras, correntes de ouro, jóias antigas, braceletes. Com uma exclamação, Lilian tirou do cofre um colar de pérolas e brilhantes; levantou-o na mão e gritou: - Que amor de jóia, que delicadeza! Tinha-me esquecido dela. Veja, Leontina… A mãe aproveitou a ocasião; rápida, escolheu o anel mais bonito, um brilhante grande, escondeu-o junto ao lenço, no bolso do casaco. Lilian tirou as jóias, uma a uma, fora do cofre; parecia febril diante do que aquilo representava em dinheiro. Pegava uma, outra, colocava no braço, nas mãos, no pescoço. Foi diante do pequeno espelho do banheiro se olhar. - Já tinha me esquecido deste colar. Que lindo! Ofegante, perguntou de repente: - E seu anel de brilhantes? Onde está? Aquele grande? - Que anel? - O que papai deu, o maior brilhante que você tinha. A mãe esperava a pergunta; respondeu procurando ser calma: - Ah! Vendi há muito tempo, numa ocasião em que estava precisando de dinheiro. Com a mão direita dentro do bolso do casaco, apertou o anel contra o lenço. - Ora, mamãe, vai ver que vendeu por uma ninharia, justamente o mais bonito, o mais valioso. Por quanto? Que crime! - Nem me lembro bem quanto deu. - Como não se lembra? Faz tanto tempo assim? Quando foi? O olhar da filha era vibrante, perscrutador, desconfiado. - Parece que apurei cinqüenta e poucos contos; foi para dar dinheiro a Alexandre. - Que horror. Hoje você pegaria mais de cem contos com aquele anel, talvez mais. As jóias estão custando uma fortuna. Que pena! Tornou a examinar as outras, fora do cofre: - Que vai fazer com isto tudo? - Não sei ainda… Pedir ao advogado para guardá-las outra vez. Eu não uso mais jóias. - Guardar? Para quê? Ora, mamãe, seja mais generosa, mais liberal. Lembre-se das suas netas; já não falo de mim porque não tenho pretensões, mas suas netas. . . Querem tão bem você e você não dá nada. - Como não dou nada? Não dei um enxoval riquíssimo para cada uma? - Isso você tinha prometido, não é dar. Mas nunca deu jóias. O que adianta guardar isto de novo? Não é, Leontina? Sua voz foi se tornando aguda; tinha um tom aflitivo. A mãe sentiu palpitações e as mãos começaram a tremer: - Mas são jóias que recebi de seu pai, não posso ir dando assim à toa. - Mas você não usa, não se importa com elas, não aproveita. Dê para quem aproveita. Isto é o cúmulo! Olhou, perplexa, para a filha. - E dar para filhas ou para netas é o mesmo que você usar. Pois não fica na mesma família? É melhor usar do que ficar apodrecendo neste cofre. Que adianta guardar? Que adianta pensar que estão bem guardadas num banco? Não vê, não aproveita, não aprecia. Você sempre foi assim mesmo; o que é seu, não dá para ninguém, nem para as filhas. Para quem quer dar então? Quando a gente morre, não leva jóias… Leontina refugiou-se no quarto; não gostava de presenciar discussões em família. A mãe procurava acalmar-se, mas tinha ímpetos de expulsar Lilian, não vê-la ali à sua frente. Falou, amarga: - Quando eu morrer, vocês repartirão os despojos. Mas espere que eu morra. A voz da filha era ainda mais aguda: - Quando morrer? E por que não agora? Quem sabe vou morrer antes? Todos nós temos que morrer, isso não é novidade, mas esperar morrer para dar, não é justo. Só gente miserável faz assim. Seja generosa e dê agora, assim aproveitaremos desde já. Depois talvez seja tarde, podemos morrer antes. Com as pontas dos dedos, apalpava os anéis, as pulseiras, os brincos; tinha o olhar intenso de cobiça. Quase sem poder respirar, a mãe olhava o rosto envelhecido e pintado da filha, contraído de ambição, debruçado sobre a mesa, e começou a guardar de novo as jóias. - Não. Espere, depois receberá o que é seu. - Bem se vê que você nunca nos quis bem, nunca nos amou como uma verdadeira mãe. Papai sentiu isso, Alexandre sentiu isso, Dorita nem se fala, é mais inteligente e foi quem percebeu primeiro, por isso saiu de casa. Paulo, coitado, morreu. Eu também notei, mas nunca quis acreditar, agora está confirmado. Você sempre pensou em você primeiro, depois nos outros; mesmo os filhos e o marido sempre ficaram em segundo lugar. Todos em segundo plano, o mundo inteiro abaixo e você predominando sobre os seres, sobre todas as coisas. Foi o que você quis sempre: dominar, mandar, ordenar. E você sempre por cima, como uma soberana! Deu uma risada aguda e levantou-se para sair; começou a procurar o chapéu, as luvas, o casaco, nervosa e aflita: - Leontina, onde está meu casaco? Vou-me embora! Como uma soberana! Riu outra vez bem alto, sarcasticamente, cinicamente. A mãe então ficou de pé com dificuldade e apoiou a mão esquerda sobre a mesa; a perna doía-lhe muito. Com a mão direita crispada de ódio e de velhice, tomou um monte de anéis, broches, pulseiras, brincos e atirou-o com força para o outro lado da mesa, onde Lilian vestia o casaco; algumas rolaram ruidosamente para o chão. Leontina de pé, na porta da sala, olhava a cena, quase sem acreditar no que estava vendo. Lilian curvou-se, apanhou as jóias e jogou-as depressa dentro da bolsa. A mãe continuava a atirar com furor: - Toma. Toma. Toma. Com um sorriso cínico, a filha ia recebendo a saraivada de jóias; com gestos imperturbáveis passava todo aquele tesouro para sua bolsa. Quando o cofre ficou vazio, a mãe encaminhou-se para fora da sala e dirigiu-se, mancando, para o quarto. Ouviram-na fechar a porta. Sentou-se, arquejante na beira do leito; tirou o lenço do bolso e abriu-o: lá estava o grande brilhante magnífico. “Este ninguém me tira, este é meu, meu, meu”. Lembrou-se de fazer um saquinho de pano e prendê-lo na camisa, junto ao corpo. Procurou logo linha e agulha para trabalhar, não podia perder tempo, ninguém deveria saber, nem Leontina. “Leontina também não, também não.” Na saleta, Lilian perguntou, satisfeita: - Estará tudo aqui? Será possível que todas sejam minhas? Que sorte! Abriu a bolsa e examinou-a serenamente; depois foi para o banheiro colocou o chapéu diante do espelho, despediu-se de Leontina dando-lhe um tapinha no ombro e partiu. No portão, disse à criada, rindo-se muito: - Afinal, ela nem me deu parabéns pelo casamento. Nem perguntou o nome do noivo! As cartas de Dorita eram gotas de luz naquela dolorida e pobre velhice. Não vinham todas as semanas, vinham de quinze em quinze dias; alegres e esperançosas. Contava os progressos dos filhos nos estudos, suas lições de inglês, as aulas que ela própria dava no colégio, o dinheiro que estava reservando para a casa, e mesmo sabendo-a pobre, continuou a dizer que o quarto a esperava na casa nova. Uma das últimas cartas dizia: “A casa vai subindo. Sábado puseram o telhado, as crianças estão radiantes. Seu quarto vai ficar muito bom; não é muito grande, mas terá aqui todo conforto. Até o fim do ano, a casa estará pronta”. Leu-a para Leontina e passou o dia todo com vontade de chorar porque Eduardo escreveu, no fim da página: “Teremos muito gosto que a senhora venha morar em nossa companhia”. Guardou a carta, comovida, e quando a criada perguntou o que havia, respondeu que estivera sentada perto da porta e o vento fizera-lhe mal aos olhos. Sentia-se mais só, agora que não tinha mais dinheiro, nem jóias. Lamentava não haver procurado compreender Dorita; Dorita fora sua única amiga, sabia-o agora, tão tarde. Era boa e nobre, aquele mesmo coração magnânimo do pai, e ela não procurara compreender, desprezara até os tesouros de carinho e amor que aquela filha poderia ter-lhe dado. Sentada na cadeira de balanço, na pequena sala que lhe restava, procurava ouvir o ruído longínquo do mar, já que não mais podia vê-lo. Vivia do passado, aquele passado que não conseguira reter, que fora magnífico e ao qual não dera valor. Agora que tudo se fora, lembrava os mínimos detalhes. Perguntava a si mesma: Não soubera viver? Não soubera reter? Desperdiçara o que possuíra de melhor? Sim. No fundo da sua consciência, ao recapitular a mocidade, via que pusera a perder o que a vida lhe dera de melhor. Preferira valores materiais e deixara passar os únicos que embelezam e enchem uma vida. Amara o dinheiro e tivera as mãos cheias dele, mas embriagada pela riqueza, negligenciara o amor do marido e abandonara a melhor das filhas. Compreendeu que saber viver é um dom, uma sabedoria; saber dar valor a fatos que à primeira vista parecem insignificantes, mas que no fundo são de grande valia é uma virtude. Lembrava os conselhos do pai: “Quando você estiver triste, seja qual for o motivo, pense nas coisas piores que poderiam ter acontecido e não aconteceram. Pense naqueles que estão sofrendo muito mais que você, nos doentes incuráveis, nos aleijados, nos infelizes, nos indigentes.” Rira desses conselhos, achara o pai simples, quase pueril, quando dizia: “Procure dar valor às coisas simples da vida, aos pequenos prazeres que estão ao seu alcance; umas horas de boa leitura, uma refeição agradável, uma linda música. Cultive as boas amizades, lembre-se de que a amizade sincera é um bem precioso. Lembre-se de que uma hora de solidão faz bem a quem tem o espírito inquieto, perturbado; lembre-se de que tudo há de vir a tempo, não corra ao encontro de nada, não force os fatos, pode sofrer desilusões. Filha, se toda a gente soubesse dar valor a pequenos fatos, a vida seria um paraíso”. Errara. Não cultivara a flor do espírito. Só dera valor aos grandes bens materiais que o dinheiro pode comprar e desdenhara os bens espirituais. E agora que perdera a fortuna… tinha ã impressão de que nada mais ficara, perdera tudo… Poderia ter possuído ambos e agora, no fim, reter alguma coisa. Não. Não tinha amizades, nem o amor dos filhos. Tinha Dorita, apenas Dorita… Não… Não perdera tudo. A esse pensamento, seu rosto contraiu-se num sorriso quase alegre; ficara aquele anel de valor inestimável, e apertava-o nervosamente contra o peito. Sorriu ao sentir junto ao corpo o saquinho de pano que fizera naquela tarde para guardar a pedra resplandecente. Lilian, tão esperta, tão sabida, fora enganada. A tola! Pensava que ninguém era inteligente como ela, ninguém tinha iniciativas tão rápidas quanto ela. Apalpando a camisa, sentiu junto ao coração o anel valioso. Ali estava uma fortuna e ninguém poderia cobiçá-la; ninguém poderia roubá-la. Nem Leontina. Que felicidade! - Que importava o resto? Mesmo a parte que ocupava agora, aqueles três cômodos onde morava, não lhe pertenciam mais; acabara vendendo a casa para a mulher que dava pensão. A verdade é que Alexandre precisara ainda uma vez de dinheiro e recorrera a ela. Quando não teve mais dinheiro para dar, recebeu uma carta do filho dizendo que ia se casar com Carmen “minha companheira de tantos anos” e comprar terras no Paraná. Nem foi se despedir, agora que ela estava pobre. Mas que importava tudo isso? Tinha ali aquele anel que valia uma fortuna e ele não sabia. Lilian não sabia, ninguém sabia. Sorriu e apalpou o saquinho. Acordou um dia com o corpo todo dolorido e não quis levantar-se. As buzinas dos automóveis tocavam, os sinos badalavam, as gentes das ruas gritavam, havia clamores por toda a parte. Mesmo na pensão, do outro lado da parede, podia ouvir pessoas que vinham e iam, rindo alto; os rádios cantavam, as pessoas falavam umas com as outras. Leontina entrou, excitada, no quartinho; tinha a fisionomia transtornada, a voz rouca: - Acabou a guerra na Europa, todo o mundo está falando. Quer que ligue o rádio? - Acabou a guerra? - Sim, senhora. Quer que traga o rádio para cá? Fez que sim com a cabeça e esperou. Que importava a guerra? O principal é que o brilhante estava ali, havia iludido os filhos, ninguém sabia. Sorriu. Leontina ligou o rádio perto da cabeceira. - Quem ganhou? - Os aliados, nós também somos aliados. Ela ficou ouvindo as notícias; com as pontas dos dedos, apalpava o tesouro que trazia ao peito. Não entendia bem a voz que falava no rádio; era uma voz masculina e falava tão depressa que ela precisava esforçar-se para acompanhar, compreender. Ouviu hinos; sim, tocavam hinos de várias nações, eram músicas bonitas, repassadas de patriotismo. Ficou ouvindo e lembrando o que Dorita dissera sobre a guerra; usara termos fortes, revoltada contra as barbaridades. Lembrava-se muito bem que repetira barbaridades - mais de uma vez. De repente seus olhos tiveram um brilho diferente; Dorita dissera que tudo estava difícil por causa da guerra e tudo havia encarecido. E agora? Agora a guerra terminara e os preços das coisas iriam baixar. Tudo ficaria mais fácil e ela poderia comer figos outra vez. E camarões e morangos. Comeria peixes caros, pato com maçãs, tudo o que não provava há muitos anos por causa da guerra. Agora a guerra terminara, podia comer o que quisesse. Lagosta também. Sentiu água ajuntar-se-lhe na boca. Ficou inquieta e procurou levantar-se, a voz do rádio perturbava-a. Por que falava tanto? Leontina veio auxiliá-la. Ficasse na cama, estava muito fraca. Queria que desligasse o rádio? Leontina desligou o aparelho e perguntou se ela queria um prato de canja. Sentada na cama, as pernas nuas e magras pendentes para fora, os cabelos brancos desgrenhados, Dora ainda apertava o saquinho com o brilhante junto ao peito. - Se eu tomar canja, a mulher vai cobrar caro. Você disse que uma galinha está custando muito dinheiro. - Mas a senhora precisa tomar qualquer coisa, não tem comido nada. Vou pedir à dona da pensão um prato de canja. - Não. Espere. Vá perguntar primeiro quanto ela cobra por um prato de canja. Só um. Não posso gastar dinheiro à toa. Leontina penteou-a e auxiliou-a a deitar-se de novo. Ficou então imóvel, deitada de costas, apertando a jóia contra o coração. Sorriu olhando o teto; era rica outra vez. Riquíssima. Aquele brilhante não valia uma fortuna? Lilian dissera que as jóias estavam caras e aquele brilhante era muito valioso. Compraria uma casa, talvez ali mesmo na praia, para ver as montanhas onde Paulo morrera. Teria tudo. A mesa farta, frutas e pratos caros, teria uma boa cozinheira, melhor do que tivera até então, daria um vestido preto e bom a Leontina, ela estava precisando, Leontina sonhava com um vestido de seda com gola azul-clara, bordada de lantejoulas, dissera isso uma vez. Tomaria um automóvel todas as semanas e iria passear nos bairros do Rio. Sua casa daria para o mar e teria um terraço bem grande; nesse terraço, ela se sentaria numa cadeira de lona listrada de azul, bem cômoda, ao lado de uma mesinha de ferro, coberta de azulejos com figuras, como já tivera na linda casa da Rua Maranhão. Sobre a mesa, refrescos variados e um copo; de hora em hora, tomaria um refresco diferente nos dias de calor: caju, coco, laranja. Nos dias frescos, Leontina traria um café quente e forte como ela gostava, e broinhas de fubá que há muito tempo não provava. Teria mais ainda, teria novamente as mãos cheias de dinheiro, mas não o daria aos filhos. Não! Seria dela, dela só, todo aquele dinheiro. Seria novamente feliz. Com aquele brilhante, compraria a felicidade. Que importava o resto? Faria bons vestidos, iria aos teatros, convidaria amigas para um chá de quando em quando. Respirou forte apertando o saquinho com o brilhante. Sabia que tendo dinheiro, teria amigos; ninguém gosta de gente pobre. Pobre! Tinha asco da pobreza. Lembrava-se do tempo de seus pais, na cidade do interior quando nada possuíam, nada… E o resto da família tratava-os, sem entusiasmo, sem carinho. Tolerava-os apenas. Por quê? Porque eram pobres. A respiração tornou-se ofegante e seu peito subiu e desceu aflitamente. Só receava que alguém descobrisse seu segredo, tinha medo de desmaiar, perder os sentidos. E se a roubassem? Se a própria Leontina quisesse saber o que havia dentro do saquinho? Não. Não podia perder a felicidade, agora que a conquistara de novo. Seu olhar angustiado passeou pelo quarto procurando um esconderijo para seu tesouro. Não havia lugar algum onde esconder o brilhante; deveria ficar ele junto ao corpo. Tirou o saquinho de perto do coração e apressadamente, para que ninguém a surpreendesse, pregou-o com mãos trêmulas no outro lado do peito; assim, se desmaiasse e alguém se lembrasse de apalpar seu coração, não encontraria o brilhante. Sentiu-se mais calma; gotas de suor borbulhavam-lhe na testa. Olhou à volta para se certificar de que Leontina não estava escondida por ali, espiando; tranqüilizada, fechou os olhos para descansar. De repente, lembrou-se da última carta de Dorita e procurou-a sob o travesseiro; lá estava ela, toda amarfanhada. Leu os melhores trechos, os óculos na ponta do nariz: “A casa ficará pronta para o Natal, contamos com sua presença para a inauguração. Vá se aprontando desde já”. Mais adiante, estava escrito: “E se quiser, ficará definitivamente conosco, depende somente da senhora. Já sabe qual é nosso desejo”. Sorriu. Passaria temporadas em S. Paulo com sua filha muito querida. Como Dorita era boa! Era mesmo o símbolo da bondade. Onde estivera esses anos todos, onde estavam seus olhos, seu coração, que não haviam descoberto Dorita? “Minha pobre filha!” Seus lábios tremeram de leve ao pronunciar essas palavras. Tirou os óculos e com a ponta do lençol, enxugou os olhos úmidos. “Querida filha!” Ouviu hinos, vozes e risos; sinos badalavam. Que significaria aquele barulho? Que tinha aquela gente que gritava nas ruas? “Ah! É verdade, a guerra terminou na Europa.” Capítulo 15 Nos belos dias de sol, passearia na praia apoiada no braço de Leontina. Havia de sarar; teria muito dinheiro para chamar vários médicos e para o tratamento; chamaria dois, três, até acertarem com a moléstia. Ficaria boa da perna e não teria angústia no coração. A guerra terminara, toda a gente seria feliz outra vez, ela também. Quando os filhos pedissem dinheiro, diria que não tinha. Não daria. O melhor era não contar a ninguém que estava rica outra vez, os filhos não precisavam saber. Ela mesma compraria uma casa e trataria de tudo. Por que não? Só Leontina o saberia porque morava com ela, ninguém mais. Ninguém Ninguém. A mesa seria farta, como no tempo da Rua Maranhão. Comeria lagosta todas as semanas, gostava tanto! e os figos? Compraria caixas inteiras todos os anos; e daria dois para Leontina, dois para a cozinheira, dois a cada um dos outros empregados. Teria um bom jardineiro, gostava de cravos e rosas; queria dois canteiros de cravos brancos e vermelhos, um só de rosas brancas, outro só de príncipes-negros. Cheirosas, lindas, embaladas pelo vento da tarde. Lembrou-se da mãe plantando cravos no jardim da fazenda Boa Vista. Oh! Como estava longe aquele tempo! Tinha passado por tantos caminhos e por que se lembrava dos dias longínquos? Voltou-se de lado, a mão sempre apertando o saquinho Viu os canteiros na frente da casa, o pai batendo o sino para chamar os colonos; ouviu o sino badalar, badalar, gostava daquele som. Lembrava-se de como ficava quietinha, encolhida na cama para ouvir melhor. A mãe levantava-se de madrugada, todos levantavam tão cedo. Que sono! Esfregava os olhos antes de se levantar. Por que acordar assim tão cedo? Os colonos passavam sob sua janela; levavam enxada nos ombros iam capinar o cafezal. Abria a janela, sentia o cheiro de mato e dizia: bom dia! - para os que passavam. O sol entrava no quartinho pobre; não havia tapetes, não havia cortinas. Só conhecera o luxo anos mais tarde. Onde mesmo? Na Rua Maranhão na casa dos Rodríguez. Ela era uma Rodríguez, não devia esquecer. Nunca! Tinha que ter dignidade até o fim, até na hora da morte. Quem gostava de falar assim? D. Fernando. Batia a mão peluda no peito e sua voz retumbava como trovão; soltava gotas de saliva entre as frases; e a palavra “muerte” saía da sua boca como se fosse um tiro. Estrondava e ensurdecia: “Hay que tener dignidad siempre, hasta el fin, hasta la muerte”. Estava D. Fernando apontando em sua direção, o dedo longo e peludo, ameaçador e profético. Vestia o vestido de chita vermelho e saía para fora; ouvia a voz da mãe: “Venha tomar café primeiro”. Café com leite e broa; não havia pão fresco, nem manteiga. Às vezes a broa estava dura e a mãe a cortava em pedacinhos que punha dentro da xícara, para amolecer. No verão, havia já sol àquela hora; um sol vermelho e quente que abafava a fazenda, cobria os cafeeiros de calor; as frutinhas vermelhas brilhavam aos seus olhos. Acompanhava o pai e os irmãos que iam para a roça; colocavam-lhe na cabeça uma grande touca de pano. A mãe dizia: “Levem Dora. Ela é fraquinha, precisa do ar da manhã”. Sempre a dizerem que era fraca, que andasse direito senão ficaria corcunda, que era magra, que era feia. E sempre fora assim fraca, pálida, os ombros caídos para a frente, muito magrinha. Via os colonos trabalhando na capinação; quase ninguém falava, só ouvia o ruído das enxadas contra o solo duro. Pan! Pan! Pan! Às vezes batiam numa pedra e o som era diferente, metálico. Os irmãos capinavam também ao lado dos colonos. Ela ficava por ali, mordiscando as frutinhas dos cafeeiros: “Vamos ver esta que gosto tem. Ih! Está docinha. E esta? E esta?” Procurava uma porção, deitava-se na terra poeirenta e olhava o céu: “Que forma tem aquela nuvem? Vamos ver aquela o que será. Um galo! Um carneiro!” Ria quando achava uma nuvem com cara de gente. Parecia Benedito, o encilhador de animais. Às vezes parecia com seu Chico Pela Certa, aquele homem que dizia toda a hora: “Pela certa, vizinho”. Ria baixinho, depois cobria a cabeça com a touca e via o sol amarelado através do pano. Como era bom estar ali, sentindo o cheiro do mato que as enxadas decepavam! Pan! Pan! Pan! Cada erva tinha um cheiro diferente e ela gostava de amassar entre os dedos uma ervinha e cheirar conhecia várias delas. Com os olhos fechados dizia que planta tinha nas mãos, só pelo cheiro. Voltava com o suor a brilhar nas faces coradas; os pais olhavam e riam: “Olhe como ela está ficando forte!” Durante o dia, fazia croché, brincava na horta; todas as tardes, andava a cavalo e acompanhava o pai até à divisa da fazenda. O nome da fazenda tinha razão de ser; de qualquer lado que a gente olhasse, a vista era boa. Boa Vista! Por que se lembrava tanto do que estava tão longe? Dizem: os velhos vivem do passado. Não era verdade. Ela só pensava no presente e no futuro; o futuro seria belo, com dinheiro e honrarias outra vez. Não devia esquecer que era uma Rodríguez. Nunca. “Hay que tener dignidad.” As noites eram silenciosas; o lampião de querosene no meio da sala; um lampião grande, leitoso, pintado de flores vermelhas e azuis. Ela se deitava no sofá de palhinha ou na rede, a cabeça no colo do pai. Ficava olhando o lampião; a chama amarela tremia, subia, descia, aumentava e diminuía; todos conversavam, ela não ouvia. Olhava o lampião e pensava no dia seguinte; haviam combinado visitar a fazenda do seu Jucá Dantas. Iriam a cavalo, atravessariam o regato, a mata, o cafezal, depois chegariam à casa do vizinho. Ele diria, rindo, o grande chapelão de palha cobrindo-lhe a cabeça: “Olhe quem vem aí, Sinhana. Quem é vivo, sempre aparece”. Daria palmadinhas no ombro do pai, apertaria o seu queixo e diria: “Como esta menina está ficando forte!” O vento leve que entrava pela porta fazia o lampião balouçar; parece que a chama ficava contente, punha-se então a dançar. Pulava no ar, queria fugir, atravessar a sala, ir até o jardim, visitar todas as flores, falar um segredinho a cada uma, voltar outra vez para a prisão e ficar quieta, como se estivesse fingindo, dentro daquele lampião pintado de vermelho e azul. A guerra terminara. Não haveria mais “barbaridades” como dissera Dorita. Não haveria combates, nem bombardeios, nem fome, nem horrores, nem tristezas, nem ranger de dentes. Não haveria criancinhas famintas, nem gente morta nas estradas, nem gritos de dor, nem tiros de canhão, nem lágrimas de mãe a olhar o filho esfacelado por bombas nas fugas apressadas das cidades em chamas. Aqueles cinco anos de luto e dor haviam ficado para trás, já pertenciam ao passado. Que felicidade! Os moços já não morreriam assassinados, os soldados não partiriam para as frentes de batalha, os pais dormiriam tranqüilos daí em diante que os filhos voltariam todas as noites para casa; e se estivessem longe, escreveriam: “Estamos bem e com saúde”. Aqueles anseios, aquelas aflições, aqueles tempos sem notícias ou com más notícias, haviam passado. Por isso o sino da igreja próxima estava badalando alegremente: dlin-dlin-dlin, e todo o mundo falava alto, e os rádios cantavam. Parecia o sino da Boa Vista, quase o mesmo som; tocava todas as tardes para os colonos deixarem o trabalho; enxadas nos ombros, eles passavam e diziam: boa tarde; - voltavam para suas casas. O cheiro de comida enchia o ar da fazenda; polenta e cebolas fritas. A noite caía mansamente; grilos faziam cri-cri nas moitas de periquitos, cães ladravam longe, vozes falavam num tom abafado; as casas dos colonos eram uma fileira de luzes na escuridão. O lampião leitoso balouçava-se na sala de jantar, ela ficava olhando. Mais tarde, as luzes iam-se apagando uma a uma, como olhos se fechando para dormir. E a escuridão reinava por toda a parte. A mãe vestia-lhe a camisola branca e punha-a na cama. “Reze primeiro.” Ela ajoelhava-se no chão, inclinava a cabeça sobre o leito e rezava. Rezava pensando noutra coisa; depois dizia: boa noite - e se deitava; a mãe saía levando a vela. Escuridão. Tomava banho em bacia, seus vestidos de chita, seu corpo era magro, tão magro que às vezes a mãe dizia, apalpando-lhe os ossos dos ombros: “Você precisa engordar um pouco, está tão magrinha”. Subia em todas as árvores do pomar, ia espiar o gado comer sal em grandes cochos sob a árvore do pasto, via de longe os animais se perseguirem na época do cio. Assistia o trabalho da mãe no jardim; remexia a terra dos canteiros, adubava, plantava. Os cravos eram brancos e cor-de-rosa, viçosos e grandes. “Menina, me ajude aqui.” Ela ajudava; ia buscar água num regador pequeno, para regar os cravos. Suava, o corpo dobrado para a frente, o regador pesado; cambaleava com o peso e a água espirrava para fora molhando-lhe os pés. O pai observava, sério: “Por que deixa esta menina carregar peso?” Depois vinham as rosas, algumas cor de fogo, outras amarelas, outras brancas. Achava-as lindas; tinham pétalas transparentes, carnudas, bonitas. Só ela era raquítica e feia, magra e curvada para a frente. E os sinos badalavam. Dorita dissera: “A senhora não imagina o que é esta guerra. Os prisioneiros dos campos de concentração estão sofrendo mais do que Cristo sofreu. Ah! Quantos mártires! Arrancam-lhes as unhas, deixam-nos sem comida e sem agasalho. Morrem de frio e fome todos os dias”. E ela ficara pensando: “Sofreram mais do que Cristo”. Mexeu-se no leito, sentindo falta de ar, era seu coração que estava enfraquecendo; não devia recordar com tanta intensidade, estava fazendo-lhe mal, era preciso pensar em outras coisas. Por que gostava tanto de rosas e cravos? Por causa da Boa Vista? Os de lá eram tão bonitos, tratados por sua mãe. Coitada! Morrera quase só, parecia tão triste nos últimos tempos. Ela não podia visitá-la sempre, tinha muitos compromissos, jantares a dar, compras a fazer, reuniões, chás, não tivera culpa. A mãe morrera quase só, mas ela não ia morrer, ia viver muito ainda e gozar a imensa riqueza que estava junto ao seu corpo, em sua mão direita. Apertou o brilhante para senti-lo bem; ali estava ele, valioso, grande, deslumbrante… Por que sentia falta de ar? Por que Leontina não voltava? Por que Dorita não vinha visitá-la? Seu coração parecia querer arrebentar, fazia tanto calor naquele quartinho! Era parecido com aquele quartinho da Boa Vista, sem cortinas, sem tapetes. Que abafamento. Lá fora havia sol e alegria. O mundo inteiro cantava. Não… Ela não podia morrer, agora que o mundo ia ser bom de viver, sem guerras, sem mortes brutais, sem esfacelamentos, sem barbaridades, sem aqueles que sofreram mais do que Cristo. Mas por que pensava em morrer? Porque seu coração parecia intumescido. Mas não estava. Iria viver muito ainda, teria uma casa em frente ao mar, queria ver o movimento das ondas e as montanhas. O dia inteiro, o dia inteiro. Seria tão feliz. “Oh! Paulo, meu filho; já vivi tanto depois daquele dia!” Seus olhos encheram-se de lágrimas; voltou-se com dificuldade e procurou levantar-se, não teve forças. Seus dedos magros crisparam-se sobre a colcha; ficou de costas, olhando o teto, o rosto inexpressivo e parado, a respiração ofegante. “Parece que vou morrer… estou sozinha… sozinha. Não terei medo. Não devo esquecer que sou uma Rodríguez e não devo ter medo. Nunca!” Na fazenda Boa Vista, o pai plantara um arrozal e dissera: “Vamos ganhar muito dinheiro, vamos vender este arroz, vamos ter lucro, vamos ficar ricos. Sinto-me orgulhoso porque é o primeiro arrozal da zona. E diziam que aqui não dava arroz”. E toda a fazenda era um vale de paz e progresso; as plantações iam bem, o cafezal estava carregado, as chuvas haviam vindo em tempo, o inverno fora suave; tudo era promissor. Seriam ricos. Seriam mais ricos que todos da vizinhança, por causa do arrozal. Se ela morresse agora, deixaria o brilhante para Dorita; era a única que merecia. Por que pensava em morrer? E uma tarde, os gafanhotos vieram; eram milhares de milhões; cobriram a Boa Vista como uma nuvem espessa, as plantações ficaram pretas de bichos. Toda a gente correu para defender os meses de trabalho e suor que aquilo representava; mas como se os gafanhotos fossem uma praga enviada pelo céu, tudo foi inútil. Gritos, bater de latas, valas, tudo fora em vão e todo o trabalho estava perdido. Em poucas horas, a Boa Vista ficara em ruínas; na terra pelada e vermelha, havia leves sinais de que ali existira uma plantação. Pobres, mais pobres do que antes. Dora Laura Vidal de Rodríguez começou a perder a consciência; na confusão do seu cérebro, reviu a ruína da fazenda; como se todo o tempo vivido depois nada significasse. De repente um pensamento passou-lhe pela mente, como se uma leve claridade, uma breve luz brilhasse ali, antes de se apagar para sempre: os Rodríguez haviam terminado assim, num caos. Como se uma praga houvesse devastado a família. Haviam perdido tudo: honrarias, prestígios, dignidade, dinheiro. Nem o nome que fora seu orgulho, sua razão de ser, subsistira. O vestidinho de chita colado ao corpo magro, o coração assustado, vira desaparecer em poucas horas, tudo o que fora verde e viçoso. Os cafeeiros vergavam-se ao peso dos gafanhotos, seus galhos estalavam e quebravam; milhões de pés de café ficaram inutilizados, as frutinhas vermelhas rolaram no pó. Ouvia o pai dar grilos de mando para o lado do arrozal, via a mãe dirigindo os homens e as valas abertas recebendo os bichos; via o jardim desaparecer num instante e na horta não ficar nem um pé de couve. E no dia seguinte, o cheiro nauseabundo se espalhou no ar; na terra dura das estradas, outros milhares de gafanhotos haviam nascido e já se encaminhavam para devorar o pouco verde que ainda restava. Seu coraçãozinho pulou de susto ao procurar a grande árvore do pasto, onde os animais descansavam e fugiam do sol impiedoso; não existia mais, apenas galhos nus levantavam-se para o céu e a árvore parecia trêmula e envergonhada na horrível nudez. Sentiu os lábios secos e quis chamar Leontina; queria água. Não pôde falar. Por que ninguém vinha? Ela estava mal, talvez morresse. Não. Não morreria, tinha o brilhante com ela, tinha a fortuna, não podia morrer. Havia de possuir uma casa em frente ao mar, um terraço bem grande, no qual ficaria sentada olhando as montanhas. E os Rodríguez? Uns haviam morrido, outros haviam ficado pobres. Nada restava senão um jogador e uma depravada. Sim. Lilian era uma depravada, ela sabia. Agora dissera que ia se casar outra vez. Mentira. Não era casamento. Mentira. Suspirou. Os Rodríguez iam se extinguindo, iam desaparecendo. As filhas de Lilian haviam se casado com rapazes insignificantes; ouvira dizer que Maria Antonieta vivia mal, ouvira até falar em separação. Carlos, o único irmão de Alec não se casara; seu filho, Alexandre… Era como D. Fernando, jogaria até perder tudo, ela sabia. Como D. Fernando. Só restava Dorita; precisava dar aquele anel a Dorita, era uma boa filha. “Do-ri-ta!” Os velhos Rodríguez passaram em desfile na sua imaginação; viu D. Fernando, amável, e conquistador. Alto e magro, as mãos compridas como pernas de aranha, malicioso e escarnecedor. Inclinando-se ao ouvido de todas as mulheres e dizendo galanteios. Sutil e velhaco. Viu D. Isidro ajuntando dinheiro num saco enorme que levava nas costas; parava de quando em quando e contava alto: Dez. Vinte. Cinqüenta Cem. Mil. Ria muito quando dizia - mil e, quando ria, sacudia os ombros e as moedas tilintavam dentro do saco. Arrastava um rosário de contas negras que caía da sua cintura até os pés. D. Isidro perdeu-se na sombra gritando e rindo: Mil-Mil-Mil… Até que não ouviu mais sua voz. Viu D. Paulo, simpático, bom, generoso. Do seu charuto, nuvens de fumaça subiam para o ar. Estava rodeado de gatos, de charutos, sentado numa poltrona de veludo verde, falando com respeito sobre os antepassados. Apontava com o charuto retratos esquisitos na parede da sua casa e falava envolvido na fumaça. A prima Justina parecia viva, tão bem se lembrava dela. Gorda e alegre, falando alto, exuberante nos gestos, dando tapinhas nas costas de um, segurando no braço de outro, beliscando a face dos primos. O grande colar de pérolas rodeando-lhe o pescoço farto, atraindo olhares de cobiça e inveja. Tão belas e graúdas, as contas pareciam grãos de milho. E prima Justina mostrando a cintura grossa, contando a toda a gente que estava emagrecendo e toda a gente rindo discretamente. Depois vieram os filhos dos velhos Rodríguez; lembrou-se do marido, bondoso e amigo, lembrou-se dos seus próprios filhos. Somente a imagem de Dorita persistiu. - Dorita! Sua voz mal pronunciou o nome. Sentiu gosto de sangue na boca. Ao menos o brilhante estava ali, apertado em sua mão. Que riqueza! Lembrou-se de Paulo pela última vez, procurou alguém a quem dizer uma palavra. O suor da agonia brotou-lhe na fronte; não deveria ter medo, era uma Rodríguez, não poderia esquecer. Nunca! Procurou arrumar as roupas sobre o corpo, pudicamente, e cruzou as mãos sobre o peito; na direita, apertava ainda o brilhante. Com ele, compraria novamente a felicidade, ninguém poderia roubá-lo. Era seu. Daria um vestido preto com gola azul para Leontina, teria uma casa em frente ao mar, comeria o que quisesse, não faria economias. Para quê? Seria riquíssima outra vez. Os gafanhotos haviam destruído a Boa Vista, mas agora não havia gafanhotos. Os sinos tocavam, mas não eram os da Boa Vista, tocavam porque a guerra terminara. Que felicidade! O mundo iria ser feliz outra vez, ela também. Iria a S. Paulo uma vez por ano e daria um presente a cada filho de Dorita. Dorita era boa. Como não percebera antes? Chamaria Dorita para um canto do quarto e mostraria o brilhante: “Veja o que tenho aqui na palma da minha mão”. Dorita ficaria admiradíssima e diria: “Mamãe, guarde bem. Não vá alguém descobrir essa fortuna”. A Dorita ela contaria, Dorita era boa filha. Mesmo sabendo-a pobre, convidara-a para morar com eles. Insistira até. A casa devia estar quase pronta, ela iria ver logo, logo. Ainda havia gente boa no mundo… Alexandre e Lilian haviam se extinguido em seu coração, nada mais restava deles. Tinham sido maus filhos. Só Dorita persistira porque era boa, ela recompensaria Dorita. Ela também ia viver muito, não queria morrer. Queria saborear a riqueza, ter uma linda casa, criados, automóvel. Queria comer o que gostasse, figos todos os anos. Mostraria ao mundo o que era uma Rodríguez, da nobre família de Rodríguez, da Espanha… Ali estava ele bem escondido, apertado na sua mão. Tentou sorrir, mas o rosto crispou-se de dor. Por que sofria tanto? Onde estavam os Rodríguez? Foi como se uma praga tivesse caído e destruído tudo… Nada ficara. Não. Ela ainda estava ali, Dora Laura Vidal de Rodríguez e mostraria ao mundo o que era uma Rodríguez. Começou a agonizar. Foi quando se lembrou de D. Fernando e viu-o na sua frente, alto e magro. Batia a mão no peito e sua voz retumbava como trovão; soltava gotas de saliva entre as frases e a palavra “muerte” saía da sua boca como se fosse um tiro. Estrondava e ensurdecia. Começou a tremer, tremer, a mão crispada sobre o tesouro. Queria viver. Ah! Ela queria viver. Então ouviu as palavras de D. Fernando, as lágrimas brilhando nos cantos dos olhos; viu-o apontando em sua direção, o dedo longo e ameaçador: “Hay que tener dignidad siempre, hasta el fin, hasta la MUERTE!” Fim do livro